terça-feira, 25 de agosto de 2015

NAVEGANDO NA COSTA DO PORTO DA CRUZ…ATÉ AO MAR DA GALILEIA!




Nascido no mar, é lá que navego. Em todos os mares. Mas evito navegar à bolina, terra à vista. Prefiro o largo, o vasto oceano, de onde se abarca a linha sempre mais longínqua do horizonte e nos dá a leitura multiforme e serena de toda a  envolvente. Isto, para repetir que não me movem os  relâmpagos da “Última Hora”, os  episódios fortuitos, presa fácil para quem lhe escasseia  a visão holística da realidade. Mas hoje, vou embarcar junto à falésia da nossa costa, mais precisamente, mais a norte, a terra  onde nasceu a “estrela” que neste dia ilumina a comunicação social, particularmente a madeirense. Trata-se de uma nova, Boa-Nova, não tanto para quem a  observa à vista desarmada, mas sobretudo pelo brilho invisível que ela transporta.
É a notícia de que um madeirense foi nomeado Bispo de Setúbal.  
Um troféu de pódio, com direito a hino e fanfarra de libré, dirão  os  que definem as festas pelo batente do foguetório. Ou os que interpretam os títulos hierárquicos da Igreja como os galões que separam os sargentos dos oficiais, ou as “estrelas” que deixam para trás os ombros dos coronéis e saltam para as mangas dos brigadeiros e generais. Mas tenho a certeza  que o tonsurado e simpático sacerdote, Prof. Dr. José Carvalho, agora promovido à mitra episcopal, não  adormece nesse “dolce  farniente”  com que o vulgo se habituou a ver as promoções a bispo, idênticas às “ordens de serviço” dos mundanos galardões militares.
Não vou referir-me ao ilustrado filho deste concelho, dada a minha insuficiência de meios nesta matéria. Apenas e tão-só reflectir sobre uma instituição que, ao longo dos séculos, tem sido um sinal de contradição,  tais as vicissitudes e as manipulações  com que a violentaram os negócios do poder,  travestidos de piedosos  vernizes sacros.
Remontando aos primórdios do Cristianismo, o bispo  ---  escreve o Grande Apóstolo   Paulo de Tarso ao seu colaborador Timóteo --- deve ser um homem irrepreensível, marido de uma só mulher, vigilante, sóbrio, hospitaleiro, apto a ensinar …não espancador, não cobiçoso de torpe ganância,  não avarento…Que governe bem a sua casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia…Porque se alguém não sabe governar a  própria casa, como  terá o  cuidado da igreja de Deus? “ (I Timóteo, 3, 2-5).
Eis o cartão de identidade, eis a mitra, eis o anel, eis a cruz peitoral e o báculo do verdadeiro bispo da Igreja. Ao sopesar cada qualificativo e ao cotejá-los com o figurino oficial dos  bispo de hoje , quão distantes e quão ridículos estes  se nos apresentam: solteiros, neles  a sobriedade é um palacete, a cruz peitoral não passa de um simulacro de cordão de noiva casadoira, o báculo de pastor ( que deveria ser “hospitaleiro“ …” não espancador”)  transforma-se num reluzente chicote castigador em cima das “ovelhas” que lhe cheiram a terra e a autenticidade… E em vez do crânio descoberto, iluminado, “apto a ensinar”, encaixam-lhe uns altos barretes cravejados de jóias e filigranas de ouro que, em bando, mais me parecem os indecifráveis capuzes dos KU Klux Klan.
A verdade é que são de uma eloquência retumbante as exigências identitárias que Paulo traça para o verdadeiro “episcopus”, o que não dorme ao relento, mas fica sempre “vigilante”  para trazer ao aprisco todo  o rebanho. Não há comparação possível. Qualquer dissemelhança é a pura e dura realidade!
Por isso que, até ao século V, os bispos e presbíteros eram escolhidos pela comunidade…”tomados de entre  os homens e constituídos  em favor deles ...e que possam compreender ternamente os ignorantes e errados, pois que eles mesmos também estão rodeados de fraqueza”  (Carta aos Hebreus, 1-2).  Que profundidade! E que genuíno reconhecimento da condição humana, gerador da mais  sã e transparente humildade”!
Recordo o vigoroso  Santo Ambrósio, bispo de Milão, que ao Imperador Teodósio proibiu de entrar na catedral por ter mandado o exército invadir e saquear uma população indefesa. Recordo,  por junto,  Inácio de Antioquia, Atanásio, João Crisóstomo, para quem era imperativo inadiável o pensamento  paulino:  “O que sobra na mesa dos ricos é o que falta   e pertence à mesa dos pobres”.
      Mas tudo se alterou, a partir do século V. Os papas rivalizaram em luxo e poder com os reinos do mundo: a Igreja tornou-se imperialista e, como diz o maior teólogo vivo, colega de Ratzinger na Universidade de Tubinga: “A Igreja, de perseguida passou a perseguidora” (“O Cristianismo: Essência e História”.).
         Nada tendo a ver com aquele que queria ser missionário e foi agora nomeado a Grande Missão em Setúbal, manda a verdade citar aqui a denúncia corajosa de um grupo  adstrito à Cúria Romana, sob o pseudónimo I MILLENARI: “a Igreja não pode continuar com o mesmo critério mesquinho e arbitrário de recorrer a certos sacerdotes, quase sempre carreiristas e intriguistas, considerando-os no dia seguinte habilitados e capazes de exercer a arte de ser bispo, tendo por trás a indicação e a complacência de quantos contratualizam o sucesso do seu benjamim” …(“Via col vento in Vaticano”, em tradução portuguesa “O Vaticano contra Cristo”, pág. 126).
         Até onde nos levaria este  caminhar por entre uma floresta de dois mil anos, enigmas, desvios, avanços e recuos?! Mas paro aqui, pressupondo que muitos amigos e colegas dos “Dias  Ímpares” já pararam  a meio deste escrito.  Hoje achei oportuno navegar à bolina, perto de nós, com os nossos.  Com o novo bispo que, assim esperamos, configurar-se-á, na parte aplicável,  com o protótipo do “episcopus” traçado por Paulo de Tarso. A garantia desta esperança não podia ser melhor: quem o nomeou foi um verdadeiro bispo, o de Roma, Francisco, um Papa Cristão, como sabiamente o classifica  o teólogo Anselmo Borges.

25.Ago.2015

Martins Júnior