sexta-feira, 17 de julho de 2015

ESQUELETOS FAMOSOS DE MACHICO. QUE FAZER DELES?



Hoje desço ao mar de onde vim. Mergulho na orla ribeirinha da minha materna baía: Machico. E soam-me logo ao ouvido aquelas mensagens que rapazes e raparigas de há 40 anos cantavam nas romagens das festas das Ribeira Seca, dedicadas á, na altura, vila e hoje, cidade:

Baía que é um abraço
Montanha que é um sorriso
Em terras de Machico
Deus fez um paraíso

Mas depois da reunião entre os executivos local e regional, de que hoje fazem eco os matutinos, fico-me exausto e sem senso perante estes tremendos  “trabalhos de Hércules” dos cavadores da Quinta Vigia: os de ontem ergueram fatídicos “mausoléus” ;  os de hoje têm que exumar e  aguentar  os enteados monstruosos, os pesados  sem-abrigo que lhes caíram nas mãos. Oh hercúlea folha de trabalhos de gerações político-partidárias!  Não sabem que destino dar aos dois emblemáticos monumentos do GR espetados no coração de Machico: um amontoado de cimento escuro sobranceiro ao  cais principal  e o pomposo “Forum”, inaugurado em 2006, cujo custo apareceu como de 20 milhões de euros. Não sabem o que fazer: se um anexo da Câmara Municipal, se uma unidade hoteleira.
É tal o asco que a obra que o GR produziu em Machico nestes 40 anos, que nem me apetece gastar um pingo de tinta nesse “peditório”.  O rasto viscoso que deixou  passa pela destruição do que de mais belo e paisagístico tinha Machico, desde as milenares penedias do cais do Desembarcadouro, o desmantelamento do Forte de São João Baptista, a estação de tratamento de resíduos, a que os da terra chamam  (tapem o nariz) “hotel da m….”, o vazadouro das terras de um amigo partidário do Secretário Regional do Equipamento Social (por sorte ou azar, natural e residente em Machico) na marginal nascente da baía, até ao subsariano poço de areia amarela, à betonização  das marés e ao monumental mostrengo do “Forum”, toda esta cega-rega esbanjadora exige que se chamem à Justiça os devastadores do nosso património ecológico e do erário pago pelo Povo. Aqueles que ontem, por acomodação interesseira dentro do próprio partido, ficaram calados e subservientes, agora engasgam-se com a batata quente que, cobardemente, engoliram e lhes queima a garganta.
Ninguém, com um mínimo de cultura urbanística,  ignora que  o que foi feito na nossa zona ribeirinha foi um esquartejar às postas do corpo virgem e espaçoso que a Mãe-Natura nos ofereceu como dádiva primeira: a baía mais bem concebida e desenhada na ilha. A harmonia da traça original foi amputada aos talhões mais díspares e tortuosos.  Não houve a mínima estratégia de planificação.
Dou um testemunho, em contraciclo:  Mestre Siza Vieira, quando cá esteve três dias, a meu pedido, intimou-me diante do executivo municipal, com aquele seu característico tom de voz coloquial: “Presidente, trate-me esta zona com pinças”. E deixou recomendações escritas. Não pôde demorar-se mais tempo porque tinha de rumar  imediatamente a uma região da periferia de Paris, para quê? Imaginem! Para reconstituir o mercado original da cidade  porque a edilidade de então  decidiu derrubar o moderno hipermercado monumental que ali se tinha instalado sobre a antiga construção. Rememorando este episódio, há-de chegar o dia D --- já não será para os meus olhos, mas será para outros --- em que o majestoso e encantado anfiteatro da baía e da praia de Machico deixará ver-se na beleza atlântica do seu berço, livre das amarras e espantalhos com que a afogaram, 600 anos depois.
Pede-se a quem governa
Que esta lei se proponha
Acabar lá na vila
Com os muros da vergonha”

Assim se proclamava o protesto popular nas referidas romagens. Entre 1980 e 1985. Ainda lá estava o velhinho “pelado” Tristão Vaz  Daí para a frente, os governantes não aprenderam nada. Criminosos públicos perante as gerações vindouras!
O mar de história, não de estórias, que eu tenho para contar sobre o terrorismo que o camartelo da ignorância dos governantes (estou a recordar A.Garrett nas “Viagens na Minha Terra) fez estrangular a primeira capitania da Madeira…
Mas vou pôr já um ponto final, porque se me custa olhar, mais me dói reproduzir por escrito os mal cheirosos  esqueletos que os senhores têm ao colo sem saber como lhes dar um implante de carne precária. E sabendo, sobretudo,  os enormes esforços, repetida e  publicamente expressos,  para travar tais atentados suicidas, porque pagos pelos impostos do cidadão!
Fico devendo a quem me acompanha, nesta área, uma explicação sobre o famigerado processo do empreendimento com que a firma Saviotti  pretendia literalmente ocupar toda a superfície do citado campo Tristão Vaz.  Podeis crer que se trata de uma novela verídica (perdoem o paradoxo)  que toda gente devia saber, particularmente o Povo de Machico. Não deixeis que caia no esquecimento. Até depois!

17.Jul.2015
Martins Júnior