quarta-feira, 5 de agosto de 2015

CARAS, CUNHO E CARÁCTER


É, sem dúvida, o primeiro passaporte da pessoa. E, paradoxalmente, deve ser o último a ser usado, seja pelo portador, seja pelo observador. Ajuizar alguém por “um palmo de cara”  é o que de mais falacioso se pode fazer. No entanto, cada qual maneja o argumento conforme a cor do próprio olhar. E assim surgem as expressões “Tá na cara”, é “de caras”, é um “sem-cara” , "duas-caras" e ainda "cara-de-pau", "cara-de-feijão-frade" o que tudo resumido significa o carácter e o cunho identitário  de quem está na berlinda do apreço público. Mantenho, pois, a convicção de que classificar o carácter de alguém, além de sair falacioso, torna-se terrivelmente perigoso.
No entanto, hoje vou embarcar nessa nau. Vou fazê-lo por um imperativo de cidadania face à grosseira e apoucada visão do timoneiro, ou dos timoneiros,  da nau governativa deste país, quando sentenciaram, alto e bom som: “Vejam quem agora se apresenta para governar. Os mesmos de 2011, os que foram derrotados, os que levaram o país à bancarrota. Nem sequer tiveram o cuidado de mudar as caras”.
Era o último argumento que se esperava da boca de  quem, em plena campanha eleitoral, afirmara: “Nós nunca recorreremos aos erros da  governação anterior para justificar as nossas posições e as nossas decisões”. Mas, bem pior que isso, é quem  recorre ao carácter do adversário para fazer valer a hegemonia própria. Porque nessa altura --- e aí está o perigo --- pode voltar-se o feitiço contra o feiticeiro. E é aqui que urge levantar a voz para evitar a esclerose múltipla com que a actual coligação pretende apodrecer a racionalidade dos portugueses.
Correndo o risco de repetir os juízos comuns a tantos observadores e, sobretudo, evidentes na praça pública, alguém se lembra  da “cara” que, em Abril e Maio de 2011, respondeu a um vulgar cidadão que a interpelou sobre o corte de salários, pensões, subsídios: “Nada disso, nunca. Isso é o medo que vos querem meter os nossos adversários. Jamais faremos isso”?! E lembram-se também da “cara” que fez precisamente o contrário, logo que chegou ao poder?... Lembram-se da “cara”, a mesma, que  agora promete enriquecer o país, com a devolução de IRS aos contribuintes? Façam as contas e  digam lá se “qualquer semelhança é apenas pura coincidência”. Recuso-me a acreditar que o país tenha cegado completamente e perdido a razão, ou viva numa paranóica amnésia colectiva.
A outra “cara” ainda mais cara se afigura, na sua grotesca desfaçatez. Lembram-se daquele trapezista de circo feirante que, para “subir às costas” do irmão siamês, esticou-lhe o pescoço e esganiçou a mais não poder: ”Vou largar-te de vez. É absolutamente  IRREVOGÁVEL  o que te digo”. E daí a oito dias, com um salto de coelho bravo, lá trepou as costas do “coelho manso”.  E o que era “irre” ficou “re”, o que era “sim” ficou “não”, o que era verdade virou mentira, o que parecia  feio e sujo passou a bonito e limpo. O que era “cara” ficou “sem-cara”. Enfim, estranha lavagem de caras sujas! 
E viu-se um  país suspenso, paralisado,  internacionalmente ridicularizado, ainda por cima  com um  Presidente estremunhado de sono falso, a suturar outra vez os restos das “caras” dos siameses que hoje se apresentam no topo, orgulhosos e inconscientes, como se nada tivesse acontecido.
De que “caras” está a falar esta gente “sem-cara”? Sem carácter. Sem cunho. Sem identidade fiável.

Sei que este não é o melhor aperitivo para os dias mornos de verão. Mas é meu dever alertar e publicamente bradar que, enquanto o Povo dorme  ao relento macio das praias, os noctívagos “sem-cara” destas noites tropicais andam  pelos gabinetes “tratando da saúde”, do dinheiro, da mente, enfim, da cara dos portugueses.
Martins Júnior

06.Ago.2015