domingo, 19 de julho de 2015

TREZENTOS ANOS NUM SÓ DIA


Hoje, 19 de Julho, serei tão parco em palavras quanto extenso na profunda interioridade desta efeméride, que terá passado indiferente à maioria de quem apenas se impressiona pelo imediato, pelo pitoresco, pelo descartável.
Acode-me ao pensamento a conclusão de que, idêntico ao movimento rotativo do planeta que habitamos, assim se apresenta a trajectória cíclica da História, com os seus pontos de encontro e desencontro, de coincidências e discrepâncias, de apogeus e  contrastantes eclipses. A roda do tempo traz no seu enorme mostrador factos e personagens que, separados por séculos ou milénios, reescrevem a mesma saga, como se um estranho fenómeno de reincarnação se tratasse.
É o caso de 19 de Julho. Duas figuras coincidem nos ideais, conquanto diversas no circunstancialismo que as caracteriza.
Falo de  Vicente de Paulo, que Roma canonizou e tem culto sacralizado nas aras dos templos. E falo de Aristides de Sousa Mendes, sacrificado na tulha da aliança fascista Hitler-Salazar.
Trezentos  anos os separam. O primeiro, nascido em França, no ano de 1581. O segundo, em Viseu, 1885. A ambos coube a nobre, mas dolorosa,  missão de alavancar a dignidade humana conduzindo-a ao trono que lhe é devido: o reconhecimento do seu direito à liberdade, à igualdade de oportunidades, o que, no seu reverso, significa a imolação cruenta ou incruenta da vida do libertador. Distantes no tempo, mas próximos do campo de batalha ---  região de  Dax,  Bordéus --- são hoje recordados ex aequo, embora oriundos de classes sociais diferentes, o primeiro nascido no berço pobre da ruralidade, o segundo, no palácio da aristocracia monárquica.  Vicente de Paulo, a custo, tentou subir os socalcos de uma sociedade injusta, sendo até vendido como  escravo, sucessivamente, a um pescador, depois a um professor de Química e finalmente a um poderoso agente financeiro, de religião muçulmana. Aristides de Sousa Mendes ascendeu, nos braços da fortuna, ao corpo diplomático português. Mas a ambos os esperava o mesmo “patíbulo”,  o de pugnar pelos mesmos ideais, Vicente arrancou às galés os escravos, levantou da valeta centenas de crianças e jovens abandonados, deixou raízes solidárias que ainda hoje perduram. Aristides, cônsul em Bordéus, afrontou o tenebroso regime nazi-salazarista, quando na noite de 16 de Junho de 1940, decidiu arriscar a vida e assinou nos dias seguintes passaportes de fuga  a cerca de 30.000 condenados aos fornos crematórios. É-lhe atribuída a decisão, coincidente com a de Pedro e João no sinédrio de Jerusalém : “Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus”— assim lhe ditavam as suas convicções e a sua educação de infância.
Não vou demorar-me nos dados biográficos de cada um dos  homenageados a  quem é dedicado todos os anos o 19 de Julho. É sobejamente conhecido o epílogo de um e de outro: Vicente viu os seus esforços compensados pela sociedade do seu tempo,. Aristides conheceu a despromoção do cargo, o ostracismo sócio-político do regime da ditadura, o abandono de todos. Apenas em 1966, um país estrangeiro, após o Relatório Yad Vaschem (“Memórias do Holocausto”) dedicou-lhe o preito de gratidão, plantando em Jerusalém vinte árvores em memória daquele que cognominaram de Justo entre as Nações. Em Portugal, só após o 25 de Abril é que lhe foi concedida a título póstumo (morrera em 1954) a Medalha de Oficial da Ordem da Liberdade, em 1986, pelo então  Presidente da República, Dr. Mário Soares.
Parecendo, num primeiro olhar, que estas são coisas do passado, desengane-se quem assim pensa. Para mim, é de eloquente coincidência e flagrante actualidade. E fica-me esta palavra de ordem, vibrante e madrugadora como o clarim que anuncia o novo dia ou o Dia Novo: “Tu não estás só. Na placa giratória deste minúsculo planeta, estão sempre a passar irmãos gémeos, sósias de ti mesmo, que desde tempos imemoriais viveram o teu sonho. Considera-te uma florescência viva dos troncos milenares que continuam a girar à tua volta”!
Tal como Vicente de Paulo e Aristides de  Sousa Mendes neste entrelaçado abraço de 19 de Julho.  


19.Jul.2015
Martins Júnior