terça-feira, 29 de setembro de 2015

“SE VOTAREM NO MESMO, DEIXO DE SER PORTUGÊS E PEÇO PARA SER CHINÊS”----------- Será o 4 de Outubro um novo 29 de Setembro?



Ecoam nos meus ouvidos as emoções sonoras do 29 de Setembro de 2013, tão vívidas e tão imensas que começaram na Madeira e abraçaram o Porto Santo. Foi o derrube do muro da vergonha que cercava o Povo desta terra dominada pelo poder esmagador da maioria laranja ferreamente vigiada pela alta torre dos 11 castelos disseminados  por toda a Região --- as 11 Câmaras Municipais. Foram sete  --- número perfeito! --- as fortalezas que fizeram capitular a muralha monolítica  construída ao longo de quase quarenta anos. Parabéns aos lutadores representados nos seus autarcas, aos quais repito o que então disse e escrevi, ao ritmo da canção de Sérgio Godinho: “Hoje é o primeiro dia do resto do vosso mandato”.
         Congratulo-me e disso dou testemunho aberto, enquanto cidadão de corpo inteiro e alma atenta --- e com o  redobrado dever de o cumprir. Aqui, o cumprir tem toda a força semântica de alertar. E agir em conformidade.
Tomo como ponto de partida o  que, hoje mesmo, ouvi de alguém, após  comentar o último “blog” sobre a inteligente e estratégica concentração de vontades (leia-se, unificação de votos) para castigar o “inimigo” comum. E desatou com este desabafo, vindo do mais fundo da sua revolta:” Se os mesmos ganharem as eleições, renuncio à minha nacionalidade e peço  para ser chinês” . E lá foi descrevendo as malfeitorias desta governação que, houvesse ou não houvesse troika, executaria  o mesmo programa, com a mesma frieza com que Victor Gaspar prenunciava o “enorme” sacrifício dos portugueses ou com a mesma indiferença com que Passos Coelho proclamava “temos de empobrecer” e abria aos jovens a porta de saída do seu país, empurrando-os “para a boa oportunidade de emigrar”. Mais desabafava, incontido, o meu amigo: “Aqueles jovens, que a coligação amarra atrás de si nos comícios, pensarão eles nos 500.000 emigrantes, a maior parte deles da sua idade, que foram ‘expulsos’ de Portugal por este governo?” Coincidência ou descuido, por parte do jornalista  de serviço, fomos informados que eram sempre os mesmo que a coligação deslocava para toda a campanha.
O certo é que estamos na encruzilhada de dois mares: passar do Cabo das Tormentas para o Cabo da Boa Esperança. E aqui não há lugar para a dispersão das tripulações nem para derivas de bússola, que contentam o egocentrismo das suas claques mas nunca chegam a terra, nunca alcançarão a meta do poder. Há tempo de protestar e há tempo de reunir. Há tempo de sonhar e há tempo de cair na real. Há tempo de partir pedra e há tempo de construir.  Neste momento a hora é de reunir e não de dispersar. De agir e não de delirar. De levantar a casa e não de espalhar cascalho. Isto,  se decididamente  queremos apear quem cumpriu sadicamente a acusação que assacara ao governo anterior: “Pôr-nos a pão e água”!
Carlos do Carmo deu-nos ontem uma lição magistral, ao denunciar as  agressivas pedradas de todos os quadrantes políticos contra António Costa. “Não me lembro, em nenhuma campanha eleitoral, de um ataque tão violento a um candidato, fazendo dele “um saco de pancadas”.  No mesmo sentido, Rui Tavares do “Livre”.
Pela minha parte, limito-me a constatar e lamentar o monopolismo congénito de certos partidos, como se fossem  a única “candidatura patriótica”. Ou como se os trabalhadores e os explorados fossem um feudo, uma sua exclusiva coutada política, fazendo deles desgraçados pintainhos  debaixo das asas do único galo tutor e  protector, só porque se metem, vistosamente, esses partidos nas manif´s, retirando (a meu ver) a autenticidade e o protagonismo dos  promotores de base.  Bastou o PS  assumir, no seu programa  eleitoral,  posições iniludíveis contra o corte das pensões ou dos salários, para virem logo certos partidos empertigar-se: “Não toquem nisso. Advogado dos trabalhadores só um, o meu partido e mais nenhum”. É caso, no mínimo, para inverter o humor do Ricardo Araújo Pereira: Não é bonito, mas”… o que é  preciso é fazer tudo para que o PS não chegue lá, melhor ficar a coligação.  E é com muita mágoa, creiam,  que  redijo este parágrafo, mas factos são factos. E contra eles não há argumentos. E quando acima do supremo interesse dos portugueses se antepõe o supersticioso interesse do partido, nada feito!
De hoje  até domingo, é a hora da solene convocatória de subir ao alto da montanha, visualizar a paisagem global deste país e, sem que ninguém  perca a identidade da sua formação partidária, dispensarmo-nos de provocar eclipses inúteis que deixarão tudo na mesma “ austera, apagada e vil tristeza.”, como já se lamentava Camões ( Lus.X, 145) e  Fernando Pessoa deplorava o “Nevoeiro” da sua e nossa pátria.
Termino com o entusiasmo com que comecei: Será que, em 4 de Outubro, repetirá o Povo madeirense, repetirão os portugueses a retumbante vitória do 29 de Setembro de 2013?  Mesmo que fosse  contra toda a esperança, espero dar os parabéns  a um Povo “nobre” de clarividência, “nação valente” que não perde de vista o alvo da sua luta.

29.Set.2015
Martins Júnior