segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O PARADOXO ELEITORAL: A MAIS INSTÁVEL ESTABILIDADE


         Não é objectivo do SENSO&CONSENSO arvorar-se em manual de análise política nem muito menos de panfleto  partidário. Tão-só o que pretende é captar o instantâneo do acontecimento e nele detectar –lhe a raiz e o fruto, ou seja, os antecedentes e os consequentes. É o que proponho nesta segunda-feira, a qual, semelhantemente ao de sábado, poderia classificar-se de “dia da reflexão” . E fá-lo-ei porque o fenómeno eleitoral é  --- deveria sê-lo --- o eixo nevrálgico do “corpus” colectivo de um povo, por outras palavras, o momento soberano que nos torna únicos e exclusivos responsáveis pela condução do país.  Ninguém tem aqui o direito de lavar as mãos na bacia de Pilatos.
Ora e por mais contra-natura que se nos afigure, a constatação está diante de todos os olhos:  o fantasma com que a maioria mais esconjurou  o seu mais directo concorrente --- a instabilidade política --- foi precisamente esse o fosso que cavou diante dos próprios passos. Ficou à mercê, não só deste e do futuro presidente da república, mas também  dos seus opositores, paradoxalmente daquele que mais intentou destruir: o PS.  Agora, cúmulo da cegueira, é do PS que a coligação mais precisa para garantir a estabilidade governativa. Quem cospe para o ar…
Mas, do outro lado da trincheira, sai o mesmo apelo gritante, qual seja, o de formar governo de esquerda. Tem todo o travo de humor negro ouvir de quem, orgulhosamente só, se ufanava de ter o monopólio da candidatura “patriótica” , venha agora ao terreiro do segundo partido mais votado --- que durante toda a campanha  ensandwichou  entre os dois  da coligação --- propor, em jeito de subreptícia  petição, a ponte movediça de um convite a uma coligação do avesso. A política tem destas piruetas tão ardilosas quanto hilariantes! E é entre o antes e o depois da eleição que certos partidos são hábeis em semear o descrédito do cidadão comum perante a  política do seu país.  O que antes era --- deixou de ser, depois.
E eis-nos, agora,  confrontados  com este absurdo  parto  saído do ventre de toda a barafunda eleitoral:  a  mais  “instável estabilidade”. Ao ponto de deitar a pique o mandato de quatro anos de governação constitucional.! Substituindo os termos da equação, viver na mais instável estabilidade significa estar condenado a navegar na mais estável (leia-se, contínua) instabilidade política. O que nós fizemos! E a que  nos “forçaram”  os partidos,  no confuso maranhão de uma campanha em que os eleitores ficaram perplexos face a este desconcerto: quem nem sequer tinha programa que se visse passou todo o tempo a metralhar quem apresentou um programa, técnica e politicamente elaborado. Não se discutiram causas, mas tiques emocionais, estados-de-alma sem alma.
 Foi manifesta a estratégia omni-perfilada, maquiavélica, cujo alvo consistia em derrubar, fosse como fosse (“o fim justifica os meios”)  a esperança nascida das famosas primárias de   28 de Setembro de 2014. Logo à cabeça, a exploração psico-sociológica do medo do amanhã, “aí vem o papão”. Depois, factores exógenos como a vitória de David Cameron no Reino Unido,  a nova cirurgia política do Sirysa-Tsipras na Grécia,  a ama seca da Europa que veio a correr e sem que ninguém a chamasse, “explicar” que essa coisa do deficit de 7,2%  era  uma corriqueira “operação contabilística”, nem mais nem menos a versão do governo.  Ainda, a “vantagem” (para o status quo) dos quase 500.000 “ refugiados” portugueses, os que emigraram nestes quatro anos, de não poderem manifestar no voto a sua indignação… Neste elenco perdulário, situam-se os 295.695 votos (pessoas) que optaram pelos pequenos partidos sem sucesso…Outros factores menos perceptíveis mas muito mais arrasadores, de ordem endógena, as querelas internas à própria família e, ainda não sanadas, que conduziram o voto a outras urnas… Acresce a tudo isto, uma certa inabilidade retórica por parte do intérprete da esperança nascente --- quem é sério não pratica o mimetismo camaleónico nem tem préstimo para  malabarismos “irrevogáveis”. E assim, não foi difícil à voracidade partidária --- em que os extremos se tocam --- comparecer à parada da arena, todos com o mesmo furor como  quem se atira ao mesmo osso...
Moral da história: é para o “osso odiado” que os extremos, da direita à esquerda, voltam agora o olhar impetrante para dar carne e forma às suas endémicas ambições políticas! Não se vai chorar sobre o leite derramado. Está feito, está feito. E oxalá não seja “sem emenda” futura.
Tão cedo voltarei a estes temas pois, repito, tenho para o nosso  SENSO&CONSENSO  uma mesa  mais suculenta e respirável . Termino, endereçando daqui uma saudação aos madeirenses, particularmente ao Partido Socialista, na pessoa de Carlos Pereira,  e ao Bloco de Esquerda (relevando aqui a brilhante prestação de Catarina Martins em todo o país) por  terem corajosamente  afrontado o medo dos fantasmas coligados. No mesmo Voto de Congratulação, envolvo o meu concelho, Machico, que soube honrar nobremente as suas tradições democráticas. É a nossa forma de comparecermos no Dia da República Portuguesa, para apagar a nódoa presente de um  presidente ausente.

5.Out.2015

Martins Júnior