segunda-feira, 27 de julho de 2015

PEQUENAS-GRANDES GALAS MUSICAIS

Foi de uma enternecedora emoção que, ao abrir do dia, levantei o auscultador e, do outro lado, da linha: “É por uma boa notícia que o incomodo logo de manhã. A Carolina ganhou   o Prémio Internacional dos Pequenos Cantores, realizado ontem na Figueira da Foz, com a canção “Ginasticar”, interpretada pela pequena Beatriz”.
Era o meu amigo Victor Caíres a descrever-me o incontido júbilo de pai ”mimado”  perante a distinção maior “arrebatada” pela música de sua filha..
A propósito deste pódio internacional, tem-me perseguido e galvanizado durante todo o dia, uma descoberta idêntica ao de  EF Schumacher, em The Small is beautiful. E porquê? Em primeiro lugar, pela simplicidade do tema “Ginasticar”; depois,  pelo sortilégio desta conjuntura: a autora, embora já com provas dadas,   não pertence à galeria oficial,  protegida, estereotipada, dos profissionais da composição. Pelo contrário, a sua música nasce  do olhar dos seus  doentes, das compressas e seringas com que lhes injecta renovada esperança de vida, enfim, nasce à beira de corpos gementes e almas doloridas. Quem havia de imaginar que das mãos de uma profissional de enfermagem saísse tanta energia, tanta beleza, tanta magia de transformar o sofrimento circundante em melodias de sonho. A Carolina pertence àquela estirpe da ciência médica  que usa a música no tratamento de certas patologias.
Devo dizer quanto me dói e quanto detesto certo figurino de concursos televisivos em que as crianças entram  em pleno e saem em pranto,  traumatizadas,  por vezes,  enxovalhadas pelos doutorais juízes que tratam petizes de palmo e meio como concorrentes de arena adulta. E em proporção geométrica, quanto me confortam e deliciam os espectáculos soltos, em que as crianças entram leves como pássaros e saem do palco felizes, aplaudidas, mesmo que a sua prestação nem sempre seja  a desejável.
Incluo neste elenco, as audições didácticas, as efemérides tradicionais do Dia da Mãe, do Ambiente, de final de ano escolar. E das festas tradicionais de cada localidade. Não é só nos concursos da grande ribalta que se mostram vozes dotadas, acima da média.  Nem de propósito! Ocorreu ontem, na Festa da Ribeira Seca, mais um episódio da  “Descoberta de Talentos”,  protagonizado por  quase-anónimos intérpretes da zona, sob iniciativa  da rádio local. Fiquei extasiado com o timbre, a afinação, a segura interpretação de vozes caídas dos altos montes e cristalizadas como jóias  no coração do vale!  Gente que mora à nossa beira, crianças e jovens que,  se lhes dessem oportunidade de ir mais longe,  em nada desdiriam daquelas que passam e repassam nas estafadas manhãs da nossa rádio. E o que mais admiro e não me canso de exaltar é a acção persistente de quem, nas escolas,  nos ajuntamentos ou grupos corais, nas igrejas, nos meios mais recônditos, sem dar nas vistas, teima em descobrir talentos e valores que, certamente, não serão cortejados pelas televisões e demais órgãos de informação. Falo não só da Ribeira Seca, mas de muitos outros movimentos afins que,  humilde mas decididamente,  sem o mínimo apoio institucional (e nem falo de dinheiro)  cumprem um tão nobre serviço público de valorização das comunidades. Chega-me, no entanto, a notícia de uma intérprete, voz poderosa, nada e criada no nosso  meio e que, agora, terá recolhido promissoras indicações no casting do programa “The Voice”.
Será recriminável que se fechem escolas, sementes de valores culturais e, daí, peças vitais para a construção do monumento fértil que é a população rural. Recriminável, também, que se olhe apenas para o sector profissionalizado (escandaloso, o sorvedoiro do futebol) deixando na valeta do mundo vocações natas para as artes e para as ciências. As recentes vitórias  concursais  de alunos madeirenses, a nível nacional,  nas áreas da matemática, da biologia, da música,  esclarecem e clamam pelo seu lugar ao sol, sem preconceitos opcionais de índole política e provinciana. Outro nome não terá senão o de assassínio humano o desprezo a que são votadas certas franjas da periferia madeirense.
Nunca se sabe o que de grandioso estará  encoberto sob os crepes tímidos  e frágeis que escapam à “nomenclatura” oficial. Em qualquer profissão e no mais humilde lugarejo, escondem-se talentos à espera de ver a luz do dia. Voltando  a Fernando  Pessoa: “Em quantas mansardas e não mansardas do mundo/Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?”
É preciso fazer sair das mansardas talentos e génios encobertos pela névoa opaca da mediocridade reinante.
Parabéns à pequena Beatriz
Parabéns à Carolina que, com a saúde do espírito, a música, faz regressar à vida os que mergulham nas cisternas da depressão!   
Parabéns e força a todos quantos entregam a vida para que outros a tenham!

27.Jul.2015

Martins Júnior