sexta-feira, 23 de outubro de 2015

DESCUBRA AS DIFERENÇAS --- Cenas que não gostaria de tornar a ver…


São torrenciais as bombadas  de tinta crítica  e fizeram-se intermitentes os relâmpagos de jornais, folhetos e folhetins televisivos sobre indigitações políticas e tomadas de posse, ainda mais intensos  do que a meteorologia  tem  provocado nestes últimos dias. Pelo que, hoje  vou “arrecolher-me” da chuva  e reservar para outro dia os efeitos que tal barafunda  em mim tem causado.
Nada melhor que a alienação dos estádios de futebol para nos  desviar dos sérios pesos pesados que nos deitam à frente dos olhos. É, outra vez,  do espectáculo rectangular que me vou ocupar, sabendo que não recolherei a simpatia de todos os meus amigos. Serei mais breve que habitualmente porque o trabalho a desenvolver  deixo nas vossas mãos. Quais as diferenças?
Dou já o mote, manifestando abertamente o horror que estes dois cenários me provocam:  primeiro,  o dessa  multidão desesperada e faminta que foge à guerra e procura  um abrigo, seja num campo de refugiados, num armazém, num estádio. O segundo cenário é o da entrada e da saída das claques esfomeadas de cio bélico, antes e depois dos “derbies”. A minha repulsa advém de um pormenor visual que logo os identifica: um pelotão de polícias sofisticadamente apetrechados que se distribuem por todo o perímetro dos caminhantes,  formando na vanguarda um paredão que, à falta de melhor, classifico de muro cinzento da vergonha. Esta é  a semelhança.

E as diferenças?...  São evidentes os contrastes entre os que chegam --- sofridos, cabisbaixos,  carregados de sacos e farrapos, os únicos bens que lhes restam --- e os que avançam para a arena aos gritos, olhos em fúria, munidos, quantas vezes, de “material de guerra” pronto a disparar, como  recentemente aconteceu. Uns  procuram  a paz, outros a guerra. Aqueles só querem uma mão amiga que os sossegue do medo; estes atiçam os braços incendiários para desassossego da multidão. Aqueles abominam as balas assassinas;  estes transformam o esférico de couro em arma de arremesso.
Preferia não  ver o exército armado encabeçando os tristes refugiados., embora se justifique para assegurar  um bem maior, a protecção. Mas, sem dúvida, mais repugnante se me afigura esse paredão fardado à frente de centenas, milhares de jovens, por esses estádios fora, temendo-se o pior de um fenómeno destinado à festa, à alegria competitiva, enfim, ao bem estar cívico e psíquico dos seus espectadores.  E de quanta  lavagem de cérebro e de não menos corrupção são vítimas esses jovens das claques,  puxados  a cordel  por  quem se esconde na sombra de uma secreta  inimputabilidade!
Debrucei-me hoje sobre matéria, para mim, tão rasteira, precisamente porque sigo o pensamento atribuído a Aristóteles: “Nada do que é humano me é estranho”. E por aqui me fico para não incomodar  quem se rege por outros critérios. É nesta alucinação colectiva que somos arrastados pelos noticiários e tempos de antena que massacram até à exaustão em todos os canais e que conduzem a escândalos financeiros e assimetrias sociais inaceitáveis,  como a que hoje trazem os jornais:  “O jogador Xis  ganha 17 milhões/ano”. Assim fizemos o mundo.    
            Domingo próximo, espero não ver cenas destas que aproximam os seus actores às hordas de assaltantes gulosos de guerrilha.
            Ficam para a próxima outros assaltos, as tais investidas políticas que ameaçam perpetuar em arenas os “forum’s” da ciência e da arte da verdadeira cidadania. “Porque nada do que é humano me é estranho”.
                       
23.Out.15

Martins Júnior