segunda-feira, 6 de julho de 2015

O EURO-DRACMA SALVA O EURO-DRAMA! A PERSONALIDADE MILENAR DO POVO GREGO


Vem intensamente prolongado este Dia Ímpar porque intensamente vivido até ao último instante, mais concretamente, até à plena certeza de que um povo, miúdo na geométrica  do planeta, mas altissonante como a epopeia de Homero  ergueu-se e corajosamente disse NÃO!
E porque as grandes alegrias dispensam palavras que são sempre apêndices sem alma, também aqui resumo em três estádios crescentes a minha interpretação do fenómeno que, sendo local, vai repercutir-se à esfera global:

1º - Como escrevi, em tempo útil,  Tsipras e Varoufakis firmaram em rude mas eloquente escritura o maior cunho de coerência com a palavra dada ao seu  Povo. Deram a cara, exercitaram a mais paciente e consequente diplomacia político-económica, aceitaram com estóica valentia os olhares esquivos  e o desprezo  dos  todo-poderosos escondidos atrás das muralhas sem rosto do FMI, do BCE  e do offshore Merkel. Nunca baixaram os braços. E quando, com a corda ao pescoço, não o deles, mas o do seu Povo, disseram: se foi o Povo que nos mandatou para isto, então que seja o Povo a decidir isto. E aconteceu o referendo. Entenderam que o procurador sério  deve devolver a procuração ao seu constituinte. Que grandeza de carácter! Que coragem, sabendo que se o SIM vencesse seria a sua imediata demissão! No mísero  albergue que é Portugal, o que vimos nós? Gente cara-de-feijão-frade, que cá dentro chupa o sangue aos seus e apresenta-se lá fora  como rica matrona, tapando o pé rapado: ”Eu não sou dessas, da Grécia Eu cá. tenho os cofres cheios”. Devo dizer que tenho vergonha de ser português enquanto houver um só tuga que vá votar nessa gente. Quem, pelo passado recente, poderá acreditar numa única promessa desses títeres das feiras?!

2º - “Nobre Povo, Nação Valente, Imortal” --- não estou a cantar o nosso hino nacional mas o robusto Hino de Atenas e Esparta! Quantas ameaças de Juncker, do BCE, do FMI, dos sofisticados carteiristas  que descapitalizaram a Grécia, retirando-lhe milhões e biliões para os bancos da Suíça, enfim, o anátema de expulsão da EU, o apocalipse fatal --- e, não obstante tamanho arsenal bélico, o Povo serenamente disse NÂO.  “Se é para ficarmos mortos com o Euro-Hitler, preferimos viver pobres com o nosso pátrio dracma”: eis como entendi a mensagem dos herdeiros de Ulisses e Leónidas.

3º - Paradoxalmente, foi o pequeno David que fez voltar atrás a tômbola gigante do Golias sediado em Bruxelas.  Só o pigmeu portuga é que  ainda pensa que a “questão grega” é  um embrulho de circunstância para meter na prateleira. É toda uma nova revisão da União Europeia que agora salta ao de cima. Que “comunidade” é esta, quão distante do sonho de Monet e de Delors? Calaram-se as baionetas de guerra na Europa de 45. Agora são os petardos silenciosos da exploração do pobre pelo grande capital. Agora é que  dizem que a Grécia nunca devia ter entrado no euro. Mas quando a receberam, só o fizeram para dela tirar “leite de um pau seco” --- como diz o ditado popular --- para servir-se das tripas do pequeno para engordar o monstro obeso. Prevejo que nada será como até agora: ou a Europa se alevanta ou a Europa implode. Com todas as consequências daí decorrentes. Também para nós. Porque os implacáveis especuladores não têm bandeira e  outra senha não conhecem senão: “Bolsa ou vida”. Tudo pode voltar à estaca zero. E aí encetar a refundação da Europa. Para que não nos bata à porta uma outra guerra mundial.

Tsipras e Varouvákis terão de voltar ao chão pedregoso do seu calvário na mesa insensível das negociações. Mas agora com outra força. Cada um deles poderá bradar como o Homem do Leme: Aqui, ao leme, sou mais do que eu. Sou um Povo inteiro!
Haja o que houver, o Povo grego deu, como há milénios, uma lição de assombro a esta Europa decrépita e astuta.

5.Jul.2015

Martins Júnior