sexta-feira, 11 de setembro de 2015

PASSARÁ O CONFESSIONÁRIO NO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL ?

Antes de lançar a mão à pena --- como diziam os antigos --- perguntei-me num frente-a-frente decisivo: a alguém (ou a quem) interessará o que tenho hoje para contar?  Mas lá vai este desabafo, a um tempo, festivo e comprometedor.
É que estamos em festa, a festa desta comunidade da Ribeira Seca. E como não há festa sem  perdão, também não deverá  haver perdão sem festa. Fizemos hoje mais um  exercício de  propedêutica à nossa festa, através da chamada “Missa do Perdão”, com uma celebração comunitária em que cada qual sabe que não alcançará perdão e absolvição se já não as traz de casa. O perdão dá grande trabalho, amassado dia-a-dia no relacionamento com os nossos companheiros desta  viagem existencial. Ponderámos novas variantes deste instrumento de bem estar social: estarmos de bem uns com os outros.
Desta vez,  desdobrámos a toalha para descortinar lampejos de   Verdade ou parte dela, comparando os arquétipos com que fomos formatados nesta área: O confessionário tem sido um referencial incontornável de gerações e gerações. Para prestar contas. Para ressarcir  perdas e danos. Para absolver ou condenar . Devo confessar que me causa espanto e mofo de riso quando se diz que o confessionário tem sucursal no Além. E que o bispo ou o papa têm especial jurisdição para absolver ou condenar.
Mas que tipo de tribunal será este? Como funcionam as peças processuais, se não há testemunhas, não há  acusação nem defesa, nem sequer o direito ao contraditório?   Por estes fundamentos, seria acaso possível que, na frágil justiça dos tribunais do mundo, o Constitucional por exemplo, houvesse concordância ou sequer aceitação de uma instância judicial com tais características tão aleatórias quanto absurdas?!  Sem provas, sem testemunhas, sem direito ao contraditório. Ora se isto se passa no falido orbe terráqueo, será o Constitucional dos deuses --- o Constitucional da razão e da ética --- de nível inferior  aos tribunais humanos?
A conclusão da nossa “Festa do Perdão” reconduz-se sempre ao mesmo ideário de sempre: só há perdão quando as partes em litígio se encontram, cara-a-cara, para cerzir os rasgões, sarar as lesões, enfim, fazer a contabilidade da nossa vida em relação. Tudo o resto é excedentário, redutor do nosso sentido de responsabilidade individual e social e, daí, hipócrita, tremendamente pernicioso para a educação, sobretudo das crianças e  dos jovens. Basta ler, Mateus, cap.5,  bem como  a corajosa  Carta de Tiago.
         Para não tirar mais tempo à festa, deixo aqui a expressão de um velho sábio da Ribeira Seca,  ancião analfabeto mas possuidor daquela transparente  filosofia inata em todo o  Homem crente, desde o início do mundo até ao seu extremo: “Sabe, padre, o perdão é como o pão que se amassa no nosso forno. Deve vir preparado, cozido e trazido de casa. E só depois,  comido à mesa da igreja”.
Com o perdão conquistado a pulso no tribunal da consciência e depois traduzido em festa, viveremos três dias no abraço de regozijo comum  e saúde física e mental que todos almejamos, como consta do refrão que um dos grupos, o mais jovem, cantará no  palco aberto das Ribeira Seca. Serão bem vindos neste fim de semana. E sempre.

                                      Festa do Povo
                                      É a festa de toda a gente
                                      Que se abraça bem contente
                                      Se vier de bom agrado

11.Set.2015
Martins Júnior