terça-feira, 11 de agosto de 2015

ALEGRIAS DOMÉSTICAS QUE ESCONDEM “CRIMES PÚBLICOS”

Volto hoje a um daqueles temas que jogam bem com a feliz aragem da silly season (deixem passar esta brincadeira  do anglicismo) embora, confesso, não me agradem  particularmente as “ocorrências do dia” ou as esparrelas da casuística  bisbilhoteira. Mas este é um verdadeiro “caso” que merece a atenção do mais anónimo cidadão, pelo singular conteúdo que traz lá dentro.
Fiquei surpreendido, um dia destes, com dois simpáticos trabalhadores da Empresa de Electricidade da Madeira (EEM) que me apareceram logo de manhã na igreja e queriam saber onde estava o contador geral que alimentava a energia eléctrica do adro da Ribeira Seca. Perante a minha natural e embaraçada estupefacção (tínhamos os pagamentos em dia) responderam: “São ordens lá de baixo”. Mas… E antes que continuasse com outros “mas”… logo esclareceram: “É que recebemos ordem para ligar os projectores à iluminação pública”.
Para muitos,  para todos vós certamente, nada de extraordinário, visto tratar-se de um local público. Mas para nós, foi decididamente um momento de alegria. Doméstica, é verdade. Mas enorme, por tudo o que essa luz, paradoxalmente, esconde no dentro dos postes.
Explico, sem demora, este mini-melodrama, cenas de um teatrinho herói-cómico, em quatro actos:

PRIMEIRO ACTO:
O exterior do templo da Ribeira Seca foi sempre iluminado pelos holofotes que a EEM veio colocar, em 1998, certamente em compensação pelo esforço que o Povo desta localidade  generosamente tinha  despendido na construção do  transformador, sob orientação e com os materiais cedidos pela referida empresa. Como é da praxis normal em toda a Região, os encargos com o consumo de energia do espaço exterior ao templo, neste caso, da Ribeira Seca, por onde passam todos os dias numerosos transeuntes, sempre foi da responsabilidade dos poderes públicos municipais.

SEGUNDO ACTO:
Numa segunda-feira, tristemente famosa, estava eu no gabinete do meu grupo parlamentar no Funchal e atendo  o telefone:” Sabe, os homens da Casa da Luz já rebentaram os cabos do adro e levaram agora mesmo todos os holofotes”. Tudo feito em tempo-relâmpago e numa hora, a do almoço, em que no adro não havia  ninguém. Os “assaltantes” (forçados!) só foram vistos quando se puseram em fuga. A revolta subiu de tom quando as pessoas se deram conta dos motivos: é que na véspera, domingo, 17 de Outubro de 2004, tinha havido eleições regionais e o partido maioritário levou a maior derrota de sempre nas duas mesas da escola da Ribeira Seca. A democracia “joanina” no seu melhor!!!!
TERCEIRO ACTO:
Indignação quase incontrolável da população, não só da Ribeira Seca, mas sítios circunvizinhos perante tamanha agressão ao Povo! A comissão reúne-se, pede reunião ao presidente da EEM, sem êxito. Vigilas à noite,  iluminadas por velas transportadas nas mãos das pessoas por entre a escuridão. Nova reunião, desta vez, pedida por mim ao dito presidente, visivelmente agastado --- eu diria, pelo semblante, intimamente envergonhado e enxovalhado, por “esta ordem vinda de cima “ --- o qual, temendo o pior, faz-me a proposta: “O sr. padre compra-me os holofotes, vendo-lhe por metade do preço e acaba-se com isto. Por favor”. Suponho que não estou a cometer nenhuma inconfidência --- o senhor está vivo e pode confirmá-lo. Aliás, registei o seu tacto diplomático em resolver um conflito que ameaçava tomar  formas extremas. Reuni a população, em mais uma noite de vigília, tendo quase toda a assembleia popular aceitado  a proposta. Assim se fez. Foi com visível orgulho e não menos ironia que as pessoas  comentavam  aos funcionários: “Os mesmos que levaram os holofotes  vieram hoje repor a luz no seu lugar”.  E até os próprios agradeciam: “Vocês tinham toda a razão”. Este Terceiro Acto terminou com uma festa, em 7 de Novembro do mesmo ano ( data histórica,  evocativa do clamoroso dia 7 de Novembro de 1974, a contar noutra altura). A  impressionante cerimónia    começou com a vigília habitual, seguindo-se o reacender dos projectores e, no palco, canções e bailados pelos jovens e crianças da Ribeira Seca.  Por ofício formal, a Comissão da igreja convidou para o acto o presidente da EEM que, naturalmente, não compareceu.

QUARTO ACTO
Vencido na sua ânsia  de reduzir este agregado populacional à escuridão de outros tempos, o autor da cena,  cobardemente refugiado  na Quinta,   impôs à sua subserviente  Câmara  laranja  ordem para não assumir os encargos  e obrigou-nos a pagar à EEM a iluminação daquele espaço público, excepção única que se conheça na Região. Fizemo-lo, sob protesto, mas  sempre firmes em viver na transparência e na luz que outrem queria subtrair-nos, em degradante represália pelas derrotas que até  hoje este Povo sempre lhe infligiu.
Finalmente, fez-se justiça! Ao fim de 11 anos de taxas injustas que exigiriam corresponde indemnização.
Ao fechar do pano, os aplausos para quem não desiste: quem luta vencerá sempre. Tarde ou cedo. Aplausos também e agradecimentos à actual gestão do Município de Machico. E ainda a grande conclusão: agora vejo em plena luz que, se “a memória é a faculdade de esquecer”, então torna-se urgente deixar escrito na dureza da  pedra ou num espelho de água todo um passado que só honra os valorosos e condena os criminosos.
Pairam ainda no ar e na alma das pessoas os versos que então cantaram nessa noite memorável:
“Nosso adro  está de verde
São de amor suas canções
Está tudo iluminado
Como os nossos corações”

11.Ago.2015
Martins Júnior