domingo, 9 de agosto de 2015

UMA ESTRANHA FESTA DE CASAMENTO E UM MILIONÁRIO NAVIO SALVA-VIDAS

Em pleno verão, falemos de optimismo, gastronomia, de serra e mar. São os consumíveis da estação, feita precisamente para  alargar pulmões e emoções positivas, algo que nos faça, após as férias,  rever com outros olhos a monótona paisagem do quotidiano e nos permita tomar as ferramentas do nosso trabalho --- escola ou oficina ---  com aquela frescura e perspectiva como se fosse o primeiro dia em que lá entrámos.
Só que este mar e esta areia não têm o azul afago das nossas baías. Os pratos típicos desta gastronomia estão longe das aprazíveis esplanadas, bem pelo contrário, trazem o cheiro agridoce (mais amargo que doce) de outras paragens.  No entanto há um  sublime interface, quase mágico, que faz da contraditória ementa de hoje um cântico de optimismo esperançoso de dias melhores.
Tem duas páginas o “poema épico” que vos venho contar. Digo “épico”,  porque a sua datada e localizada mensagem abre as clareiras desse “Maravilhoso Mundo Novo” onde todos temos o direito a viver.
A primeira página  faz parte dos noticiários de 4 de Agosto pp..
Os noivos Ali Uzumcuoglu, oriundos de famílias abastadas, no dia de casamento,  prescindiram da sumptuosa festa que todos os noivos almejam e, em seu lugar,  decidiram oferecer e sentar-se  à mesa com 4.000 refugiados, na  cidade de kili,  região sul da Turquia. Eles próprios ajudaram a servir a refeição aos acampados sírios, agregados pela organização humanitária KIMSE YOK UM. Dos pormenores, sabe-se que a iniciativa desta estranha festa  --- muito mais que gastronómica --- pertenceu ao pai do noivo, com a imediata anuência do jovem casal. Não consta, sequer, que se tratasse de um casamento católico, a avaliar pelo ritual da boda.  Comentários, para quê? É certo que nenhum de nós se ilude com este gesto, datado e localizado, repito, para resolver a tragédia de milhares de refugiados. Mas ampliemos  a objectiva particular e imaginemos que a mesma opção dos noivos turcos transformar-se-ia, não na refeição de um dia, mas no código de conduta dos parlamentos e dos executivos mundiais!
A segunda página, tão ou mais impressiva que a primeira, sabe a mar, mas àquele mar, mais duro e salgado que o de Pessoa --- “Quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal”. O mar-cemitério é também datado e localizado: o Mediterrâneo.. Ei-lo aqui, o “poema épico”, colhida na edição de hoje do jornal “EL Mundo”:

Christopher Catambrone, 34 anos,  norte-americano, Regina;  italiana da Calábria, 39;  e a filha  Maria Luisa , 19 anos, possuidores de uma enorme fortuna, foram de viagem, oceano fora, no seu super-iate de luxo. Em vez da romântica paisagem marinha, depararam-se com peças de vestuário à tona das águas e aí aperceberam-se “in loco” do que se passava.  Apavorados com o mísero espectáculo que se repete, dia-a-dia, diante dos nossos olhos parados, decidiram investir a sua fortuna numa “guerra sem tréguas” a tamanha maldição. Tocados pela pesada denúncia do Papa Francisco --- confessam os próprios --- contra a “indiferença globalizada”, compraram por cinco milhões de euros um antigo  barco militar nos EUA , o único no mundo pago por particulares para o salvamento marítimo, apetrecharam-no com “drones” e a mais moderna tecnologia e  ao qual deram o inspirador baptismo de “Phoenix”, a ave mítica que renascia sempre das próprias cinzas.  Contrataram uma tripulação especializada de 23 elementos, entre engenheiros navais, enfermeiros e médicos, capitaneados por um experiente conhecedor dos mares, o espanhol Gonçalo Calderon. A partir do Centro de Coordenação de Salvamento Marítimo, sediado em Roma, a esposa Regina controla, por informação dos “drones”,  e localiza as embarcações carregadas de africanos. A filha Maria Luisa  pediu um ano sabático na Faculdade para poder aliar-se inteiramente a esta causa. E declara-se “afortunada” por isso. São comoventes os testemunhos de toda esta gente, sobretudo perante bebés que encontram condenados precocemente à morte por afogamento! Só em dois anos,  já  salvaram   no Mediterrâneo  8.910 pessoas, sobretudo, da Nigéria, do Sudão e da Eritreia.
Tudo, a expensas suas, exclusivamente! Para operacionalizar mais  eficazmente a campanha, criaram uma ONG, da sua inteira responsabilidade, denominada MOAS (Estação de Ajuda ao Migrante por Mar)  articulando-a com a dos “Médicos Sem Fronteiras”.
“ Milhares de pessoas estão morrendo diariamente às nossas portas. Temos de fazer algo por elas …Salvamo-las no mar  e depois  encaminhamo-las para outras ONG’s  que as acolhem em terra. O que mais nos entristece --- desabafam ---  é ver a Europa a olhar para outro lado, à espera que o mar faça o trabalho sujo… E fatiga-nos quando alguém nos chama “milionários salva-vidas”. Tão pouco que nos chamem heróis”.
Dois marcos eloquentes, arvorando a confiança, o optimismo, o tal “Maravilhoso Mundo Novo” que vaticinou Aldous Huxley!
Não me canso de afrontar os FMI’s, os BCE’s, os  “offshores”, esses carniceiros do jogo sujo, que não temem apelidar de loucos os jovens noivos da Turquia e o casal Catrambone.
Quem nos dera que, à nossa porta, fizéssemos algo de transformador, ultrapassando as louváveis, mas insuficientes, chancelas do voluntarismo caritativo. É preciso educar as mentalidades. É preciso indignar-nos! Mesmo de longe, algo podemos fazer.
Consta que brevemente, numa das mais pobres freguesias da ilha, andam emigrantes (não se esqueçam que já foram imigrantes) preparados para repetir os ostentatórios e atentatórios arraiais religiosos com as ruidosas manifestações profanas do mais faraónico desperdício perante a miséria do seu Povo. Tudo (ofensivamente, em minha opinião) à sombra da religião. Não haverá  por aí  alguém que lhes proponha, em nome da mesma religião, algo que perdure a favor de idosos, crianças, doentes, enfim, náufragos neste mar em que navegamos?!
Quem estará disposto a seguir as pegadas dos noivos turcos  e do casal Catrambone?

9.Ago.2015

Martins Júnior