sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O QUE FOI ISTO QUE ACONTECEU?…MILAGRE!


Se acaso alguém desembarcasse ontem, pelas 16 horas,  em Lisboa para revisitar os centros de decisão deste país, ficaria atónito com o súbito abalo das estruturas de Portugal. Parecer-lhe-ia deparar-se com uma paisagem lunar, onde em menos de 24 horas  tudo se havia virado da direita para a esquerda, o mesmo que dizer do avesso para o direito.
         A começar pela tragicomédia  solenemente representada  nos salões do Palácio da Ajuda, ao clássico estilo da velha Grécia, onde nada faltou: o corifeu, no alto do Olimpo,  nauseado Zeus de onze noites mal dormidas; o silencioso coro de anciãos depostos dos seus tronos, com as mesmas  onze mal dormidas noites. Eles tinham desfilado diante do corifeu supremo quando foram empossados em ….. gritando um hino patriótico  “Ave Caesar, morituri te salutant” (Os que vão morrer  saúdam-te, ó Imperador). De imediato, os jovens combatentes tomam a ribalta do grande palco e assentam-se nos tronos vazios. O esquálido Zeus empossa o novo comandante no cadeirão real, mas logo puxa a cavilha da bomba atómica que traz nas mãos e grita-lhe, alucinado: Dentro em pouco, vou dar cabo de ti.  Mas a beleza do cenário suplanta a “tragédia” : os jovens vitoriosos formam o semicírculo onde cabem todas as idades e todas as sensibilidades, direi, todas as etnias  do planeta e todos os cambiantes da condição humana, desde os mais fortes aos mais frágeis.
         Ficaria extasiado de encantamento o nosso visitante com a primavera que, desta vez, em corpo inteiro vinha passar o inverno a Portugal. Triste e vomitado, só o corifeu, com o seu “próssopon”, traduzido em vernáculo, com a sua máscara de malogrado desalento, identificado com o coro dos anciãos.
         Mas ainda mais atónito ficaria o atento observador quando chegasse à “Acrópole” das Leis, a Assembleia da Republica, ao ver cadeiras pelo ar, voando de cima para baixo e de baixo para cima (é mais fácil pôr cadeiras a voar do que gente a mudar de assento), uns do “céu” para o “inferno”, outros do “inferno” para o “céu”. Códigos soberbamente aprovados ontem e rasgados hoje em menos de um fósforo. Dentes, dantes afiados de soberania emprestada,  e hoje desdentados maxilares, colados aos olhos mortiços que só se abrem em  despeitados esgares de vingança.
         Enfim, que “tsunami” passou por aqui? --- perguntaria o nosso visitante. Se eu lá estivesse, responderia: Não foi um “tsunami”, foi o milagre, não o das rosas, mas o do Povo. Não o da multiplicação dos pães, mas o da soma inteligente dos votos, transformados em Dia  Novo e justa recompensa. Desta vez, o Eleitor viu o resultado do seu Voto. E o Eleito soube receber, interpretar e ampliar a força mensageira daquele mini-quadradinho, inofensivo e silencioso, que só a urna da vida secretamente guardou.
         Haja o que houver, venha o que vier, ficará o “4 de Outubro de 2015” com o brilho inapagável de um “25 de Abril” do século XXI,  porque aí o eleitor encontrou-se com o eleito, o fundo foi mais eloquente que a forma, o todo indiviso tornou-se maior que as partes divididas. Poderá dizer-se que, mais uma vez, cumpriu-se Portugal. É nesta ponte de convergências  que me apraz levantar a bandeira da Aliança “Povo-MFE”,  Povo-Movimento das Forças de Esquerda.
         Mesmo que nem tudo corra de feição --- o óptimo é inimigo do bom, filosofia dos tempos --- é preciso e é urgente marcar em termos indeléveis que não são os  “caudillos” que  transformam o mundo: é  o Povo, quando unido pela raiz,  é ele que vira os ventos da história. e afeiçoa-os à vela do seu barco até encontrar, ou seja, construir não “as ilhas do fim do mundo”, mas um país onde se possa respirar e sorrir. Voltemos a Pessoa:

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo.  É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.


27.Nov15
Martins Júnior