quarta-feira, 15 de julho de 2015

PAGA-SE TUDO! Anatomia de procedimentos revolucionários


Vou pegar na deixa que ficou do nosso último convívio epistolar. Chamo convívio epistolar, porque é assim que vejo um “blog”: um colóquio à distância, mais que uma videoconferência, pois são mais intimistas, mais sinceros e transparentes.
Acabei o texto com o título, hoje, em epígrafe --- Paga-se tudo! --- referindo-me especificamente ao significante e ao significado do “regalo” que Eva Morales fez ao Papa Francisco: um crucificado sobre a foice e o martelo. E tentei provar, por factos indesmentíveis que, ao longo da História,  os chamados revolucionários, os desalinhados, os padres “comunistas”, enfim, os homens e mulheres anti-sistema são sempre apelidados de desordeiros, loucos, os maus da fita. Percorri os caminhos da Igreja Católica e tentei demonstrar precisamente o contrário: os “maus da fita”, afinal, foram os únicos que vislumbraram o horizonte certo e desbravaram o pedregoso caminho para lá chegar.
Hoje e muito sucintamente, quero percorrer outros trilhos da História das nações, detectando neles o fermento criador de outras pistas, cujo preço é, tantas vezes, a imolação na fogueira dos seus ideais.  São aos punhados os casos de mentes brilhantes, visionárias, que “as gentes de bem”  atiram  para a valeta  da estrada, quando não para a vala comum dos proscritos. Serão sempre incompreendidos, marginalizados, obrigados mesmo a fazer opções chocantes, contraditórias.
Não é tabu para ninguém o que se passa com a tremenda vaga de jovens europeus que saem clandestinamente da sua área de conforto para  alistar-se  na fé  do Islão, alguns até na vanguarda do Estado Islâmico. E fazem-no, não por motivação religiosa, dizem os analistas, mas porque “encheram”, saturaram-se das políticas da civilização chamada de “cristã e ocidental”, onde campeia a exploração mais abjecta do homem pelo homem, a corrupção  capaz de transformar um continente numa enorme prisão, caso houvesse Justiça que julgasse, enfim, uma sociedade “organizada” pelo rosto  metálico de uma economia geradora de monstros. Basta seguir a comunicação social mais esclarecida para nos darmos conta deste desespero de causa que invade tantos jovens para quem a única estratégia possível é a luta armada contra os modernos Satãs que povoam as sociedades “civilizadas”. Contra-senso? Sem dúvida. Mas eles respondem com o conhecido estribilho  acusatório: “Vocês fizeram o mundo assim”. E pagam-se, cegamente, até  com a sangrenta moeda do sangue de inocentes!
Um outro fenómeno que pulula na epiderme dos confusos movimentos político-sociais é a febre alucinante do populismo de feira. Percorramos a geografia das nações, ditas estruturadas, dotadas de Constituição, Partidocracia, Parlamentarismo democrático estável. E que vemos nós? O descrédito de toda essa fictícia arquitectura política e a ascensão de erupções emergentes,  aglutinadas em pequenos novos partidos à volta de um “caudillo”, que dá pelo nome de líder carismático. Apraz-me registar o que hoje escreveu esse mestre da análise e do verbo, Baptista Bastos: “Os movimentos de contracção (Syriza, Podemos, Ciudadanos, e por aí fora) não são meras florações ou epifenómenos: vieram para crescer e multiplicar-se, porque os partidos do “arco do poder” só têm sentido para promover uma infindável série de  medíocres e oportunistas”. “Dura lex, sed lex”, esta inexorável  lei da natura que se  levanta contra os abusos que dela fazem!
Poderia chamar à colação o sôfrego imperialismo da  extinta URSS que anexou selvaticamente e amputou regiões da sua idiossincrasia genética e sociológica, para mais tarde pagarem  com genocídio a sua própria libertação. Para ver-se cair o Muro da Vergonha. Para, já hoje, volver um novo czar, Vladimir Putin, aniquilar a vizinha Ucrânia.
O mesmo dir-se-á do império tresloucado de Bush que, a pretexto de um sofisticado embuste, abriu fogo, assassino e gélido, contra populações  indefesas do Iraque e seu património histórico.  Abriu também caminho para mais tarde seguir o Estado Islâmico a mesmíssima barbárie,  destruindo memórias milenares de um passado irrecuperável. Paga-se tudo!
Sobre a recente visita de Francisco, o jornal “Le Monde” titulava, em 1ª página, a 3 colunas: “Un pape politique en Amérique du Sud”, sublinhando em subtítulo que  “ ele  distribuiu conselhos e reprimendas  aos governantes.  Eis a moral de toda esta arrazoado que venho fazendo. Porquê chamar-se “político” a um líder religioso, quando o que ele aponta é, nem mais nem menos, o antídoto eficaz às sociedades doentes e corruptas?
Regozijo! ---  por ver o alto representante da Igreja  abrir clareiras no meio da escuridão. Mas, acrescento, que pena! ---  ser necessária a sua voz, quando este clamor de protesto deveria sair da boca e da alma de cada cidadão, de cada  vítima  silenciosamente torturada pela chamada “Ordem Estabelecida”!
Peço, finalmente, a quem me acompanha nesta reflexão a lucidez e a coragem para “descobrir” neste dormente felino da nossa Ilha os atentados sociais, culturais, ambientais que o Povo foi alegremente consentindo, enquanto lançava as mais vis imprecações a quem defendia a terra que  é nossa. E agora, tarde e mal, é que se viu  uma “bocarra”, eufemisticamente chamado marina,  vomitar  pelo mar fora 100 milhões  que o mesmo Povo submisso teve de pagar. Paga-se tudo!

15.Julho.2015
Martins Júnior