quinta-feira, 29 de outubro de 2015

SÍNODO DOS BISPOS: PROCURA-SE, VIVO OU MORTO!


Não sei por onde escolha --- é o que me diz a mão com que escrevo. De entre as rajadas de vento que passam vou ficar com aquela que, ao menos pelo visual majestoso, marcou o início da semana: o Sínodo da Família em Roma. Muitos abanões espadanaram por esse mundo fora. Para uns, foi a ameaça de um “cisma prático”.  Para outros foi a derrota do Papa Francisco.  Bento Domingos interrogava-se, por duas vezes consecutivas no  jornal Público; “Sínodo  das Famílias ou Sínodo dos Bispos”?  E para o grande auditório do mundo global, imagino eu, aquilo foi mais  uma não notícia e, se o foi, não passou de um episódio das clássicas novelas romanas.
Mas o caso foi muito sério. Não pelos cenários, mas pelos bastidores. Não pelo guarda-fato dos figurantes, mas pelo dentro da peça representada. Não pelo que se disse e aprovou, mas pelo que se não disse e obliterou. Concretamente: é verdade que os debates incidiram sobre questões fracturantes, endurecidas e fossilizadas de séculos --- a família, o casamento e seus derivados --- e por isso nunca daí poderiam esperar-se consensos. Para dourar a pílula, os 270 bispos e cardeais convidaram  18 casais e algumas mulheres. Esperava-se que estes últimos, considerados legítimos representantes dos verdadeiros destinatários do Sínodo, (as famílias) fossem ponderadamente ouvidos nas assembleias e dali saíssem conclusões mais amplas para o mundo exterior, abrindo  mentes e corações sensíveis aos problemas actuais, realidades novas onde está mergulhada a instituição familiar, fruto do inevitável processo histórico.
Mas não. Prevaleceram os fósseis, as teses dogmáticas, o imobilismo ou, mais precisamente, as almofadas bolorentas  em que dormitaram os velhos cardeais, solteirões oficiais à força, que durante as reuniões só acordavam sobressaltados quando alguém desafinava do coro dos anciãos, como nas tragédias gregas. “Uma Igreja moribunda, ligada  às máquinas”, escreveu no seu blog o meu amigo Padre José Luis Rodrigues. Na mesma linha contestatária, conta a historiadora Lucetta Scaraffia, 67 anos, convidada a participar no Sínodo, ela mesma responsável do suplemento feminino do jornal vaticano L’Osservatore Romano: “Quantas vezes tive que reprimir a  impaciência rebelde que me assaltava, ao longo dessas três semanas…Mas o que mais me chocou foi ver a ignorância total dos cardeais quanto à condição feminina, a sua forma de tratar as  mulheres como sendo inferiores, da mesma forma como tratavam  as freiras que, quase sempre, lhes servem de criadas domésticas”. (Le Monde, edição de hoje).
Para quem segue com alguma atenção esta metamorfose que se opera no Vaticano, seja-me permitido transmitir a leitura holística que faço  do Sínodo. Ele inscreve-se naquela dinâmica que o Papa Francisco pretende instaurar, ou seja,  não uma  Igreja impositiva, mas uma Igreja propositiva e participativa.  São os cristãos que devem construir a sua Igreja, como Povo de um Cristo permanentemente actualizado e aberto. Poderíamos dizer, se não fora a corruptela do termo, uma Igreja Democrática. Era assim nos primórdios fundacionistas  do cristianismo, até na indicação dos   seus próprios bispos. Depois, tudo se foi degradando, passou o povo cristão à condição de servo, humilde, obediente, proibido de pensar e  até de ler a Bíblia, enfim, uma ditadura sacralizada de liturgias e sanções canónicas, banais caprichos de classe que  os homens da religião transformavam em mandamentos divinos.
E agora estamos nisto. O Papa Francisco --- dificilmente teremos outro igual --- bem se esforça para que sejam as bases, os cristãos a pronunciarem-se sobre aquilo que à sua Igreja diz respeito, mas em vão. Já aqui transcrevi o pensamento de um reconhecido teólogo: “Enquanto  os cristãos   continuarem  à espera  de um   exclusivo líder carismático, a Igreja perderá  a sua vitalidade, a sua  identidade essencial”. Deve ser o maior desgosto deste  Grande Reformador:  pensar que, depois da sua morte,  tudo fique  na mesma inércia e volte a Igreja ao armário dos esqueletos, manipulada e contorcida por gente vestida de vermelho e enegrecida de ideia ou, como dizia, o Mestre:  “sepulcros caiados de branco por fora, mas cheios de ossadas por dentro”.
É este um assunto inesgotável, pleno de esperança para quem sonha, mas causa perdida à nascença para a maior parte dos cristãos. Porque se demitem do seu mandato, porque lhes é mais cómodo rezar que pensar. Batemo-nos pelas nossas capelas futebolísticas e partidárias e damos de barato o templo da nossa crença. Ninguém espere  que a seiva criadora venha de cima, dos paços episcopais, das mitras-altos capuzes de carnaval ou das colunatas do Vaticano. É do chão, das raízes que emana a produção renovadora. Para debelar o fascismo dos anos trinta foram precisas décadas de luta. A este propósito, ocorre-me  aquela resposta que um simpático clérigo portuense, então secretário do, agora,  bispo do Funchal, me deu sobre a inércia diocesana em resolver o caso Ribeira Seca: “Sabe, amigo, a Igreja é uma instituição que já tem  dois mil anos”. Percebi-lhe a ironia, em jeito de crítica ao que por aqui acontece.
A solução é o que se vê, a “debandada”, como dizia o Papa Francisco aos bispos portugueses na recente visita a Roma. Tenho para mim que a Igreja institucional não passa de mais um adereço da etiqueta social. Quanto mais opulenta e magnificente  mais servirá  para igualizar-se aos “príncipes deste mundo” e defendê-los nas suas refregas (como fez ontem o cardeal Patriarca de Lisboa, a propósito de Cavaco Silva) e, em ricochete, para menorizar os crédulos dos seus rituais, melhor ainda, citando Lucetta Sacaraffia, trata-los com tratam as freiras, criadas domésticas.
Se não houver cristãos esclarecidos e actuantes, o Papa Francisco perderá sempre, por mais sínodos e conclaves que houver. Ele precisa de nós.
Também aqui, a Hora é Nossa!

29.Out.15

Martins Júnior