sexta-feira, 21 de agosto de 2015

TURIFERÁRIOS = CAQUINHOS DE INCENSO = LAMBEBOTAS = SABUJOS


Há quanto tempo não via este estranho e divertido vocábulo: Turiferário!  Talvez há uns 50 ou 60 anos. Ao consultar a apreciação crítica do livro, fortemente polémico,  Le Travail et la Loi, de Robert Binter e Antoine Lyon-Caen, o analista enuncia a série de opositores, entre os quais, os próprios “turiferários”  do  seu, outrora,  professor na Faculdade e agora seus acérrimos críticos.
Não é do conteúdo do livro que me ocupo hoje, mas da curiosa designação dos “turiferários”. Quando muito jovem, era assim que se designavam os acólitos dos grandes cerimoniais e dos solenes cortejos processionais, os quais tinham por ofício transportar o turíbulo onde o presidente do ritual lançava o incenso, produto do arbusto classificado como “turífero”. E lá ia o turiferário abanando de um lado para outro o turíbulo que tilintava de encontro às “cordas” prateadas que o sustentavam.
E quem não observa,  presencialmente ou via TV, esta encenação primitiva nas solenidades litúrgicas dos nossos arraiais?... Pela minha parte, acho mais um resquício das míticas fórmulas orientais, espectáculo para os olhos e para as fossas nasais, lembrando a atmosfera onírica dos magos e feiticeiros, os cheiros inebriantes das ruelas indianas e, no limite, os perfumes afrodisíacos dos corredores de duvidosa frequência.
Passado este aparte interpretativo, volto ao ofício de turiferário, o portador do  turíbulo,, o incensador. E, mesmo em férias, chega-se  facilmente a esta hilariante conclusão: afinal, incensadores, bajuladores, oportunistas, lambe-botas, enfim, nunca os houve tantos como agora. Basta ler a voz do povo, habilmente compendiada no poeta algarvio António Aleixo: Engraxadores sem caixa/  Há aos centos  na  cidade/ Que só usam da tal graxa/ Que envenena a sociedade.
Na politica, eles acham o seu habitat natural: hoje, beijam os pés encardidos do “chefe” que lhes dá leite e mel, o posto, o cheque clandestino, envolvem-no em nuvens de incenso, (Yes, minister)  mas amanhã chutam-no à valeta, despem-no na praça pública e correm logo a segurar o cadeirão do poder. A Madeira é um  exímio exemplar da raça turiferária.
A hierarquia clerical é outro misterioso antro para turiferários hipócritas, rapa-sotainas, que vão comendo à mesa de Deus e do Diabo, para ascenderem ao ridículo canonicato, ao engordurado bispado, ao principesco  cardinalato e, daí, ao papa-léguas do império  papado. A história da “Santa Aliança”  e Le Rouge et le Noir, de Stendhal estão  aí  publicados, para quem quiser constatá-lo. Só “de séculos-a-séculos” lá aparece um desses purpurados, isento e transparente  (é o nosso tempo)  exposto mais cedo ou mais tarde  à maledicência  e à traição dos que lhe acariciavam o anel e o polvilhavam de incenso.
No jornalismo, nem falar: os que se dizem independentes, tão independentes como o “irrevogável” das feiras, bem retratados pelo  escritor-sociólogo Eça de Queirós na figura do Palma Cavalão, director da “Corneta do Diabo”, essa coisa sebácea e imunda como ele --- esses, cuja pena e papel são  feitos de alambiques de jorra e notas de cinco mil euros…
        Leia-se Molière, no seu Tartufo, para entendermos quão intemporal é  a geração dos corcundas do reino, dos mafiosos caninos, dos “toupeiras”, dos “lagartixas”, sedentos de chegar a jacarés, à custa dos mais vis estratagemas,  melífluos, afrodisíacos,  judas calculistas, de beijo armadilhado para  espetar o punhal  nas costas do seu mestre, do seu colega, do seu familiar… a troco de trinta dinheiros. Raça de víboras, chamou-lhes o Mestre.
É de tudo isto que  me lembro ( e também das vezes que, outrora,  me puseram  nas mãos um turíbulo  nos pontificados da Sé Catedral)  lembro-me de tudo,  ao ver esse, para mim, ridículo espanador de incenso com que os turiferários do templo vão perfumando ou profanando  os altares dos arraiais  nesta quadra  cerimoniosa  do nosso divertimento.
E viva a festa!  Queime-se incenso, como se queimam foguetes…
    
         21.Ago.2015

         Martins Júnior