quinta-feira, 30 de julho de 2015

É NAS FÉRIAS DO POVO, QUE OS ABUTRES ESTÃO MAIS ATENTOS E VIGILANTES!


Sei bem que em tempo de férias,  a leitura também as tira. O que quer dizer que o “SENSO&CONSENSO” também devia ir de férias, para bem de quem lê e, sobretudo, de quem escreve. No entanto, é nos bastidores do lazer que se tramam as armadilhas  e os cordelinhos que fazem do povo um desfile acéfalo  de marionetes. O trunfo dos manipuladores das nações e a sua sorte estão no sono do Povo, na inércia que o faz gozar endémicas férias sociais, culturais e políticas. Por isso, “senso e consenso” é o que sempre faz falta em férias e fora delas.
E porque, quer de inverno quer de verão, as pulsões da sociedade não param, permitam-me trazer hoje à mesa vespertina determinados cenários que se nos deparam em qualquer estação do ano nas ribaltas da comunicação social:
Um salão iluminado,  passadeira vermelha que dá acesso a exóticas carpetes orientais,  dois microfones, um friso de bandeiras multicolores, dois ou quatro “gendarmes-gorilas” perfilados na rectaguarda e logo entram em cena os majestosos títeres, solenes, feições enigmáticas, quase de extra-terrestres, com a palidez fria dos assassinos profissionais --- estou a ver a lunática  serenidade de Bush na TV,  em 2003, duas palavras, carrega no botão e logo os caças aéreos americanos  enchem de pavorosos clarões bombardeando Bagdad --- e, nesses “salões dourados”, dizia eu, assinam  desacordos disfarçados de acordos, accionam  máquinas mortíferas, arrasam corpos e nações. Eles são os El Assad, os Erdogan, os Putin, como eram os Hitler, os Estaline, os Aiatolá, os Jihadistas. Aquelas passadeiras vermelhas são o sangue empapado das fardas dos caídos em combate; aquelas vistosas gravatas são braços e pernas dos mutilados pelas minas; aqueles microfones mais não são que metralhadoras, canhões sem recuo com infalível efeito a milhares de quilómetros de distância. Tudo feito “salas ovais”, ricamente decoradas, aonde só eles, seguros e fleugmáticos, têm acesso.
 Quantas vezes, na zona militar norte de Moçambique, confidenciávamos à boca pequena: estamos aqui deprimidos, andam por aí esses desgraçados soldados tremendo sob as emboscadas e armadilhas, uns mortos, outros estropiados para toda a vida … e os senhores da guerra, lá  na capital do Império, trocando taças de champanhe, adulando o intocável estratega Salazar, nos salões de São Bento! Horrorizava-nos ver  os comandantes de batalhão, os brigadeiros, os generais, carregados de medalhas: “Quantos mortos e quantos paralíticos custou cada uma dessas comendas que orgulhosamente ostentam ao peito. Deviam era envergonhar-se delas” --- comentávamos entre oficiais milicianos e furriéis.
Mas hoje os descendentes da cruz gamada já não precisam de recorrer às armas ou aos fornos crematórios, basta-lhes a moeda, o euro, o empréstimo de milhares aos países pobres para de lá  sangrarem  milhões. E o FMI. E o BCE. E os offshores! Tudo caldeado e solenemente aprovado nas grandes salas e salões do poder. E o Povo não vê nem aponta. Dorme, está de férias…

E no nosso Portugal: os cortes nos salários, o desamparo total de milhares de desempregados, os condenados à emigração, a redução das pensões, as amputações na saúde, no ensino, o fecho economicista das escolas. Tudo feito nos gabinetes sinistros do Conselho de Ministros, ricamente alcatifados e na tribuna do parlamento, ali bem recachados, anémicos de alma, insensíveis cortadores de carne humana. Só me fazem  lembrar uma aula de Medicina Legal a que assisti com outros alunos, em Coimbra, a imagem que me ficou do médico legista responsável pela autópsia do cadáver na lousa fria: mandava o funcionário tirar o coração e pesar na balança, tomava nota, depois o fígado, depois os pulmões, tudo somado em gramas no boletim que friamente segurava nas mãos. Havia alunos, sobretudo as raparigas, que não aguentavam e tinham de abandonar a aula.
Todos esses sinistros ministros, sangradores do país, comparo-os  ao tal Professor médico, mas com uma diferença: é que enquanto o docente autopsiava mortos, estes homens e mulheres dos salões ministeriais fazem autópsia a corpos vivos, cortam almas e corações e famílias. Eles e elas, insensíveis, com um jantar de gala à espera. E o Povo a dormir, sempre de férias…
Pior: o zé-povinho madeirense de laranja rolante, esquentado pelo calor e pela poncha do Chão da Lagoa, a aplaudir e a abraçar quem  fez a promessa  pré-eleitoral de não cortar pensões ou subsídios de natal e acabou por levar couro e cabelo aos portugueses, mandou empobrecer e emigrar, a esses madeirenses  dormentes,  pobres marionetes afectados de alzheimer profundo. Mais me custou a bobagem do novel presidente da Madeira, feito manequim nas mãos de um tal Coelho… Ao ver tais cenas, tive vergonha de ser madeirense!
E, pelos vistos, vão pedir mais do mesmo. Vão despir a camisa para atapetar os corredores de São Bento, vão extrair da veia sangue ilhéu  para a caneta de tinta permanente com que o ainda-Primeiro vá assinar “decretos da fome”, como diziam e protestavam  os nossos antanhos da Revolta da Madeira em 1931 contra as leis monopolistas da República fascista de Salazar.  E eles sabem que é agora a hora da anestesia do Povo, enquanto duram as férias até Outubro chegar.
Perante tudo isto, o SENSO hoje deixou de ser CONSENSO, porque não dorme, não vai de férias hibernais em pleno verão. Porque está atento, para não perder o siso e o senso.

29.Jul.2015
Martins Júnior
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Embora escrito em dia ímpar, só hoje, dia par, sai esta missiva, por motivos de falência técnica ontem ocorrida. O meu pedido de desculpas.