quinta-feira, 1 de outubro de 2015

NÃO VALE TUDO EM POLÍTICA --- NEM “A MÃOZINHA DE DEUS”


Foi com um uma pitada de humor que ouvi o comentário do jornalista de serviço à campanha da coligação --- “Passos Coelho conta agora com a ajuda divina” --- e que o interiorizara ao emocionar-se com aquela velhinha que lhe confidenciava “Vai ganhar, com a ajuda de Deus Nosso Senhor”.
         Era o último tiro de uma campanha feita à flor da pele, sem programa definido, e ao compasso daquilo que o principal concorrente ia esclarecendo sobre um compromisso assumido e contabilizado  no  programa  do seu partido,  previamente anunciado e debatido. Chamar entidades extra-terrestres  para uma disputa entre mortais, não sendo honesto,  passa as raias do ridículo. Deus não se mete nas lutas dos homens.
         No entanto, o episódio traz à colação uma realidade que, mais aberta ou mais sub-repticiamente, entra nesta “faena” cíclica: a Igreja. Acontece sobretudo nos meios rurais, de fraco aprofundamento cultural. E não são precisas sondagens para saber-se quanto a influência religiosa, por acção ou omissão, determina a direcção das vontades, exactamente  no acto de votar. E surge a pergunta: Deverá ou não a Igreja intrometer-se nestas batalhas campais, ser-lhe-á curial terçar  armas --- tomar partido --- a favor ou contra um dos dois ou mais contendedores? Para uma vaga comum de analistas, a resposta será não. Portanto, a Igreja ou os seus membros não devem pronunciar-se sobre opções de governação. É a linha da omissão. Outros há que advogam o seu contrário, argumentando com uma questão mais simplista: se os sindicatos e patrões, banqueiros e proletários,   intelectuais e operários entram nisto, por que não há-de a Igreja e seus acólitos usarem  do mesmo direito? Vai neste segundo sentido, a atitude corajosa do bispo emérito das Forças Armadas, Januário Torgal Ferreira, em recente e patriótica entrevista a um jornal diário.
Mas há quem discorde. Em que ficamos, então?
O assunto é tão vasto, levar-nos-ia tão longe, mas permita-se-me sintetizar uma saída deste intrincado labirinto de catacumbas sem fim. Primeiro que tudo, interroguemo-nos: de que Igreja estamos a falar? Da Instituição milenar, neste caso, vaticana --- ou de outra Igreja herdeira e multiplicadora da energia motriz que saíu, originária e viçosa, do seu fundador J:Cristo?
No caso da Instituição, ela apresenta-se, sem ambiguidades nem reticências:  é um reino, talhado à imagem do Império Romano, a partir de Constantino Magno, no ano 313 d.C., com uma hierarquia similar à estrutura militarizada de qualquer estado soberano, com títulos nobiliárquicos, cânones decalcados do Direito Romano, com tribunais próprios e embaixadores, eufemisticamente chamados “núncios apostólicos”, e até com um opulento  banco privado, onde chegam a camuflar  “offshores” de lavagem de dinheiro. Aqui chegados, é por demais evidente, imperativo mesmo, que a Igreja se abstenha de criar conflitos, manifestamente prejudiciais à sua estratégia diplomática, isto é, a de ficar bem com todos, prioritariamente com os poderes instituídos, ou seja, com os poderosos.
Mas há a outra Igreja, a que não tem palácios nem títulos, não conhece as passadeiras vermelhas dos monarcas, não se reveste da púrpura principesca,, pelo contrário, traja por vezes andrajosamente e anda com os “pecadores e publicanos”, como o seu Mestre, com os atirados para a valeta das periferias, com os que “não têm vez nem voz” --- não para mantê-los nos mesmos  ghettos, mas trazê-los à ribalta da humanidade e restituir-lhes a túnica estatutária da sua dignidade original, igualitária, solidária. O horizonte desta Igreja não é um trono, mas um cadafalso; não são as condecorações, mas os insultos; não são  as promoções mas as prisões. “Não podemos deixar de falar”, ripostaram Pedro e João diante dos juízes do Sinédrio, depois de serem sujeitos à humilhante tortura das chicotadas.  
         E agora, quid júris?  Que faremos desta Igreja anti-institucional? Como hão-de posicionar-se os seus membros?  Acomodados, acobardados, mudos e surdos perante os abusos do poder, das ambições coligadas, as falácias eleitorais, os cortes nas pensões, as emigrações forçadas, as fomes impostas, enfim, os atentados contra o corpo e contra o espírito?!... Aqui, chamo o citado bispo Torgal Ferreira para abraçá-lo, chamo o Padre António Vieira, o Padre Alípio de Freitas, o bispo Helder da Câmara, o bispo do Porto, António Ferreira Gomes (expulso de Portugal por Salazar), os madeirenses Padres Tavares e José Luis Rodrigues, o bispo Óscar Romero, da Nicarágua, assassinado em pleno altar por tomar a defesa dos camponeses oprimidos, enfim, toda uma legião de intrépidos lutadores, gente saudável, dinâmica, subindo a encosta dolorosa de outros calvários redentores da história.
         É com este J:Cristo que conta Passos Coelho  para ganhar as eleições ou é com o outro “Nosso Senhor”, da  velhinha crédula na Igreja-Império que lhe ensinaram?  Com a Igreja dupla, farisaica, que não suja as mãos na lama, que deixa morrer a vítima ensanguentada, à beira do caminho e passa adiante. É desta Igreja que os poderosos gostam e adoram, porque é dela que mais precisam. Tal como a da Madeira que, desde há 40 anos, tem servido, não apenas de bordão ou de almofada, mas de sórdida cama onde o governo se tem deitado e onde procriou a ninhada  de filhotes que hoje nos comandam!
         É à outra parada de “toca-a-marchar” que solidariamente me apresento. Não como militante de campanha --- as forças em campo que as façam --- mas para apurar o meu olhar de cidadania e colaborar numa terra em que todos temos o direito de viver, sorrir e amar. Também para derrubar essa blasfémia, seraficamente aceite pelo falsificador de promessas. Não chamem Deus onde Ele não deve ser chamado. Lutar, sim.  Inconformar-se, sempre. A este propósito, penso muito no Livro do Êxodo,  a Suprema Divindade a dizer: “Os clamores do meu Povo esmagado  no Egipto chegaram aos meus ouvidos”. Mas não desceu à mansão do faraó, para destroná-lo. Limitou-se a intimar Moisés: “Tu, Meu servo, vai depressa, te ordeno, vai lá libertar o Meu Povo”.
         Com o mesmo humor inicial, lembro aqui a traição de Maradona que, numa pirueta ilegal, marcou o golo da vitória com a mesma mão a que chamou “mãozinha de Deus”. Por favor, senhor candidato, cuspa para fora essa infâmia de contar com a “ajuda divina” para ganhar eleições! Qualquer que seja o resultado.

1.Out.2015
Martins Júnior

Agradecimento –  A todas as amigos e amigos que me acompanharam ao longo de um ano, no SENSO&CONSENSO.  Iniciei os “Dias Ímpares”, precisamente, em 1 de Outubro de 2014. Ininterruptamente, até hoje. É bom e é saudável conversar, em final de dia, no convés silencioso deste navio-écrã, chamado Blog.