segunda-feira, 19 de outubro de 2015

DOIS ANDAMENTOS PARA OUTUBRO EM MACHICO ---- APOTEOSE E PROTESTO



Hoje fico em casa, não pelo frio e pela chuva que enchem o vale, mas bem ao contrário, pelo calor anímico com que Outubro continua a  envolver as gentes de Machico. Refiro-me às iniciativas histórico-culturais que neste pico do outono vestiram a paisagem física e humana desta cidade, com destaque  para a “as artes dos deuses e dos homens” --- a música e o teatro. Todos os fins de semana têm-nos brindado com produções de representação regional, nacional e internacional, sempre com casa cheia.
  Anteontem, o palco do Forum ofereceu-nos uma síntese da heteronímia de Fernando Pessoa, a partir da “Ode Triunfal”,  intensamente vivida pelo grupo AMOTEATRO e de tal forma que, não obstante a concêntrica densidade pessoana, manteve o auditório numa consonância premente, total,  com os três intérpretes em cena. (Entre parêntesis, foi pena ter coincidido com o mesmo horário do concerto de órgão na igreja matriz).
Ontem, o encerramento da programação do Dia do Concelho saldou-se num memorável concerto, em que a simbiose do canto e dos metais  “abalou” de emoção todos quantos ali se encontraram. Falo do duplo álbum  que se abriu diante dos nossos olhos: o Grupo Coral de Machico e  a Banda Municipal de Machico. O primeiro, dirigido pelo maestro Nélio Martins, primou pelo exímio culto da afinação de vozes e pela versatilidade programática, desde Lopes Graça, Zeca Afonso, folclore local e nacional, terminando com o soneto de Francisco Álvares de Nóbrega dedicado “À Pátria do Autor” (Machico) com música do autor destas linhas e harmonização superiormente  criativa do maestro.  O segundo, protagonizado pela Banda Municipal de Machico transformou aquelas paredes em reflexos sonoros de uma apoteose arrebatadora, transportando-nos até aos confins do “Oregon” e à solene magnitude dos palácios reais com a magnífica interpretação do famoso “God Save The Queen”. O final foi uma enorme cascata de luz e som, juntando em delta as duas inspiradoras torrentes, o Coral e a Banda.
Faço, agora, eco do segundo andamento desta partitura. Após os merecidos aplausos e a irradiante  intercomunicabilidade entre espectadores e actores no final de festa, comentava-se: “Mas como é possível uma Banda como esta, a nossa Banda, ficar marginalizada o ano inteiro,  proscrita de todas as  efemérides programadas, a nível religioso, no centro de Machico”?
Reservo um parágrafo para informar  quem não saiba que já lá vão  três anos consecutivos que a centenária banda de Machico, fundada em 1896, convidada de honra para a saudação ao rei D. Carlos I à Madeira, em 15 de julho de 1899 --- a nossa banda, de tantos e nobres pergaminhos,  está proibida de actuar nas festas religiosas da jurisdição da igreja matriz da cidade de Machico!!!
Birras mesquinhas de âmbito estritamente  pessoal levaram o responsável eclesiástico a provocar semelhante escândalo, ostensivamente manifesto diante de toda a população: no adro e nas procissões vemos desfilar bandas estranhas e  a centenária banda de Machico exilada na sua própria terra. À primeira vista, poderia interpretar-se o caso como uma insignificante  questiúncula paroquial. Mas não. Configura uma anacrónica ordem de exclusão, acintosa e vingativa, imprópria de qualquer sociedade civilizada, muito menos de uma agremiação religiosa! Constituiu um espectáculo insustentável, humilhante para todos nós, ter  visto há dois anos, no cortejo processional, os nossos músicos correctamente uniformizados desfilando, em silêncio,  atrás de uma outra banda convidada com o único objectivo de enxovalhar os nossos!
Como natural e residente em Machico, que em 77 anos de vida nunca testemunhou semelhante  ditadura inquisitorial,  não me contive que não escrevesse ao senhor bispo António José Cavaco Carrilho. Por não ter recebido qualquer resposta, confrontei-o pessoalmente no encerramento de uma Semana Bíblica em Santa Clara: “Então leu a minha carta?”…”Mas é essa mania que as pessoas têm  que o bispo tem de responder por tudo”. “Mas o senhor é que é o responsável pela diocese e, consequentemente, por este escândalo”.  Palavras perdidas. Até hoje!
Fosse o presidente do município, fosse o presidente do governo regional, fosse o Primeiro Ministro que se atrevessem a “condenar” assim publicamente uma associação local, Escola de Artes e Civismo,  prestadora dos mais nobres serviços há mais de cem anos --- e isto já estaria completamente sanado e resolvido pelo protesto da população!... Os homens da Igreja estarão nos altares a pedir preces ao povo para que Israel se entenda com a Palestina, para  que o Estado Islâmico acabe a guerra contra os cristãos sírios de El-Assad, se calhar estarão a rezar para que António Costa se una a Passos  Coelho para um governo estável --- e não dão um passo  para reconciliar a igreja com os seus próprios paroquianos,  não mexem um dedo para unir a Casa de Deus com a “divina arte” nascida no seu  próprio seio. Sórdida hipocrisia! Até quando vai suportá-la Machico?
Aos meus amigos que nada têm a ver com esta mísera situação, as minhas desculpas pelo incómodo. Limito-me a repetir a canção apelativa: “Vimos, ouvimos e lemos, Não podemos ignorar”! Foi por isso que hoje deixei-me ficar por este vale, cheio risco e de beleza.
Para fechar estas linhas --- que não o problema em causa --- saúdo as restantes paróquias de Machico que abraçam festivamente a Banda Municipal e rememoro o pensamento de alguns teólogos: a Igreja institucional  é,  paradoxalmente,  uma  organização  anti-democrática. Aqui e agora. Esta hierarquia, autocrática e exclusiva,  está nos antípodas da Ideia e da Acção do Papa Francisco, o pregoeiro da reconciliação, o incansável apóstolo da Inclusão!
 Para conforto meu e de milhares de conterrâneos, esperamos ver o “Dia de Natal” da Igreja em que a nossa Banda rompa os muros  da   velha Inquisição  local e renasça  nas praças e nas ruas, repondo o pleno musical, belo e triunfal, em todo o vale de Machico.
Que o Protesto se transforme em  Apoteose!

19.Out.15
Martins Júnior