terça-feira, 1 de setembro de 2015

"OS COVEIROS-VENDILHÕES DO ALHEIO"

"OS ILEGÍTIMOS HERDEIROS"

OS ENGANADOS E DESERDADOS DE SEMPRE


Ninguém foi ao funeral. Poucos até  deram pela morte dele. Talvez
os analfabetos que o agarravam de manhãzinha, à Rua Fernão de Ornelas,  depois iam ao mercado embrulhar batatas, chicharros, hortaliças. Quanto ao mais, julgo que até houve festa. Vêm-me à lembrança  os versos de Gomes Leal, dedicados à “Senhora Duquesa de Brabante”, aquando da morte do filho disforme,  pelos de fera, uivos de animal, fruto dos amores entre ela e Satã, vestido de uma armadura feita de um  brilhante:


Ora, o monstro morreu. Pelas arcadas
Do palácio retinem festas, hinos,
Riem nobres, vilões, pelas estradas,
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos.


Riem-se os monges pelo claustro antigo,
Riem vilões trigueiros das charruas,
Riem-se os padres junto ao seu jazigo,
Riem-se os nobres e peões nas ruas.


Morreu ontem o “JORNAL DA MADEIRA”. Já ninguém mais se apoquenta com ele, nem a madrasta diocese, nem o padrasto João, nem os escrevinhadores-roedores autómatos (agora postos em fuga) nem sequer os deputados no parlamento… Acabou-se a relação incestuosa governo-igreja, acabaram-se  os filhotes distribuídos de graça e aos montões, finaram-se as participações de mortos, a pataco. Enfim, um arraial!


Só chora o monstro, em alto choro, a mãe…


Poesia ou ironia à parte, o caso não pode passar incólume. Há que chamar ao banco dos réus da consciência colectiva os “assassinos” de um filho dilecto da Igreja  madeirense, esses mesmos que o transformaram num monstro, irmão dos cerdos e dos ursos/ Aborto e horror da brava natureza.  


Serão sem conta as contas a fazer quando se proceder à exumação do cadáver. A história terá de registá-las, desde os autos-de-fé e condenação na praça pública de madeirenses honestos até ao sorvedouro das finanças regionais, pagas pelos pobres contribuintes.  Por hoje, fixar-me-ei exclusivamente no processo contorcionista da total deformação identitária do Jornal da diocese para órgão de  partido político.
Sigamos a trajectória resumida dos factos. Eu lembro-me, era a década de 50 do século XX, das grandes campanhas que a Igreja fazia em prol da Boa Imprensa, peditórios nas igrejas,  ofertas de  produtos agrícolas recolhidas por grandes camiões que percorriam a ilha inteira  Lembro-me das afervorados apelos da Diocese para suportar o seu Jornal.   Lembro-me, ainda, do período ambíguo em que à frente do Jornal esteve o prof. Basto Machado, comissário  da “Mocidade Portuguesa”,   do Estado Novo. Mas logo depois, a Diocese inflectiu o rumo e posicionou-se  energicamente como líder do seu órgão de informação:  entregou a direcção do Jornal e a chefia da redacção a uma plêiade de  sacerdotes de prestígio intelectual e moral, tais como Agostinho Gomes, Jardim Gonçalves, Maurílio de Gouveia, Paquete de Oliveira, Abel Augusto da Silva. Foi preciso chegar ao “25 de Abril”  para que um bispo lisboeta, colaboracionista confesso  do regime deposto, cometesse o criminoso, porque injustificado, acto de escorraçar da direcção do Jornal o Pe .Dr. Abel Augusto da Silva e lá colocar um imberbe e medíocre recém-finalista de Direito, mentor e assíduo colunista do  semanário “Voz da Madeira”, órgão oficial da União Nacional, o partido único da era fascista. Aí, começou a putrefacção do jornal católico para transformar-se em panfleto partidário, “bunker” do PSD e paiol do armamento político que levou o tendencioso, para não dizer, mafioso director até ao palácio da Quinta Vigia, onde permaneceu durante quase 40 anos.
Depois, “de grão em grão enche o papo o papão,  um outro bispo sem coluna vertebral nem o mínimo sentido de Igreja, o madeirense Teodoro Faria, entrega-se e entrega quase a total propriedade do Jornal ao governo, a pretexto de dívidas à Segurança Social. Foi o “xequemate"  não só ao Jornal mas à própria diocese. O mais grave, porém, e cúmulo da hipocrisia eclesiástica foi permitir a ridícula farsa de aceitar a pseudo-orientação editorial e a nomeação do director que mais não era senão uma “marionette” nas mãos do governo. Foi nessa folha híbrida, incestuosa, que o bispo publicou a, de má memória,  Nota Pastoral em que comparava a Jesus Cristo Crucificado o secretário particular, o jovem brasileiro Padre Frederico, pederasta, condenado a 17 anos de prisão e, mais tarde, misteriosamente, foragido da cadeia de Vale de Judeus. Era para barbaridades destas que servia o chamado órgão diocesano, Jornal da Madeira.
Neste fétido pantanal cai o terceiro bispo “de Abril”, o algarvio António Carrilho,  e --- o que mais repugna --- é o  ter-se sentido ali bem instalado,  sem o mínimo de verticalidade, pudor ou  fidelidade à matriz  originária da Igreja,  acomodou-se, inerte --- a troco de 10, 11 e 12 fotografias suas nas edições domingueiras --- sem ao menos ter a coragem de romper com essa maquiavélica aliança  siamesa. Até que, a partir da semana passada, foi ela mesma, a Igreja,   vítima de uma excisão forçada e, por tal, humilhante.
Tenho --- e muitos outros têm --- “coisas”  de contar e pasmar sobre o que significaram 40 anos de coabitação, direi mais, subjugação  do episcopado madeirense à governação política regional e de que o Jornal é dos mais cruéis libelos  acusatórios. Mas o que revolta, acima de tudo,  é o silêncio cúmplice, cobarde, dos católicos, a começar pelo clero, padres, freiras, cónegos, “cursistas da cristandade”, Acção Católica, docentes de religião e moral. Todos se encolheram, todos se calaram, afora raras e honrosas excepções nas quais me incluo, como brevemente terei oportunidade de contar.
Por isso, acho que ainda vai no adro  o enterro  do monstro, “filho do pacto amoroso entre Satã e a  Senhora Duquesa de Brabante”,  diria Gomes Leal. Levantem-se as testemunhas e chamem ao banco os responsáveis ainda vivos, porque os outros muitas voltas e muita cinza  já terão levantado no pó da sepultura!
Judas vendeu o Nazareno por trinta moedas. Os três bispos do Abril ilhéu venderam o seu espólio a custo zero. O grande Bispo de Hipona, Santo Agostinho,  definiu a Igreja como “casta meretrix”. Se ele hoje viesse à Madeira teria rasurado o qualitativo “casta”  e substituído por outro desqualificativo. Todos somos culpados!


1.Set.2015
Martins Júnior
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Temos agora a versão sincopada, envergonhada, assolapada, JM. Não me pronuncio sem ver. Até saúdo, só por isto: agora é que vamos ver a independência dos matutinos, até agora, rivais.  Porque, daquilo que conheço, há tanto de “independente” como de “irrevogável” tinha o andarilho das feiras Vai ser bonito de ver. Atenção aos próximos episódios.