quarta-feira, 11 de novembro de 2015

VITORIOSO E LIVRE !



Já se sabia.
E já se esperava que o árbitro da vida havia de soar e dar por terminada a partida. Contigo a puxar, a vitória era sempre nossa. Agora é toda tua!
Outros ficarão com a merecida imagem do Sá, ternurento e dedicado, gigante e calmo. “Leão com coração de passarinho”, dizia-lhe eu muitas vezes, repetindo o poema de  Guerra Junqueiro. Onde estava o Sá, a paz estava lá, De tão alto que era, seus olhos mansos desciam ao nível dos nossos,  com o mesmo sorriso franco, que umas vezes era festa, outras ironia fidalga, mas sempre serena e segura. Até nas horas amargas que ele, em finais da sua vida pastoral,  curtiu em silêncio perante a incompreensão de certas hierarquias. Só com os amigos desabafava, com mágoa mas sem rancores. Porque ele era maior que a vil baixeza dos mortais pigmeus.
Mas eu prefiro vê-lo na sua e minha juventude, alinhando nos “Maias”, o club rival do “Lusitano”, a que pertencia o Sumares, (saíu mais cedo do torneio da vida).  No parque de jogos do Seminário da Encarnação e, mais tarde, noutros campos de volley  da cidade com equipas oficiais, era o Sá o puxador  e  eu o seu inseparável passador/servidor. Estou a sentir-me mais leve só de lembrar-me quando lhe levantava a bola e ele, atlético,  vistoso e altaneiro, de braço esquerdo ou direito, de frente ou de costas, fazia estalar o campo adversário e enchia de aplausos as bancadas assistentes.  Ele era ali, de nome próprio, "Arcanjo" dominador na peleja construtiva entre amigos do desporto! Formávamos uma dupla tão perfeita, modéstia à parte, que o velho Nacional, então uma das melhores equipas da modalidade em Portugal (eram os tempos do famosos Serrão, do polivalente Teixeira, já transferidos para mais longe) pretendia incluir-nos  no seu plantel.  Dá-me gosto escrever este parágrafo para demonstrar a quem não saiba que naquela expressão de  pacifista nato morava uma central energética de força vital que, na hora certa, expandia fulgor e chama  à sua volta.
Deixou-nos no dia de São Martinho, numa  manhã clara e efusiva como ele queria fosse a vida de toda a gente.
Desta vez, foste tu que transpuseste a rede fatal do estádio da vida. E, por enquanto, fui eu a fazer-te o “passe” para o remate final. Até que um dia outros me passem a bola para alcançar o outro campo onde já te encontras vitorioso e livre. Como  saem os heróis anónimos na hora do apito final!

11.Nov.15
Martins Júnior