quinta-feira, 23 de julho de 2015

NA RIBEIRA SECA, MACHICO, UMA FESTA QUE NÃO É MAIS UMA!


Guardo na memória mais longínqua um professor que, para escândalo meu na altura, fez aos alunos esta abstrusa revelação:  “ a cultura de um povo mede-se pela confecção dos molhos que serve à mesa”. E ficámos boquiabertos, senão mesmo desiludidos, perante uma tão prosaica tirada de um mestre poeta e homem de literatura. Levou muito tempo a perceber que a pedra de toque ou, por outras palavras, a quinta essência  de  uma sociedade reflecte-se  nos usos e costumes que, por repetidos e banalizados, não nos apercebemos  da sua real dimensão .
Estão neste caso as festas com que o calendário marca o ritmo e a face descoberta, porque descontraída, de cada Povo, muito particularmente nestes fins-de-semana espalhados por vilas e aldeias em honra de Santos e Santas.
Distorcendo um velho adágio, apetece-me  confidenciar seja  a quem for: “Diz-me a que festa vais e eu dir-te-ei quem és”. Olhemos em redor: há as festas delirantes das modernas drogarias, vulgo dicto, estádios de futebol. Há os festivais de verão, os “Alive”, os “Paredes de Coura”, os da Zambujeira, onde os jovens despem os protocolos e encharcam-se em cerveja e “shorts” e disso ficam de alma cheia. Há as festas dos Santos Populares em que       se  serve de tudo à mesa menos  o legado histórico que nos deixaram. Há também as festas de promessas, muitas promessas, círios, braços, pernas, cabeças e quase todos os compêndios de anatomia, esquecendo-se os romeiros que tratam a Senhora-Mãe como a pior madrasta, banqueira gananciosa, que só nos faz uma dádiva se lhe apresentarem o cheque, a meu ver, sacrílego, que levam nas mãos, untadas de  pingos de estearina.. Há também  o ribombar dos morteiros rasgando a paz do firmamento onde está o Invisível Protagonista da cena devocionária..
Mas o Zé-povo gosta. É por isso que eu concluo que as festas espelham a mentalidade de um Povo, o seu gosto estético, a sua idiossincrasia, aparentemente  imperceptível, mas no fundo  reveladora da sua global sensibilidade. E aqui é que vi a lógica do meu professor de literatura com que iniciei esta mensagem. Na realidade, as festas  são como que os molhos, mais doces ou mais picantes, mais energéticos ou mais dormentes, da doméstica mesa  das sociedades. Não é por acaso que na velha Atenas, os Jogos Olímpicos eram a consagração dos valores atléticos, éticos  e  estéticos aos deuses do Olimpo; e em Roma, a pedagogia anestésica do Império entretinha o povo com os famosos panem et circenses, comida e diversões do circo, excessos inebriantes, a começar e a acabar nas orgias imperiais. E --- que contrates ! --- vi eu no norte de África e até, por gentileza dos nativos, participei  nos rituais batuques, em que os tambores da floresta chamavam ao culto os negros das sanzalas, reunidos em profunda envolvência com a sua noção do sagrado.

Escrevo estas linhas porque respiro nestes dias a atmosfera antecipada que viveremos neste fim de semana, com a realização das Festas da Ribeira Seca, mais precisamente aquela que dá pelo nome antigo de Festa do Senhor. Nela também se reflecte a alegria destas gentes num módulo que tem tanto de tradicional como de inovador. Inovador, em primeira mão, na dispensa do foguetório grotesco de outras eras, bélico e estranho  símbolo para celebrar a paz oriunda do campanário do templo. Continuamos a tradição litúrgica da vigília vespertina e a celebração eucarística solenizada  no domingo, mas pusemos  no sótão das velharias as précieuses ridicules de “pagar”(!) promessas, porque recusamo-nos  a fazer do Senhor ou da Senhora  feirantes de arraial.
Cá fora, no palco aberto, desfila toda a comunidade, representada por crianças, adolescentes, jovens e adultos --- nalguns casos, pais e filhos --- exprimindo , em versos seus originais e música minha, o ritmo baloiçante das  alegrias, dos anseios, das carências e protestos, tudo numa simbiose, perfeita na ideia, mas desculpável na ruralidade das  danças e cantares. Mais que os batumes dos altos decibéis dos conjuntos, os espectadores de dentro e de fora  permanecem impecavelmente atentos enquanto a arte intergeracional se desdobra no palco. Neste ano, não faltará a evocação da Escola Nova, fruto da luta do Povo em 1976,  mas agora ameaçada por  governantes economicistas, de olhos vendados para o desenvolvimento integral desta população.   
Enfim, uma festa do Povo, pelo Povo e para o Povo --- delicioso molho psico.biológico no banquete nupcial de uma igreja que faz juntar  os seus filhos, como “rebentos de oliveira”  em redor da mesa comum  de cada dia!
Termino com uma das canções alusivas ao dia,  da responsabilidade cénica do grupo de jovens:
“Não há quem detenha   não há quem destrua
O sonho gigante desta mocidade
A nossa romagem quando sai à rua
Traz este pregão de amor e liberdade”

Bem-vindos à Festa de Sábado e Domingo!    

23.JUL
Martins Júnior