segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O DIA DAS “SETE SENHORAS” – SETE HETERÓNIMOS – SETE FIGURINOS:


Podia perfeitamente multiplicar todos os sete títulos por “setenta vezes sete” que não chegariam para pintar as variadíssimas maquilhagens com que a devoção popular pretende “ver” a mesma e única Senhora. E são tantas e de tantas sensibilidades que nos transportam ao mítico Olimpo dos deuses. Uma das mais pitorescas metamorfoses da Senhora tem direitos de autor no Funchal e dava pelo nome de “Nossa Senhora do Calhau”, por ter sido  a sua capelinha edificada, já lá vão cinco séculos, no “calhau” da nossa cidade, a qual, destruída pelo mar,  veio a ser substituída pela igreja do Socorro ou, primitivamente, de Santa Maria Maior.
Não sei se suscitará algum interesse esta minha digressão à volta da Madeira e Porto Santo, anteontem, 15 de Agosto, cognominado popularmente o “Dia das Sete Senhoras”. É um tema que tem tanto de lúdico como de sério. Tanto de mágico como de ridículo.  É tal a torrente de  elucubrações  e derivas as que jorram desta nascente de inspiração popular, que não conseguirei catalogá-las nesta breve missiva. Sendo, desde sempre, uma preocupação minha, o que me levou a partilhá-la convosco, nesta época de veraneio, foi o artigo do antropólogo e teólogo  Manuel  Mandianes, em “El Mundo”, intitulado: Fiesta, entre el rito y la provoción.

Para mim, enquanto espectador, é uma insistente dor-de-cabeça entrar neste intrincado labirinto de Creta e descobrir o como e o porquê de tantas roupagens atribuídas à mesma e única Senhora, como se fora actriz de novela, sobretudo quando me concentro na personalidade (humana e excelsa)  dessa humilde Mulher palestiniana.
Na minha declaração de interesses, juro que respeito todas as criações imaginativas da interpretação popular, sendo certo, porém,  em primeira mão, que a mentalidade nativa tem uma apetência incontrolável para a novidade, o estranho, o mágico. E corre desabridamente atrás da notícia, quanto mais mítica mais apetecível. Tenho a impressão de que se se propalasse a “notícia” que Nossa Senhora tinha aparecido nas serras do Caramujo, pois as gentes deixariam no deserto as noventa e nove ou as setenta vezes sete devoções e saltariam por aí fora em demanda de outra Senhora milagreira., que, para tal chamar-se-ia Nossa Senhora do Caramujo, ao lado de Nossa Senhora do Calhau.     
É para mim motivo de sérias incógnitas a particularidade ínsita no “nacionalismo religioso” que leva cada país e  cada lugarejo a descobrir  e colocar no mastro alto da sua bandeira um ícone específico da terra a que pertencem  E quando, logo depressa, acode o “nacionalismo político”, aí temos o grande trono onde se espelha a matriz patriótico-religiosa de uma nação. Em França, Lourdes;  no México, a de Guadalupe; em Itália, a do Loreto; no Brasil, a da Aparecida e, entre nós, Fátima, originariamente nome da filha de Maomé, transformada em “Altar do Mundo”.
Falo assim, dando o benefício da boa-fé a quem a tem,  mas também com a convicção de que o Magistério da Igreja nunca considerou as aparições como conteúdo dogmático em que devamos acreditar, mesmo sem compreender.  Mais me toma e domina o facto histórico de que a Mãe de Jesus é só uma --- MARIA --- e mais nenhuma. Vê-la, reconstituir os seus passos, a sua identidade, estimá-la e amá-la, tal qual Ela  é, isso me basta. Mesmo que não me faça nenhum milagre eu gosto dela, curvo-me perante a beleza e a dignidade do testemunho que nos deixou.  Não troco a realidade pela ficção. E quanto aos heterónimos, chegam-me os de Fernando Pessoa. Quem me dera perguntar a quem soubesse responder: no Além, quantos altares terá a Mãe de Cristo para lhe acendermos uma vela?
E sobre as velas, queria eu saber com quantas toneladas de cera se sente a Senhora feliz? Cinco mil por dia,  com  dizem os noticiários  ter ocorrido em Fátima?... Voltaremos à pré-história dos holocaustos em desagravo da Divindade?... A perna de cera que o crente, na foto, lança à fogueira, confesso que me arrepia, pelo que de traumático me traz à memória de outros tempos!  
Desculpem-me o desabafo, mas não consigo prosseguir mais nesta viagem por entre a densa floresta de crenças, superstições, exageros, que redundam em  ofensas àquela  Mulher, fonte da Grande Causa e seio progenitor de um Mundo esclarecido, exigente e reprodutivo de outros mundos futuros!

17.Ago.2015
Martins Júnior