terça-feira, 27 de outubro de 2015

AS DORES DO PARTO DESTE PAÍS…

       

                                                                                                                                                                                                                                                                  Está chegando a hora da graça de 2015, em cujo seio Portugal dará à luz     o  ocupante de um novo trono. O parteiro, pelo que se tem visto, é o velho ocupante de     Belém, pois que só será “rei” quem ele quiser. Ainda que seja um nado-morto, tal como já o provaram as mais recentes ecografias políticas, será esse, o nado-morto, que Cavaco Silva pretende entronizar em São Bento. Dispenso-me de repetir as, de todos os quadrantes,  ásperas censuras ao seu discurso para o qual, ao que parece, o senhor terá tomado um reforçado estimulante gutural afim de  disfarçar o falsete mal digerido, carregado de ameaças sepulcrais.
         O que, porém, mais nos emociona e enternece é a romagem de afectos ao santuário do Rato, os pedidos de conversão, as promessas de assentos na bancada governamental, logo de entrada a armadilhada  cadeira do “Irrevogável”, enfim, uma algaraviada colorida, desde o afã do “pater-famílias” de Boliqueime até à sedução feminina das Teresas, a cristianíssima Caeiro e a democratíssima Leal Coelho. São tais as juras desta gente que até me cheiram a assédio, senão mesmo a suborno e, no limite, a esturro. “É a política, estúpido”, dir-me-ão os sabidos comentadores.  Eu sei, mas não havia necessidade de se exporem tanto nas rotundas  da cidade comunicacional.
         Não me preocupam estas negaças minadas, porque os deputados são um povo adulto que representa outro Povo Maior. Não se compram nem se vendem nem querem  provar sequer o “queijo limiano” lá das bandas da coligação. O que seriamente ainda me estremece é o eventual excesso de zelo dos  três partidos portadores da expectativa nacional.
Seria útil proceder à anatomia política de cada partido para fundamentar a minha preocupação. Muito rapidamente, em duas vertentes. A primeira tem a ver com o ADN (os angariadores coligados chamam “idiossincrasia”)  das formações partidárias. Cada partido tem a sua árvore genealógica, as suas raízes históricas, ideo-programáticas, que fornecem a seiva ao tronco, aos ramos, aos frutos, o que só por isso merecem o maior respeito e consideração. O pior é quando a árvore original, a pretexto de consolidar-se, se padroniza, se petrifica até transformar-se em monumento de bronze maciço, puro e duro, ídolo de culto cego, mas sem alma lá dentro. É aí que a forma absorve o fundo, o império rigorista faz do militante um vassalo submisso ao suserano. E é aí também que a inflexível pureza ideológica cai no labirinto do obscurantismo seguidista. Quando assim acontece, tais partidos não evoluem, antes pelo contrário, cristalizam e tornam-se em meros partidos de manutenção, até nas votações obtidas. A um amigo meu, militante activo, dizia eu, um dia destes: ”Parece-me que a vossa organização se assemelha à velha cúria vaticana, com os mesmos cardeais inflexíveis e puritanos, lançando anátemas sobre os clérigos desalinhados do dogmatismo romano”. Ele até achou graça e, com um sorriso, sublinhou tacitamente os meus dizeres. Não queria prolongar este exercício de anatomia partidária, justamente porque estamos em hora de unir e não de perorar.
A segunda vertente consiste na estruturação orgânica da empresa, chamada partido. Não se pense que a organização partidária é só ideia, pesquisa de propostas parlamentares, luta social. É também empresa, com hierarquias, administração, funcionalismo e demais encargos ou até merecidas benesses  colaterais. Eu só queria saber,  nessas arruadas gigantes da coligação,  quantos braços erguidos têm a outra mão na mesa do orçamento estatal! Sempre foi assim. Impressionou-me vivamente a citação de um texto escrito em 1915 pela pintora modernista  Sónia Delaunay, refugiada das guerras europeias, em Vila do Conde:  “Os políticos não estão a actuar, olham apenas para os seus próprios interesses. Os esfomeados, um dia, também se revoltam”.  Há 100 anos!!!  Ela referia-se aos regimes totalitários de onde fugira. Mas, mutatis mutandis, os partidos democraticamente estatuídos,  se lhes faltar  permanente vigilância, não estão imunes a tais tentações.
Feita esta incursão breve ao interior dos partidos e perante a gestação de uma outra  alvorada em Portugal, o meu maior desejo era fazer chegar aos partidos da esquerda portuguesa o clamor de quem espera ver nascer uma Nova Ordem Europeia, a começar por este país do extremo sul do Velho Continente:
Esta é a hora! A Nossa! A hora de provar que governar Portugal não é monopólio da Direita nem das suas sofisticadas coligações. É chegado um Tempo Novo em que a Esquerda Unida toma as rédeas do poder em prol de um Povo que avidamente suspira por Ela. Soa aos nossos ouvidos na amplidão atlântica, continente e ilhas,  o clarim  vibrante de ganhar esta  guerra. Não estamos condenados sempre  às derrotas, por divisões internas, como também não queremos vitórias morais, parcelares. Queremos a Vitória inteira. Tal como na guerra não se limpam armas, também nesta aliança “Povo-Forças de Esquerda” esqueçamos interesses e pruridos ideológicos de circunstância para içarmos na torre mais alta de Portugal a bandeira  verde-rubra  empunhada pelos braços daqueles  que sempre deram  corpo e alma por uma verdadeira “Nação Valente e Imortal” ao serviço da grei, ao serviço do Povo que lhes outorgou o poder para derrubar quem defraudou os nossos melhores sonhos de viver condignamente.
Ao menos, por quatro anos, vamos reabrir “as portas que Abril abriu”!

27.Out.15

Martins Júnior