terça-feira, 7 de julho de 2015

POPULISMO E PAPULISMO


Variações sobre um mesmo tema                     
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Nunca foi tão “chique” citar o Papa, desde cristãos a ateus,  políticos e plebeus, agnósticos, ecologistas, evolucionistas, enfim, Papa Francisco inscreveu  a Igreja Vaticana na ordem do dia. Para bem e para mal dela.  E se ainda traz aos ombros uns resquícios da velha-guarda é porque muita gente simples, ignara mas crente, ficaria ferida nos  seus conceitos ancestrais que, mesmo preconceituosos, são os elementos constitutivos da sua crença. Quanto aos “sábios-fariseus” e aos opulentos porteiros  do tempo do “bezerro d’oiro”, este veterano ganha o verve da juventude, tão contundente na mensagem quanto frágil na sonoridade da sua voz.
Mas que nos trouxe de novo esta “vedeta” argentina?
Nada que já não se soubesse. A denúncia da economia assassina;  a terra, o mar e o ar esquartejados por facínoras mascarados de industriais; o antro clerical de lobos vestidos de fina  pele escarlate, da cabeça aos pés; o embuste de crenças castradoras da genética ambição de voar sem peias nem medos. Todo este arsenal ideológico-pragmático tem sido exposto, descrito, quase que vociferado por dezenas, centenas, milhares de cientistas, biólogos, teólogos, professores, simples padres da província e da cidade, gente como nós, vizinhos de ao- pé- da-porta. Com uma diferença: é que o Papa tem autoridade herdada de uma instituição milenar. Os outros, não. Quantas vozes amordaçadas e quanto sangue derramado --- a matança dos inocentes --- ao longo da História!
Mas em Francisco Papa transfigura-se a autoridade herdade com a autoridade conquistada. Aí o seu valor. Os que o chamam de comunista deviam ler o catolicíssimo escritor Léon Bloy que lançou o brado da revolta contra a ordem capitalista vigente, com a publicaçã , em 1909,  de  “O Sangue do Pobre”.
Já aqui observei que este Papa é uma bênção e um enorme risco. E é este o seu drama. A bênção, ele a traz na veemência, fortiter ac suaviter, ( como ensina o mestre Paulo de Tarso) por onde quer que pise chão de terra. O risco é que ele é vértice e cúpula. Nenhum edifício se segura pelo telhado nem nenhuma catedral se sustenta pela abóbada. Nos alicerces, nas bases é que estão o ganho e o sustentáculo de qualquer sociedade. E aquilo que o Pontífice “Máximo” apregoa deveria ser a soma e a  síntese de tudo quanto dizem e fazem  os cabouqueiros “mínimos” da sociedade. Se a normal sucessão dos acontecimentos sociais constituísse  a realidade do nosso quotidiano,  ninguém esboçaria o mínimo espanto pelo que diz Francisco. Esse espanto, o nosso espanto, mais não é mais que a evidência da estrutural anormalidade que aproveita a poucos e subjuga a muitos.
É por isso que a este homem lhe repugna o estatuto de vedeta, fútil alcunha que  uma desorganização organizada da sociedade gosta de atribuir-lhe. É a diferença abissal entre Populismo e Papulismo, como inteligentemente escreveu Rúben Amon. Populista terá sido o homem-espectáculo, até à inanição,  João Paulo II, cujas viagens pelo mundo ( afirmaram os jesuítas) não eram as de um mensageiro da paz, mas um mero exercício de Papolatria, o culto do Papa.
Francisco não abençoa, abraça. Não declama, conversa. Não se ufana com o anel de ouro nem com a tiara de três  pisos cravejados de lantejoulas cruzadas. Que beleza intraduzível aquela quando, ao descer as escadas do avião, no Equador, uma rajada de vento levou-lhe o branco  solideo e deixou-lhe, despido e puro, o crâneo com que saíu do ventre da sua mão! Eis Francisco no seu melhor retrato.
    Quero esclarecer que consideraria inócua e superavitária esta digressão, de tão repetida por tudo quanto é sopro de comunicação. Ela aí está como introdução ao próximo “Dia Ímpar”. Vem também, enquanto ponte de aproximação ao corajoso sul-americano que está de volta ao seu depauperado, porque explorado, continente. Cada passo seu, cada gesto e cada  mensagem outra coisa não significam que “aquilo que eu faço e digo são vocês que devem dizer e fazer”. Se assim não for, caído o Papa, cai toda esta Primavera Global. Os abutres do capital internacional  e os corvos  da púrpura vaticana e diocesana estão morrendo de fome pelo cadáver de Francisco. Ele sabe disso. É connosco que ele conta!

7.Jul.2015

Martins Júnior