terça-feira, 29 de setembro de 2015

“SE VOTAREM NO MESMO, DEIXO DE SER PORTUGÊS E PEÇO PARA SER CHINÊS”----------- Será o 4 de Outubro um novo 29 de Setembro?



Ecoam nos meus ouvidos as emoções sonoras do 29 de Setembro de 2013, tão vívidas e tão imensas que começaram na Madeira e abraçaram o Porto Santo. Foi o derrube do muro da vergonha que cercava o Povo desta terra dominada pelo poder esmagador da maioria laranja ferreamente vigiada pela alta torre dos 11 castelos disseminados  por toda a Região --- as 11 Câmaras Municipais. Foram sete  --- número perfeito! --- as fortalezas que fizeram capitular a muralha monolítica  construída ao longo de quase quarenta anos. Parabéns aos lutadores representados nos seus autarcas, aos quais repito o que então disse e escrevi, ao ritmo da canção de Sérgio Godinho: “Hoje é o primeiro dia do resto do vosso mandato”.
         Congratulo-me e disso dou testemunho aberto, enquanto cidadão de corpo inteiro e alma atenta --- e com o  redobrado dever de o cumprir. Aqui, o cumprir tem toda a força semântica de alertar. E agir em conformidade.
Tomo como ponto de partida o  que, hoje mesmo, ouvi de alguém, após  comentar o último “blog” sobre a inteligente e estratégica concentração de vontades (leia-se, unificação de votos) para castigar o “inimigo” comum. E desatou com este desabafo, vindo do mais fundo da sua revolta:” Se os mesmos ganharem as eleições, renuncio à minha nacionalidade e peço  para ser chinês” . E lá foi descrevendo as malfeitorias desta governação que, houvesse ou não houvesse troika, executaria  o mesmo programa, com a mesma frieza com que Victor Gaspar prenunciava o “enorme” sacrifício dos portugueses ou com a mesma indiferença com que Passos Coelho proclamava “temos de empobrecer” e abria aos jovens a porta de saída do seu país, empurrando-os “para a boa oportunidade de emigrar”. Mais desabafava, incontido, o meu amigo: “Aqueles jovens, que a coligação amarra atrás de si nos comícios, pensarão eles nos 500.000 emigrantes, a maior parte deles da sua idade, que foram ‘expulsos’ de Portugal por este governo?” Coincidência ou descuido, por parte do jornalista  de serviço, fomos informados que eram sempre os mesmo que a coligação deslocava para toda a campanha.
O certo é que estamos na encruzilhada de dois mares: passar do Cabo das Tormentas para o Cabo da Boa Esperança. E aqui não há lugar para a dispersão das tripulações nem para derivas de bússola, que contentam o egocentrismo das suas claques mas nunca chegam a terra, nunca alcançarão a meta do poder. Há tempo de protestar e há tempo de reunir. Há tempo de sonhar e há tempo de cair na real. Há tempo de partir pedra e há tempo de construir.  Neste momento a hora é de reunir e não de dispersar. De agir e não de delirar. De levantar a casa e não de espalhar cascalho. Isto,  se decididamente  queremos apear quem cumpriu sadicamente a acusação que assacara ao governo anterior: “Pôr-nos a pão e água”!
Carlos do Carmo deu-nos ontem uma lição magistral, ao denunciar as  agressivas pedradas de todos os quadrantes políticos contra António Costa. “Não me lembro, em nenhuma campanha eleitoral, de um ataque tão violento a um candidato, fazendo dele “um saco de pancadas”.  No mesmo sentido, Rui Tavares do “Livre”.
Pela minha parte, limito-me a constatar e lamentar o monopolismo congénito de certos partidos, como se fossem  a única “candidatura patriótica”. Ou como se os trabalhadores e os explorados fossem um feudo, uma sua exclusiva coutada política, fazendo deles desgraçados pintainhos  debaixo das asas do único galo tutor e  protector, só porque se metem, vistosamente, esses partidos nas manif´s, retirando (a meu ver) a autenticidade e o protagonismo dos  promotores de base.  Bastou o PS  assumir, no seu programa  eleitoral,  posições iniludíveis contra o corte das pensões ou dos salários, para virem logo certos partidos empertigar-se: “Não toquem nisso. Advogado dos trabalhadores só um, o meu partido e mais nenhum”. É caso, no mínimo, para inverter o humor do Ricardo Araújo Pereira: Não é bonito, mas”… o que é  preciso é fazer tudo para que o PS não chegue lá, melhor ficar a coligação.  E é com muita mágoa, creiam,  que  redijo este parágrafo, mas factos são factos. E contra eles não há argumentos. E quando acima do supremo interesse dos portugueses se antepõe o supersticioso interesse do partido, nada feito!
De hoje  até domingo, é a hora da solene convocatória de subir ao alto da montanha, visualizar a paisagem global deste país e, sem que ninguém  perca a identidade da sua formação partidária, dispensarmo-nos de provocar eclipses inúteis que deixarão tudo na mesma “ austera, apagada e vil tristeza.”, como já se lamentava Camões ( Lus.X, 145) e  Fernando Pessoa deplorava o “Nevoeiro” da sua e nossa pátria.
Termino com o entusiasmo com que comecei: Será que, em 4 de Outubro, repetirá o Povo madeirense, repetirão os portugueses a retumbante vitória do 29 de Setembro de 2013?  Mesmo que fosse  contra toda a esperança, espero dar os parabéns  a um Povo “nobre” de clarividência, “nação valente” que não perde de vista o alvo da sua luta.

29.Set.2015
Martins Júnior  
    


domingo, 27 de setembro de 2015

ANTE O "NOVO" FANTASMA DA INSTABILIDADE O pior de todos os medos é o medo de ter medo



De que havemos conversar neste domingo último de Setembro senão no domingo primeiro de Outubro. Não tanto pelo circo tumultuante dos artistas na arena política, o que deve polarizar a nossa atenção é a Magna Assembleia dos Portugueses, a realizar-se já em 4 de Outubro, Dia D da libertação de todo um Povo.  É o Parlamento dos parlamentos, no grande triângulo que une o território continental e as regiões insulares. Para lá entrar é preciso deixar fora todos os medos, inclusive o pior de todos, como menciono em subtítulo. Digo isto, porque os caçadores de “bocas” desconexas (leia-se em brasileiro calão, “fofocas”) lembraram-se de espalhar agora o avejão nocturno a que chamam instabilidade governativa. Bastou ter ouvido a António Costa definir-se claramente, (embora politicamente incorrecto, dizem os comentadores de turno)  que não aprovaria um orçamento da coligação que cortasse nas reformas, para logo agitarem o agoiro fatal: o PS, desestabilizador da governação, provocará novas eleições. E quem é o “arcanjo exterminador” que traz essa mensagem do além?
Vale a pena dedicar-lhe um parágrafo.
Não há cena mais ridícula nesta campanha do que ver Paulo Portas afivelar uma tenebrosa carranca, desenhar na testa uma pauta de sete linhas e, qual adamastorzinho do Caldas, vociferar: aí vem a instabilidade governativa, aí vem o medo, o medo, ai o medo… Mas reparemos quem é ele. O desordeiro-mór, o mais atrevido conspirador, aquele que, em meio do mandato, afoga o país com o grito “irrevogável” da demissão, isto é, da queda do governo, do seu próprio governo! Não fora a intervenção do Padrinho Cavaco Silva que voltou a colar a pele dos dois irmãos siameses e o governo da coligação teria caído nessa noite. A troco de quê? De um tacho de lentilhas chamado “vice-primeiro-ministro”. E não há quem lhe solte na cara  uma bombada de escárnio, uma girândola de gargalhadas, perante um provocador nato, irrevogável incorrigível, capaz de deitar abaixo a própria casa onde se refugiou por empréstimo. Não há palavras! Apenas isto: tenho a percepção de que, se a coligação por má ventura ganhasse as eleições, o mesmo “fura-bardos” (aqui, o humor ajuda a ler) não deixaria que o mandato chegasse ao fim. Destrui-la-ia por dentro.
Voltando ao real quotidiano, isto é, à análise fria de todos os cenários possíveis, é minha convicção que o elenco governativo que melhor garante a estabilidade é, inquestionavelmente, o Partido Socialista. Permitam-me justificar. Na incompreensível, mas hipotética vitória da coligação, o seu programa e orçamento teriam os dias contados: António Costa votaria contra, já ele o disse corajosamente. A restante esquerda, CDU/BE/Livre e similares, pelo que se viu no batente da campanha,  não teria outro desfecho coerente. Num segundo cenário, o mais provável e necessário, com o PS no governo, ainda que minoritário, contaria no seu programa e orçamento com a aprovação ou, no mínimo, com a abstenção, das citadas forças partidária. Primeiro, por coerência com um ideário comum no essencial. Depois, por uma questão de decência política, visto que a experiência do chumbo do PEC4, em 2011,  saiu crua e dura ao país, pois foi aí que a esquerda levou ao colo o PSD/CDS até ao trono do poder que espremeu o Povo durante quatro longos anos.
Portanto e não obstante as críticas, tantas vezes infundadas, mas admissíveis numa praxe eleitoral, por parte de certa esquerda “versus” António Costa, a estabilidade política de Portugal estará inelutavelmente na vitória do PS. Eis o meu contributo, susceptível de contradita como qualquer outro, para uma serena reflexão, a partir deste domingo último de Setembro até ao domingo primeiro e decisivo de Outubro.
A terminar, fico a pensar com que estômago voltarão os portugueses a ver o  compulsivo “irrevogável”  naquela pose de olhos maiores que barriga, agitando o papão do medo.  Para amenizar o caso, terei de lembrar-me da rã da fábula, adaptada, de La Fontaine, ameaçando engolir o boi que calmamente pastava à beira do charco.
Mas o dilema é muito sério. A Magna Assembleia do Povo Portugueses, em 4 de Outubro de 2015,  nunca será presidida pelo medo de ter medo. Dos fracos e dos indecisos não reza a história! E não esqueçamos o velho aforismo: A força dos fortes é o medo dos fracos.
27.Set.
Martins Júnior


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

PORQUÊ 14 CONTRA 1 ?

Com o devido respeito cívico para com todos e com todos os partidos e coligações concorrentes às eleições de 4 de Outubro, apraz-me reproduzir substancialmente aqui, em fim de dia, os considerandos que o jornal online “Funchal-Notícias” fez o favor de publicar hoje de manhã, em artigo que escrevi no dia 22, sob o título “ Não há crise…de partidos”. 

                         
  Eles aí estão, nascidos como cogumelos, por geração espontânea, de quantas cores e tamanhos tantos, não se distinguindo, a olho nu, os saudáveis dos venenosos. É tal a sementeira que mais se parece àquelas aldeias, paupérrimas de recursos mas ricas no índice de natalidade. São assim as crises: barrigas de aluguer do mais vulgar de Lineu que se  apresenta como salvador de pátrias.
         No entanto, não escapará, por certo, ao observador atento um traço identitário comum., qual seja, o de inscrever no mastro alto das respectivas bandeiras as mesmas palavras de ordem de todos os adversários emergentes: o novo hospital, os transportes marítimos, os dois meses de carência no reembolso das viagens aéreas, as crianças  e os velhinhos,  os IMI’s, os manuais escolares, as pensões… e por aí fora, tudo enfiado numa placa de zinco, como se fossem impressas na mesma tipografia. E quando se esgotam os “spots”do mercado, entra-se pela nuvem dos delírios, fazendo juras de alcançar  paraísos irreais, de todo inatingíveis. E, nas mais das vezes, contraditórios.  Estou a lembrar-me daquele eleito para vogal de Junta de Freguesia. (leiam-no nas entrelinhas) o qual, ao saber que só teria direito ao pagamento de senha de presença quinzenal, respondeu: “Desisto, isso nem dá para a sola das botas”. E agora --- “suave milagre” ! --- aparece como cabeça-de-lista de um partido recém-chegado à Madeira, cujo programa solenemente decreta a “redução imediata do ordenado dos deputados”.   É caso para exclamar: AhAh! 
         Mas há uma outra marca distintiva em quase todos os jovens partidos (e dos velhos dogmáticos também)  tão impressiva e descarada que até um cego a detecta: meter grãos de areia na roda dianteira  dos dois (aliás, de um) dos corredores  rivais que encabeçam o pelotão. Descubram-me um desses 13 ou 14 partidos que não faça do PS a ementa apetecida da sua cozinha picante! Achei uma piada extrema quando, da varanda do Kremlin da sua arrogância, o fogoso líder, na ânsia de melhor servir o prato, ensandwichou o PS no meio da Coligação, ao igualá-los  da mesma feita, com a já estafada equação: “PSD-PS-CDS, farinha do mesmo saco”. Isto, após a declaração inequívoca de António Costa de votar contra o eventual Programa e Orçamento da Coligação. É obra! Valha-lhe a inflexão de discurso feita hoje mesmo: ”Estamos dispostos a fazer contactos com o PS”.
         De não menos pontiaguda intuição subterrânea é a verdura daqueles que tendo recebido o apoio do PS nas últimas autárquicas --- o terro de que nasceram e cresceram ---  agora agarram,  sempre que podem,  o primeiro calhau  para atirar em rosto dos “ex-compagnons-de-route”, inclusive contra um dos seus  beneméritos “padrinhos”, o CDS. Coisas da tenra idade que, cedo ou tarde, farão ricochete irreversível! Mesmo na rampa escorregadia da política, nem sempre vale tudo.
         Não está em causa o legítimo direito de participação política. E, da minha parte, não  esqueço que, em 1976,  fui convidado e alinhei num pequeno partido, cuja nomenclatura está hoje extinta. Portanto, sei do que falo. E até no parlamento regional nunca ninguém ouviu da minha boca expressões depreciativas contra qualquer  partido da oposição, precisamente porque nunca perdi de vista o adversário comum, o PPD/PSD.     Por isso,  o que mais decepciona é a ingenuidade (à falta de melhor designação) de certos candidatos  publicamente conhecidos que, perdendo a visibilidade dos cenários no horizonte de pouco mais de uma semana e sabendo que nunca elegerão um único deputado (serão precisos 15.000 votos) estão levando nos braços até ao pódio do poder uma direita ultraliberal, infiel à palavra dada e  para a qual as pessoas valem menos que os números da “economia que mata”.  Lamentavelmente o confesso, mas tenho a convicção de que, se a eleição fosse apenas entre a Coligação e o PS, certos partidos, auto-proclamados puritanos defensores do Povo, votariam PSD/CDS. Aliás, foi a puritana esquerda que em 2011, chumbando o PEC4, sentou Coelho e Portas no cadeirão de São Bento e abriu  o ciclo da abjurada austeridade.Com a direita no poder, mais facilmente voltarão as manifestações, as cavalgadas na escadaria da Assembleia da República, com os mesmos líderes partidários a vestir a camisola do protesto, esquecendo-se de que o país precisa mais de bons governantes do que de profissionais protestantes.  
         É o velho princípio da terra queimada. Quem nada tem a ganhar, nada tem a perder --- assim pensam. Mas, se assim acontecesse, ao fim da picada, todos perderíamos. Todos!
E sai a pergunta final: Será justo “14 contra 1”?

Martins Júnior  
25.Set.2015 
              
N.B. – Sem prejuízo da consideração e, nalguns casos, da velha amizade que me liga aos elementos da JPP, estranhei a ligeireza de publicarem no seu facebook gravuras de um encontro casual em campanha eleitoral na Ribeira Seca, não obstante a ressalva que, cordial e ironicamente, lhes dirigi. na altura: “Olhem que eu não sou sportinguista”. Mais uma vez se confirma: Em política, não vale tudo.


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

BATALHA NAVAL NOS MARES DO CANIÇAL



Só pelo insólito que representa e pela “originalice” que transporta é que trago hoje ao nosso convívio este “sabor de sal, sabor de mal”, como diz a canção. Um duelo no mar, não o das Tormentas mas o daqui mesmo à borda d’água caseira.
O fenómeno remonta, por um lado, ao tempo das cavernas tribais e, por outro, à estação das crianças sem infância --- ou de uma infância sem chá à mesa. Podem novelar o caso, dourar a pílula, fazer orelhas moucas, tipo “táva lá mas nã vi”, como se usa atribuir às gentes do Caniçal. A verdade é que o escândalo foi público e notório, embora inimaginável, jamais visto.  Como tal,  é preciso captar no efémero e no fortuito a dimensão global do seu lugar semântico.
A novela não tem mais que um único episódio: dois autarcas presidentes são convidados para  a “casa” naval do armador, acto contínuo são desconvidados e  “forçados” a sair pela porta da boa educação. Porquê?
Porque um ex-colega, recém-promovido ao estrelato de governador da ilha, vai fazer a entrada triunfal. E ao outro, nem vê-lo, nem cumprimentá-lo.
Tudo isto em honra e sob os olhares de Nossa Senhora, a quem o super-homem  se  esquecera de trazer um braçado de rosas falidas, montadas no cavalo de São Jorge.  Ai, se a Senhora as visse faria o milagre de transformá-las em cardos e urtigas para coçar-lhe a paranóia de um ego espumoso  mas vazio, porque evaporara-se a coragem de conviver, lado a lado, com aquele em cuja cama presidencial já dormira muitos anos a fio.
Vamos lá acabar com a caricatura  desta  treta ridícula, infantil, tribal. E passemos ao dentro dela. Vou fugir à caracterização ética das personagens, até mesmo aos traços fisionómicos da sua identidade.
Que é que vão fazer certos jarrões da política para festas e procissões religiosas?...Pela amostra do Caniçal, ficamos a saber: emproar-se, “montar” nas imagens, sobrepor-se ao andor. Fariseus da primeira fila, onde a ganância de  votos é proporcionalmente inversa aos resíduos da fé. Eucaliptos marinhos que sugam a água do oceano e as espécies que o habitam. Ah, se o Cristo viesse pegaria de novo no azorrague e punha-os a “tenir” do templo para fora. E se a Senhora --- ainda por cima, da Piedade --- pudesse falar,  levantaria a sua voz materna e exigente:  “Vai chamar os teus irmãos,  colegas de serviço público,  o do Funchal e o de Machico, e então cumprimenta-os, abraça-os diante de mim. De contrário, o melhor que farás é atirar-te ao mar, com uma mó ao pescoço, daquelas que são movidas pelos jumentos, como bem apregoou o Meu Filho. Não se escandaliza o Povo crente e de boa-fé”!
E ficamos todos embasbacados e quietos com cenas tão degradantes quanto sacrílegas. É preciso reagir. É preciso dizer não! O Povo tem o direito de ver nos seus líderes os protótipos do civismo, já que lhes escasseiam os ditames evangélicos. Tanto na política, como nas mafiosas hierarquias eclesiásticas. Elas convivem gozosamente nos pântanos dos interesses mútuos, alimentando-se como hidras do mesmo lodo macio e fétido. Leio na imprensa estrangeira que, em Washington, os rivais  republicanos e democratas querem sacar o maior proveito partidário  da visita que o Papa Francisco hoje inicia. Quão difícil será resistir a esta “união de facto”, incestuosa e vil!
Pior ainda --- e oxalá jamais se repita --- quando algures no planeta um bispo residente  se  recusa  a  participar numa cerimónia festiva porque o bispo emérito fora também antecipadamente convidado para a mesma festa litúrgica. A quanto obrigas, deusa hipocrisia, os estúpidos mortais?!
Que, ao menos,  nos valha Nossa Senhora da Piedade do Caniçal…

25.Set.2015

Martins Júnior

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

VINDIMANDO NA HORTA DA DIOCESE --- o relatório de Roma



“Até ao lavar dos cestos é vindima”. Por isso, antes que termine a vindima de  outono e não obstante a multiplicidade de acontecimentos que nos batem à porta, vou hoje recolher alguns bagos de uva das latadas da diocese, dado que ainda estamos na repisa desse notável e notando marco da história da Igreja portuguesa, neste caso, a da Madeira.
Trata-se da tal visita “Ad limina apostolorum”, ou seja, em termos concretos, da prestação de contas ao Papa de Roma sobre o Estado da Fé e respectiva vivência no território de cada região, em Portugal, acontecimento cíclico que se realiza de cinco em cinco anos. É interessantíssima, porque envolta numa aura  de misticismo, a forma como a comunicação social afecta à religião se lhe refere: ”Contacto com as origens e  fontes apostólicas, nos túmulos e catedrais de Pedro e Paulo, Assembleia do colégio apostólico em redor do sucessor apostólico de Pedro, ardor apostólico para reavivar a chama da fé” e demais sinónimos de fideísmo e apostolicidade.
Mas a verdade é que de nada sabe o Povo, digamos, os súbditos desconhecem por completo a radiografia que deles levou o chefe diocesano  ao Chefe universal e Juiz da Cristandade. Já por aqui deambulei, antes do início da grande viagem que fez o episcopado a Roma.  Hoje, proponho e reforço a necessária (assim deveria sê-lo)  interpelação a quem de direito: Que respostas, sugestões, decisões, talvez sérios avisos mereceu o Relatório apresentado em Roma entre 6 e 12 de Setembro?
Ninguém sabe. E o mais significativo é que poucos ou nenhuns querem sabê-lo. E com isto se toma nas mãos o barómetro da vivência cristã, cultural, social, parte integrante da nossa história actual. Não há nada mais temível que a indiferença. É o sintoma infalível de um corpo inanimado (mesmo que ricamente perfumado e embalsamado) neste caso, de uma cristandade desencarnada,  de um “faz-de-conta”, pois aí o que conta é a fachada do prédio, o repicar dos sinos, as opas vermelhas embandeirando as ruas e o pálio de oito varas arvorado ao vento.
É um dado inquestionável que o barómetro da crença não marca a temperatura da espiritualidade. A Fé não é mensurável. Mas… é caso para  perguntar: Que foram  então fazer ao Vaticano os nossos líderes religiosos? Se os próprios metem no congelador da memória particular o que a todos diz respeito é sinal de que lá metem também a nossa memória colectiva.  Com que propostas e com que ânimo regressou o responsável da diocese sobre o presente e o futuro da catolicidade madeirense? Neste capítulo remeto os meus interlocutores para o eloquente texto, histórico, que o  Padre José Luis Rodrigues publicou, precisamente no dia em que começou a magna assembleia em Roma, domingo, 6 de Setembro. Lá estão as rubricas, os artigos e os parágrafos para um Relatório, digno deste nome, a apresentar em Roma. Tê-lo-á sido, de verdade? Ou tudo não passou de mais um roteiro turístico pago pelos contribuintes das igrejas locais?!...
Estou a recordar-me do veterano missionário redentorista, Le Père Henri Le Boursicaud, que empreendeu, aos 75 anos,  a corajosa viagem  entre Paris e Roma, no ano de 1995,   “percorrendo 1.500 Km,  a pé, ao longo de estradas nacionais de França e Itália, 97 dias a caminhar ao calor, à chuva, ao vento, comendo e dormindo mal”.  E para quê?... “Para interpelar a Igreja Institucional”, assim define claramente o livro da viagem,  já na sua 8ª edição. Foi com um misto de emoção e militância que muitos de nós ouvimos contar, na primeira pessoa, o relato desta  autêntica viagem missionária, quando o então octogenário (hoje com 95 anos) celebrou no templo da Ribeira Seca e em vária igrejas da Madeira.
Interpelar a Igreja Institucional de Roma!
E o nosso prelado, terá ele ido interpelar ou --- o mais previsível --- terá sido  ele interpelado pelo Papa Francisco acerca da Igreja institucional desta diocese?!...Respostas que os cristãos,  atentos e responsáveis  construtores  da sua Igreja,  têm o direito de saber. Onde está o Laicado madeirense, os movimentos associativos, as ordens e congregações religiosas, o Conselho Presbiteral, o Cabido dos cónegos?  Ninguém esboça a mínima apetência para conhecer o quadro geo-religioso --- ao menos aquele que foi apresentado em Roma --- acerca desta nossa Ilha de Santa Maria?
É uma proposta que aqui fica. Ainda vamos a tempo, porque “até ao lavar dos cestos é vindima”. E alguém terá de exigi-lo! É um direito. Para estímulo do dono da vinha, ouso alvitrar o seguinte:  quem mandou elaborar “500 anos da diocese” bem pode mandar publicar 5 anos do seu episcopado.
21.Set.2015
Martins Júnior


sábado, 19 de setembro de 2015

MAIS FESTAS E SENHORAS


 Temos todo o tempo do mundo para conversarmos sobre temas vários que, nesta altura, caem em catadupa no terreiro do nosso quotidiano. Por isso, hoje optei por continuar dentro do pavilhão ou sob o guarda-chuva da Senhora, pois que ainda palpitam um pouco por toda a Madeira as festas dedicadas à mesma Senhora, embora se apresente com outra maquilhagem --- Senhora da Piedade, Senhora do Rosário, Senhora do Livramento, o 13 de Outubro em Fátima…. E faço-o, motivado que fiquei com a troca de ideias de outros amigos que encontrei ontem e que hoje volto a cumprimentar.
         Queria eu ter a pena ágil de um Eça de Queirós ou o talento de Dante Allighieri, na sua “Divina Comédia”, para trazer ao pequeno ecrã uma narrativa com que sonho há muito tempo e costumo redizê-la aos meus companheiros de viagem que são as gentes da Ribeira Seca.
E lá vai ela, a narrativa:
Era uma vez…uma devotíssima senhora, toda ela cheirando ao véu das múltiplas e venerandas Senhoras. Ela adorava as novenas de Maio, as trezenas do Monte, as quarentenas do Parto, as “velas que dão luz e vão morrendo”, os eflúvios inebriantes dos incensos que turibulavam nas naves dos templos, sei lá, percorria todas as imagens e a todas tudo prometia: os colares de ouro que uma tia-avó, solteira rica e “Filha de Maria” lhe oferecia em dia de anos, alcatifas azuis para a imagem passar, diademas e coroas de ouro fino sobre a cabeça da Rainha dos céus e da terra. Guardava ciosamente no seu aparador um menu interminável de Senhoras.
         Ora, um dia a Senhora morreu. Em chegando lá cima, São Pedro fez um ângulo dorsal de 90º e instalou-a nos átrios eternos. Mas a nossa “Beatrizinha” --- era assim o seu diminutivo de carinho --- começou a ter saudades das Senhoras que tanto tinha cortejado em vida. Desce do seu cadeiral e. sem mais pergaminhos, interpela o Guardião Celestial:
--- Oh, meu rico São Pedro, faça-me esta graça.
--- Filha dilecta do Senhor, tu mereces tudo. Fala.
---  Sabe, tenho saudades tantas da Senhora do Guadalupe. Será que podia vê-la pessoalmente e agradecer-lhe uma tão grande graça que me fez lá em baixo.
--- É já, meu anjo. Fixa bem: tu vais por esta corredora, viras à esquerda, dás outra guinada à direita, entras noutra maravilhosa corredora, deparas-te com um largo em redondel e…pronto, lá verás a tua Senhora do Guadalupe.
E a  octogenária Beatrizinha avança, pressurosa e arfante. E alcança o seu desejo. Mas, diante da Senhora Imagem, lembra-se de outra Senhora, a do Livramento, que lhe livrou  da tropa um sobrinho  e a outro salvou-o das maldita minas lá das áfricas. Volta ao S.Pedro e reformula o pedido:
--- Vai perdoar-me, Santo Porteiro, mas eu também queria ver a Senhora do Livramento.
--- Não tem que pedir, vai já. Repara  bem: entras nesse corredor, viras à esquerda, mais uma guinada à direita, uma corredora e logo à frente um redondo e um altar. É lá mesmo.
E a nossa devotíssima anciã corre, corre. E lá está. Foi tal o ardor que se desfez em lágrimas de compunção, sem sequer olhar para a imagem. Mas… lá vem outro desejo. Volta a São Pedro:
--- Esqueci-me, Divino Pescador, que também a Senhora da Agonia deu-me força de chamar o sr. vigário para dar a Extrema-Unção à minha rica tia. Até pus ao pescoço da Senhora o melhor cordão que ela me dera no dia do Crisma.  
--- Não tem problema. Vais por essa corredora avante, depois à direita, a seguir à esquerda, outra corredora, um palco em círculo. Não tens que errar. Já chegaste.
Ainda mal refeita da emoção anterior, limpa as furtivas lágrimas da face, segue o esquema --- hoje, diríamos o GPS da fé --- e faz a sua oração. Mas, apurando a vista, nota que o colar de ouro estava ausente da Senhora. Tê-lo-á imaginado no cofre forte à guarda do Tesouro Celestial e, de regresso, mais um remorso: lembra-se da Senhora dos Aflitos. Corou de medo, mas a coragem foi maior e avança para a sagrada Sentinela:
--- Agora é que é a última vez que venho a seus pés, Guardador das Chaves Santas. Falta-me uma prece e um muito-obrigada  à Senhora … e lá compôs entre dentes… Dos Aflitos.
O Santo Ancião, com a paciência de um mártir, cofiou as barbas longas tisnadas do sal do mar da Galileia, curvou-se reverentemente e não teve outro trabalho senão repetir a mesma receita, que ela, a ancestral e  devotíssima romeira cumpriu escrupulosamente, até chegar à desejada meta. Desta vez, fixou melhor o rosto da Senhora, sentiu uma espécie de cardos da dúvida a percorrer-lhe a consciência, mas depressa as afastou com o mesmo à-vontade com que se afastam mosquitos. E voltou a rezar, a rezar, a agradecer. O pior é que começaram a persegui-la as memórias de outras Senhoras que constavam do seu cardápio terreno e com tal veemência como se  umas tivessem ciúmes das outras, reclamando cada qual a sua prioridade.
A nossa fidelíssima octogenária não achou lenitivo para esta angústia senão voltar à fonte e, diante de São Pedro, em turbilhão as intermináveis identificações e passaportes marianos que trazia no subconsciente, particularmente Nossa Senhora do Calhau, do Funchal, e Nossa Senhora dos Remédios, de Lamego.  
Que remédio! --- exclamou o Santo Guardião, sem poder conter o mais que justificado constrangimento. E rememorou-lhe o mesmo “código de estrada” em direcção à Senhora. Aí, a nossa beatíssima Beatrizinha perdeu um pouco da habitual compostura e atreveu-se:
--- Oh, santíssimo Proto-Papa, está a enganar-me. Pelo que me diz vou bater à mesma corredora, à mesma esquerda-direita, outra vez à mesma segunda corredora, ao mesmo redondel.
--- E à mesma Senhora --- rematou o paciente Cicerone.
--- Mas como pode ser isto? ---- enervou-se a nossa devota. Desculpe, mas o senhor está a matar a minha fé nas minhas sete, ou setenta vezes sete, Senhoras-
--- Minha filha, acalma-te, relaxa. Tem paciência e volta ao mesmo lugar e Ela, a única e verdadeira Senhora esclarecer-te-á, perdoará e salvará eternamente.
Não há palavras, nem exclamações nem interjeições que permitam ao narrador contar o que exactamente se passou depois. É que a nossa sereníssima pagadora de promessas entrou e fechou decididamente a porta. Entretanto, pelo buraco da fechadura, o narrador conseguiu captar o momento:
--- Senhora Mãe de Jesus, afinal quem és tu? Onde é que estão as outras sete ou setenta vezes sete Senhoras? Onde estão as minhas velas sem conta, os meus colares de ouro que lhes ofereci, os passos que eu dei, as peregrinações que me retalharam os pés, correndo de um Santuário para outro? Não posso, não aguento mais!
Eis o clímax de todo este drama: a Senhora desce os degraus do altar, ajuda a levantar a anciã debulhada em pranto e soluços, abraça-a, com aquele encanto que só uma mãe sabe consolar um filho. E diz-lhe:
--- Sou Eu Aquela que procuras.
--- E as outras onde é que as escondeste?
--- Minha filha, não há outras. Só há uma. Aquela com quem falas.
--- Mas lá em baixo havia tantas, tantas, que amei e a quem tudo dei.
--- Lá em baixo, enganaram-te. Esse foi o mundo do engano. Agora estás no mundo da Verdade. Enganaram-te, vestindo-me de tantas figurinos, de tantas alcunhas, de tanto ouro, de tantas ceras, que não havia necessidade. Aqui me tens: a Única, a Mãe do meu e do teu Jesus.
Com um beijo selaram a grande descoberta. Recuperada da abissal desilusão,  Beatrizinha  tornou-se Beatriz, adulta, esclarecida, vigorosa. E apertou Maria, a Grande Mulher e Senhora, com este brado:
--- Manda alguém lá baixo, te imploro. Um mensageiro, anjo ou arcanjo, avisar os pobres mortais, dizer-lhes que não mais se iludam, não mais te ofendam.
--- Eles têm as Escrituras, eles têm a Razão, eles têm o Amor que lhes desvendarão o esplendor da Verdade e saberão que a Senhora é só uma: MARIA E MAIS NENHUMA!
………………
Ninguém veio.
 Mas o narrador “viu”.  E aqui dá o seu testemunho para quem quiser reflectir, para quem quiser contestar, para quem quiser --- concordando ou discordando --- ajudar  a fazer luz neste mundo obscuro, tolhido pelo medo de encontrar a Verdade.
E agora sou eu que concluo: muito embuste, muita patranha, muito lucro vil se enxameia a crença, a coberto de devocionismos fraudulentos ou, pelo menos, desviantes. E termino, sentindo bater aos meus ouvidos aquela belíssima e dolorosa canção, sucessivamente interpretada por  Joan Baez e Dalida:
Ils ont changé ma chanson, ma!
Nem duvido: eles, os tecnocratas da religião, os manipuladores da fé mudaram o Poema da Mãe, corromperam a mentalidade e a sensibilidade do Povo crente!
19.Set.2015
Martins Júnior


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

AS DESGRAÇAS DE UMA “SENHORA IMAGEM” --- a propósito do comentário que veio de longe




Que bom é saber que alguém nos escuta. E a melhor prova  de que alguém nos escuta é ouvir o eco da sua voz. Este SENSO &CONSENSO não teria senso nenhum se não provocasse o debate, a discussão que é, ao fim e ao cabo, a nascente irradiante da luz. Quero, com isto, referir-me ao comentário de Fernando Vouga    quando, acerca do meu escrito, de 13/Set/15, sobre a Festa do Amparo, comentou:  “  Com todo o respeito e consideração que o senhor me merece, como é quer que eu acredite nesse "amor de mãe" celestial, do Amparo,  quando um desgraçado, aparentemente fiel ao culto mariano, em Vila Real transmontana,  apanha  com uma Sua imagem na cabeça e morre? Onde é que estava o tal amor nessa   altura? Eu sei que é tudo uma questão de fé e que esta é um dom de Deus. Porém...”   
Não imagina quanto me inspirou este meu interlocutor, que doravante considerarei um amigo, para  poder reafirmar o  ideário que  desde longa data professo sobre esta matéria. Vou apresenta-lo, em aditamento a um outro  blog  de  17-18/Agosto/15.
         Preso que estava à (má) educação com que  me lavaram o cérebro sobre a intervenção das forças divinas nos fenómenos meteorológicos, na rotação das galáxias, nas catástrofes naturais,  decidi desbravar os antros do  obscurantismo em que me atiraram desde a mais tenra idade. E vi não apenas a luz ao fundo do túnel, mas todo o túnel inundado de luz. Um momento decisivo foi quando tomei conhecimento  dos ignorantes bispos e cardeais da Inquisição Vaticana que condenaram  Galileu Galilei, (1564-1642), pelo “crime” de ter descoberto a teoria heliocêntrica, ou seja, que era a terra que girava em torno do sol e não o sol  à volta da terra, como erroneamente vem escrito no Velho Testamento. Aí toquei o fundo mais fundo da cisterna pútrida em que determinados “ministros” da mentira religiosa trazem encarcerado um Povo  crente e humilde.
Admira-se o meu amigo de que uma pesada imagem da Senhora matasse um pobre homem, em Guimarães, que ali estava ao serviço dela! Então vou dar-lhe outros casos: aquelas duas irmãs de caridade que se dirigiam de automóvel para Fátima, quando um enorme pedregulho salta do camião que ia à sua frente e esmaga-as mortalmente. Ou aquele autocarro que regressava de uma peregrinação, cheio de crentes, cai da Ponte Entre-Rios e afoga mais de 60 pessoas. Estremeci mais tarde quando, no cemitério de Castelo de Paiva, contemplava  a sepultura de várias vítimas que o pároco local me ia explicando. E muitos outros malogrados “mártires” em idênticas circunstâncias podia trazer  à colação.
         Mas não precisamos nós, madeirenses, de ir tão longe para nos confrontarmos com a realidade. Sabem quando é que se deu a maior catástrofe do século XX na Madeira? Em 20 de Fevereiro de 2010. Quem estava, então, de visita solene a esta ilha? A Imagem Peregrina de Fátima. Em vez de bênção, maldição! Não podia ela aguentar a voragem do furacão e poupar dezenas de vítimas mortais? Recordo-me  daquela reportagem televisiva, em que uma esquelética  velhinha, de contas na mão, balbuciava diante do macabro espectáculo de casas e pessoas arrastadas na torrente. “Ai, se não fosse Nossa Senhora estar aqui, a Madeira ia toda  por aí abaixo”!... Sem comentários.
         Mas quem foram os criminosos que incutiram na pobre gente esta relação de causa e efeito entre Alguém que viveu há dois mil anos e os pavorosos acidentes que ocorrem nos nossos dias, uns de ordem atmosférica, outros por manifesta falha humana?
         Eu já vos dou  a resposta com este caso sacrílego. Todos vimos a destruição diluviana ocorrida na freguesia do Monte. Vidas humanas  barbaramente ceifadas, casas devoradas pelas águas, crianças amortalhadas no berço do fatídico lamaçal. Eis senão quando, puro acaso,  aparece quase intacta a imagem da capela das Babosas, esta também destruída  pela aluvião. Acto contínuo, bispo e padre entronizam no altar a estátua, de gesso ou de madeira, e têm a suprema desvergonha de ultrajar a Mãe de Cristo, proclamando: ”Eis o milagre da Virgem, salva da desgraça”!  Oh, meus amigos, oh gente de fé e de razão, quem pode suportar tamanha blasfémia? Qual é a mãe, por mais cruel e desnaturada, que prefere salvar o seu “retrato”  e deixa ir ribeira abaixo filhos seus, crianças inocentes, desvalidas?!...   
         Vou tentar controlar a revolta interior que me levaria a meter um pedregulho daqueles que se desprenderam da montanha e tapar a boca de tais caluniadores sem escrúpulos. Tivesse eu bastante  procuração e sentá-los-ia no banco dos réus pelo crime da mais vil difamação.
Quando é que este Povo abre os olhos? Quando é que sairá do tempo da pedra lascada, do homem das cavernas que até nos relâmpagos via o olhar furibundo dos deuses? Quando… quando… aprende a respirar o ar puro da razão e da verdade?
A um conhecido meu, homem culto mas não crente, perguntei-lhe acerca da Imagem Peregrina e dos fogaréus de velas em certas procissões e respondeu-me: “Para mim, tudo isso não passa de paganismo e crassa idolatria”. E eu confirmo. Quando há anos estive na Cova da Iria, por ocasião do almoço anual do nosso batalhão regressado de Moçambique, abeirei-me das “Procissão do adeus” (era o dia 13 de Maio) e ao observar o mar de lenços brancos a acenar por entre os braços da multidão olhando, electrizada, para a Imagem Peregrina (há treze cópias da mesma imagem correndo mundo) emocionei-me e segredei a quem estava junto de mim: “Se Maria de Nazaré passasse por aqui a pé, trajando humildemente como uma mulher da aldeia, que ela de facto foi,  e aparecesse um anjo a  dizer “esta é que é a verdadeira Mãe de Jesus”, pois tenho a certeza de que ninguém lhe prestaria atenção e todos prefeririam olhar, cantar, acenar  em delírio para o andor da estátua de gesso feita por um homem chamado José Tedim”.  E ainda hoje tenho essa convicção.
Como desiludida e triste não estará Maria de Nazaré perante as ofensas (inconscientes, diga-se) que lhe atiram em rosto?...Sinto-lhe o amargo lamento:  “Esta gente não me conhece. Fazem de mim um objecto de culto vão! Um mercado de compra e venda”!
Ao meu amigo interpelante apenas desabafo: também vivi, durante muito tempo, afundado na cegueira da superstição vestida de devoção. Libertei-me.  Descobri que não devem assacar-se a entidades sobrenaturais aquilo que pertence à fenomenologia da natura ou à incúria dos mortais. Pelo que de Maria historicamente reconheço, gosto dela, mesmo que nunca me faça  “milagre” algum. Por isso eu digo-lhe: “Senhora, perdoai-lhes porque não sabem o que dizem, não sabem o que fazem”.

17.Set.2015
Martins Júnior

    

terça-feira, 15 de setembro de 2015

“COLONIA E VILÕES” --- a película perdida e finalmente achada!


Foi uma daquelas alegrias plenas, desejada e perseguida ao longo de 38 anos na Cinemateca Nacional, mas sempre inalcançada. E eis que me cai nas mãos, incha as órbitas, inunda e pacifica a minha sede de descoberta. Falo do documentário alargado --- “COLONIA E VILÕES” --- rodado na Madeira nos anos 76-77 do século passado, no verão febril e no outono aceso do pós-25 de Abril.   Devo, aliás todos devemos, esta dádiva ao talentoso artista dramático, o madeirense Élvio Camacho e à distinta professora Isabel Cardoso,   que veicularam, através do face, para milhares de “espectadores” de dentro e fora da Madeira, um preciosíssimo testemunho histórico de uma época em que neste arquipélago, “cantinho do céu”,  os incendiários e bombistas do movimento independentista “Flama” gozavam do estranho proteccionismo de salazaristas encapuzados, prontos a tomar o poder e destruir à nascença a libertação oferecida ao Povo pela Revolução dos Cravos. Juntou-se, nesta insaciável fagia,  devoradora sem escrúpulos ---- calculem--- a hierarquia católica diocesana, personificada na figura de um bispo lisboeta, colocado no Funchal em vésperas da vitória da democracia.
O filme tem por protagonistas os caseiros, depreciativamente catalogados de “vilões”,  vítimas até então do leonino contrato da colonia, cuja vida bem se  podia comparar aos servos da gleba de outras eras. São eles que fazem os depoimentos, páginas vivas do seu dia-a-dia, dobrados sobre as terras de um senhorio que as chamou suas desde tempos imemoriais, não só em Machico, mas na Ponta Delgada, São Vicente, Faial,  Ponta do Sol, São Martinho e muitas outras freguesias rurais. Usos e costumes ancestrais, passos de dança campestre, festas religiosas tradicionais,  misturadas aos dramas e dores que os camponeses curtiam, “gemendo e chorando” nos alcantilados do vale de Machico.
Co-protagonista é também, por impressivo contraste, o prelado Francisco Santana, o tal a quem o PSD/M deve toda a paternidade, a partir do momento em que, como já mostrei  noutro lugar, faz a mais profana entrega da direcção do Jornal da diocese àquele que colocaria, depois, no pódio da governação regional para quase 40 anos de repressão. O papel deprimente do bispo no ataque aos cultores da democracia vem sobejamente demonstrado no abuso tremendo que, de mitra e báculo empunhado, contra eles  bradava  desde o altar as mais horrendas calúnias. À minha pessoa, coube a macieza do epíteto de “Judas que tendes entre vós” e, ainda, de autor do “catecismo do ódio”, em referência às lições extraídas da Bíblia sobre Moisés, Isaías, Amós, Jesus Cristo, como libertadores do Povo do seu tempo, lições essas policopiadas a  “stencil” e encadernadas com uma fitinha artesanal sob o título “Deus no meio do seu Povo”.
O valioso documentário abalou os poderes regionais. Não se sabe como, desapareceu por completo. Quantos anos subi e desci  a “Barata Salgueiro”, em Lisboa, a ver se lobrigava alguma luz sobre a ilegível película, da qual, segundo me informavam na Cinemateca Nacional, só possuíam o “negativo”.  Tudo em vão. Por aqui calculam os meus amigos a intraduzível explosão de alegria quando revejo os nomes do realizador Leonel de Brito e do chefe de fotografia Elso Roque. Conheci-o, o Elso,  em 1964-65,  no Porto Santo,  como assistente de imagem do famoso Jean Rabier,  aquando da rodagem da longa metragem  “Ilhas Encantadas”, uma produção luso-francesa dirigida por Calos Villardebó, com a participação de Amália Rodrigues e Pierre Clémenti. Belos tempos!
Voltando ao tema, aconselho e recomendo  o visionamento da película (ela está no Facebook da Ribeira Seca) dado que estamos perante um dicionário vivo de uma época em que os ofendidos e humilhados pelo poder esmagador não tinham a mínima hipótese de defender-se na comunicação social madeirense. E se uma gravura vale mais que mil palavras, este “COLONIA E VILÕES; vale como uma biblioteca.
15,Set.2015

Martins Júnior

domingo, 13 de setembro de 2015

QUANDO A FESTA DÁ SAÚDE E FAZ CRESCER…


Com que hei-de compor este ramalhete da nossa habitual conversação, logo hoje, onde, por ordem inversa, se cruzam princípio e fim daquele espaço temporal a que chamamos semana? Fim de semana e princípio de outra, hora de contrastes, de luz e sombra, de concertos alucinantes e recolhimentos dominicais, de bombásticos arraiais marianos e, por via deles, mortes inauditas,  apoteoses futebolísticas e dramas em carne viva de migrantes sem rumo certo.
Decido-me pela saúde física, mental e cultural, síntese que define o bem estar psicossomático, que é como quem diz, o equilíbrio de corpo e espírito: a permuta de esforços entre  um e outro produz a festa comunitária. E é desta que vos trago as tonalidades sonoras e humanas que caracterizam as nossas festas na Ribeira Seca. Desta vez, os corações dominaram toda a estética da decoração, tanto a interior como a exterior, simbolizando que cada coração, grande ou pequeno, homem ou mulher, criança ou ancião, todos desaguam no mesmo oceano do Amor. Neste caso, do Amor de Mãe, o da Senhora do Amparo.
Em breves gravuras reproduz-se a simbiose de gerações, desde as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos que, no palco aberto, fizeram desfilar páginas vivas da história deste recanto, modesto vale dissolvido no grande abraço que é toda a envolvência da paisagem de Machico, freguesia e cidade,

Reviu-se, em verso, canto e dança pelas crianças de hoje,  a justa reivindicação da década de 80 do século transacto, em que os alunos de então reclamavam “uma escola a tempo inteiro, um serviço de cantina e um parque infantil”. E conseguiram.
A mensagem dos adolescentes não podia ser mais explícita quanto à finalidade última das festas do Povo:

Cantar na Ribeira Seca
É  tradição bem antiga
Faz a terra mais bonita
Faz a gente mais amiga.



Aos jovens coube a missão de despertar a sua geração para a “conquista do nosso lugar”… “Porque o mundo também está na tua mão/ O futuro é nosso/ E é nossa a nação”--- enquanto transportavam o lume novo da fogueira erguida no centro do palco, como no centro da vida.

Homenagem ao Emigrante madeirense que “de longe vem/ Ver de novo a terra-mãe”, “As vindimas” e “As estradas são do Povo”, “porque se o Povo é que paga tudo, é nossa a inauguração” e não dos “troca-tintas”.
Comunico-vos este júbilo indesmentível nos olhos dos intérpretes e  dos espectadores, alguns deles autores de todas as letras da músicas, também estas originais. Sempre se cantou que “Nas festas/ que o Povo organiza/ Há mais alegria e verdade”. E viu-se! Não foram precisos orçamentos milionários, nem artistas de topo nem muito menos estrondosos petardos --- nem um --- para que o Povo se ajuntasse e, unido, se divertisse. Foi uma Festa do Povo, com o Povo e para o Povo.

Momento alto, cativante pela sua candura e brilhantismo, foi  a estreia da Tuna Infantil, fruto da resposta pronta e persistente de filhos e pais, para alcançarem tão estimado quanto pedagógico objectivo.
         Dá prazer todo o investimento continuado de dias e semanas a fio, quando “vimos, ouvimos e lemos”, em caracteres existenciais,   que a aprendizagem e o crescimento sócio-cultural marcam o rumo das festas do Povo.

13.Set.2015

Martins Júnior

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

PASSARÁ O CONFESSIONÁRIO NO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL ?

Antes de lançar a mão à pena --- como diziam os antigos --- perguntei-me num frente-a-frente decisivo: a alguém (ou a quem) interessará o que tenho hoje para contar?  Mas lá vai este desabafo, a um tempo, festivo e comprometedor.
É que estamos em festa, a festa desta comunidade da Ribeira Seca. E como não há festa sem  perdão, também não deverá  haver perdão sem festa. Fizemos hoje mais um  exercício de  propedêutica à nossa festa, através da chamada “Missa do Perdão”, com uma celebração comunitária em que cada qual sabe que não alcançará perdão e absolvição se já não as traz de casa. O perdão dá grande trabalho, amassado dia-a-dia no relacionamento com os nossos companheiros desta  viagem existencial. Ponderámos novas variantes deste instrumento de bem estar social: estarmos de bem uns com os outros.
Desta vez,  desdobrámos a toalha para descortinar lampejos de   Verdade ou parte dela, comparando os arquétipos com que fomos formatados nesta área: O confessionário tem sido um referencial incontornável de gerações e gerações. Para prestar contas. Para ressarcir  perdas e danos. Para absolver ou condenar . Devo confessar que me causa espanto e mofo de riso quando se diz que o confessionário tem sucursal no Além. E que o bispo ou o papa têm especial jurisdição para absolver ou condenar.
Mas que tipo de tribunal será este? Como funcionam as peças processuais, se não há testemunhas, não há  acusação nem defesa, nem sequer o direito ao contraditório?   Por estes fundamentos, seria acaso possível que, na frágil justiça dos tribunais do mundo, o Constitucional por exemplo, houvesse concordância ou sequer aceitação de uma instância judicial com tais características tão aleatórias quanto absurdas?!  Sem provas, sem testemunhas, sem direito ao contraditório. Ora se isto se passa no falido orbe terráqueo, será o Constitucional dos deuses --- o Constitucional da razão e da ética --- de nível inferior  aos tribunais humanos?
A conclusão da nossa “Festa do Perdão” reconduz-se sempre ao mesmo ideário de sempre: só há perdão quando as partes em litígio se encontram, cara-a-cara, para cerzir os rasgões, sarar as lesões, enfim, fazer a contabilidade da nossa vida em relação. Tudo o resto é excedentário, redutor do nosso sentido de responsabilidade individual e social e, daí, hipócrita, tremendamente pernicioso para a educação, sobretudo das crianças e  dos jovens. Basta ler, Mateus, cap.5,  bem como  a corajosa  Carta de Tiago.
         Para não tirar mais tempo à festa, deixo aqui a expressão de um velho sábio da Ribeira Seca,  ancião analfabeto mas possuidor daquela transparente  filosofia inata em todo o  Homem crente, desde o início do mundo até ao seu extremo: “Sabe, padre, o perdão é como o pão que se amassa no nosso forno. Deve vir preparado, cozido e trazido de casa. E só depois,  comido à mesa da igreja”.
Com o perdão conquistado a pulso no tribunal da consciência e depois traduzido em festa, viveremos três dias no abraço de regozijo comum  e saúde física e mental que todos almejamos, como consta do refrão que um dos grupos, o mais jovem, cantará no  palco aberto das Ribeira Seca. Serão bem vindos neste fim de semana. E sempre.

                                      Festa do Povo
                                      É a festa de toda a gente
                                      Que se abraça bem contente
                                      Se vier de bom agrado

11.Set.2015
Martins Júnior



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O IMPOSTOR QUE PEDE ESMOLA E MATA


Não vi o” debate do ano”, por excessiva acumulação de afazeres na preparação da festa da Ribeira Seca, dedicada ao seu Orago, a Senhora do Amparo --- o sobrenome que mais condiz com a Mãe do Cristo.Libertador --- a realizar-se no próximo fim de semana.
Mas não preciso de nenhum travesti com que se  revista o Primeiro Ministro para salivar palavras gastas. Quem  sabe o que bateu e bate sempre nos portugueses, dispensa qualquer debate. Devo dizer que, pessoalmente, sinto um asco intragável pelo requinte viperino de um falsário que maneja o embuste com uma agilidade simiesca, direi mais (e aqui não me engano) finta o irmão, o amigo, o colega, com a mestria do assassino que vai depor uma coroa de flores na tumba da sua vítima.
E é tal a repulsa que não me demoro na tinta e no papel. Não consigo apagar da minha retina aquela resposta pronta, timbrada e virgem, como a dos eunucos da corte, quando na campanha eleitoral de 2011, alguém o questionou sobre se iria cortar nas pensões e aumentar os impostos: “Não, nada disso. Quem lhe disse isso?... foram os socialistas que lhe meteram isso na cabeça. Não senhor, fique descansado”. A peçonha licorosa de uma consciência calçada de pedra-pomes aferiu-se depois pelas medidas tomadas, logo na primeira esquina do pobre transeunte, o Povo português. Tudo ao contrário. E não se diga que foi por causa da troika. Porque com ou sem  troika, era isso que estava na  mente do impostor desde a primeira hora. A prova está no desplante de proclamar, “urbi et orbi” que propositadamente foi além da troika. Destruir o Estado-Nação e o seu constituinte originário, o Povo, eis a cizânia virulenta, desde sempre incrustada  na epiderme seráfica de quem , chegando ao governo, vendeu o corpo produtivo de um Povo e envenenou-lhe o espírito. O instinto genético de passar ao privado o que era de todos acompanha-o até à pedra da morgue, como se tem visto ultimamente. Se  chamar maquiavélico é o mínimo que se lhe pode dizer, pois que foi o autor de “O Príncipe” quem advogou que: o fim justifica os meios.
Mas não vale tudo na vida! Há limites. Menos para as consciências sem consciência, lobos devoradores sob a veste de cordeiros.
E o outro sócio não lhe faz por menos. Acho desprezível, hilariante mesmo, aquele ar herodiano que lhe cresta o nariz adunco, quando pretende relampejar faísca e ribombar trovões de pólvora seca aos jornalistas e interlocutores. O episódio herói cómico do “irrevogável “ diz bem da esperteza  saloia de um e da fraqueza vil do outro. Em nenhum casamento  se viu tão requintada traição. Só para trepar mais um piso.
Não tenho estômago para ouvir gente desse pano cru  que,  parecendo vestir o usuário, despe-o até ao tutano! Aceitem os meus amigos ou  não aceitem,, quero fazer uma declaração de fé, que mais parece uma abjuração fatal.  E é a seguinte: ainda que essa raça mandasse dourar as auto-estradas, ainda que fartasse os famintos à beira da inanição, ainda que oferecesse (digo “oferecesse”, porque lá prometer, promete) o céu e a terra, EU NÃO ACREDITARIA em semelhante espécime. E o que mais me apavora é a memória curta de tanta gente míope que se contenta com um par de botas para abrir, não o  caminho, mas a vereda espedaçada.
Roma, a antiga,  não pagava a traidores. Não sei como, no século XXI, ainda há  quem pague  aos impostores que lhe devoram os dias.
Por isso, sem  seguir o debate de  quem, do alto de São Bento,  bate  e rebate num Povo inseguro,  já o entendo desde 2011. Chega de pantominice!

9,Set,2015

Martins Júnior