domingo, 25 de outubro de 2015

ENTRE MADEIRA E SETÚBAL : SAUDAÇÃO E ABRAÇO


Na diversificada oferta dos hipermercados noticiosos deste fim-de-semana, abasteci-me mui particularmente  num cabaz que nos toca a todos, ilhéus, sobretudo porque dentro dele  encontro aquela simbiose tão rara, qual seja a de juntar a insularidade à universalidade. Mais concretamente, tocou-me o acontecimento ocorrido hoje em Setúbal em que um homem da ilha, mantendo-se fiel à ruralidade pura dos nossos campos e das suas gentes, faz esta apelativa declaração de princípios:  “O madeirense não é uma pessoa isolada, a pequenez da Madeira não é limitativa, pelo contrário, abre-se à grandeza do mundo…. Gosto imenso da minha ilha, mas não me fecho ao tempo em que vivo, porque Deus é maior que tudo isso”.
Está dado o mote para a homenagem que a comunidade da Ribeira Seca prestou a um nosso conterrâneo do concelho de Machico, nas três celebrações eucarísticas deste domingo.
Entretanto, não esqueço que esta entrada na diocese de Setúbal coincide com dois outros factos similares: o solene encerramento do Sínodo dos bispos em Roma e, proximamente entre nós,, a  entrada em funções  dos dignitários políticos de Portugal. Aproximei estes dois eventos para dizer que assim como na tomada de posse destes últimos não será curial a Igreja marcar presença canónica, assim também não me seduz, na catedral sadina, a ostensiva presença de mandatários políticos. Que o fizessem a título pessoal, a um nosso compatriota, muito bem. Mas a título oficial,  em nada vem valorizar (bem pelo contrário) uma cerimónia que, pelo seu sentido definidor, quere-se-a marcada por uma expressão de júbilo evangélico, despida portanto das lantejoulas protocolares das ribaltas mundanas.  É uma opinião, tão livre e discutível quanto o seu oposto.
Prefiro, pois, juntar a  investidura episcopal deste domingo à magna reunião de trabalho sobre a Família, mais expressamente, o Sínodo dos 270 bispos em Roma. Esta minha preferência tem a ver com a actual conjuntura dogmático-pastoral que (felizmente, enfim!) a Igreja atravessa, algo de novo nesta sociedade milenária, pois que há debate de ideias, há sensibilidades distintas sobre uma mesma causa, procura-se o humanismo “versus” legalismo, promove-se a pedagogia dos povos em vez do  anquilosado magistério desencarnado da História que nos cabe escrever e construir.    Mais se acentua  esta paridade entre os dois acontecimentos, sendo publicamente conhecidas as duas frentes de luta pela redescoberta da Verdade: de um lado,  bispos e cardeais identificados com a nova mundividência crística de Francisco Papa e, do lado oposto, cardeais e bispos ferreamente opositores. Quanto aos bispos portugueses, são tímidas e escassas as pègadas do Pontífice das periferias e da inclusão. Na Madeira, tivemos, como residentes,  bispos da esperança e do sorriso, mas morrem por aí, nas praias do sorriso e da esperança, quando não da opacidade e das alianças pouco recomendáveis.
A este propósito, cito o jornalista vaticanista André Paul, na edição de Le Monde  deste domingo: “A vontade do Papa de criar as linhas verticais de uma Palavra situada entre o alto magistério e os cristãos de base não faz dele um  progressista, mas sim  um “expert en humanité” (um especialista conhecedor da humanidade),  próximo dos homens e dos seus problemas”.
Onde pretendo chegar com estes considerandos aparentemente desconexos em relação à Saudação ao novo bispo José Ornelas da Carvalho?  Já o digo. É que a sua nomeação para uma cidade problemática como Setúbal, com as condicionantes de outrora (aquando do bispo Manuel Martins, a quem os exploradores do povo chamavam de “bispo vermelho e comunista”) e os problemas de hoje,  pois a escolha de um homem, conhecedor de outras paragens do interior de Angola, fiel à terra, sensível à condição humana, faz-me prever nele um aliado firme do Papa Francisco nesta alvorada de uma genuína evangelização.  E vou prová-lo, transcrevendo  um excerto da sua conferência, do melhor que ouvi no Congresso dos 500 anos da diocese do Funchal, em Setembro de 2014. Chamo a atenção para o facto de, na altura, ainda não estar sequer anunciada  a encíclica Laudato Si que o Papa Francisco iria publicar, sobre a ecologia. É de pôr-nos em sentido … e marchar, marchar!
“Uma ilha é um espaço onde fazem falta a criatividade responsável, a liberdade concertada e a coragem de crer e de sonhar… Uma ilha aberta ao mundo tem necessidade da ecologia evangélica que assomou diversas vezes aos nossos diálogos:
·        Uma ecologia da terra, do apreço pelo dom precioso que nos foi dado para usufruir, mas igualmente para guardar e cuidar;
·        Uma ecologia humana que foge à tentação da monocultura do pensamento único, privilegiando a diversidade de linguagens, de soluções e de culturas;
·        Uma ecologia eclesial que se propõe  sempre como serviço e não dominação, casa aberta ao mundo e à sociedade, expressão do coração misericordioso e universal de Deus. É importante alimentar assim o coração das pessoas, para dar coração ao mundo novo que está nascendo.”
O Papa Francisco não teria dito melhor. 
É esta a melhor Saudação que posso endereçar ao novo bispo da cidade do grande sonetista Manuel Maria Barbosa du Bocage, companheiro de cela do nosso Francisco Álvares de Nóbrega na cadeia do Limoeiro, por defender os ideais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Que a geminação histórico-literária, realizada em 30 de Maio de 2007 entre Machico e Setúbal, nas comemorações do bicentenário dos “gémeos-poetas”  proporcione ao novo líder espiritual de Setúbal mais um suplemento de inspiração para a ingente tarefa que o espera. E que o Atlântico que nos separa faça chegar a esta ilha reflexos cintilantes da sua mensagem renovadora.

      25.Out.15
      Martins Júnior