segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

1000 DIAS = 1000 ANOS = 2000 ANOS


Tal como as águas dos  rios que serão tão puras  e genuínas quanto mais se aproximarem  da nascente original, assim também há pessoas que se transcendem a si próprias e em todo o seu ser  reflectem a limpidez transbordante do grande rio da história. Por elas circulam as fontes de outras eras e nessa mesma dimensão ganham altitudes e latitudes como se de gigantes vivos se tratassem. Por mais paradoxal que nos pareça a sua estatura, afinal elas não são mais que o fio de água fresca saída da rocha milenar que lhe serviu de seio materno.
É nesta imagem longa que hoje vejo  Giorgio Bergoglio, a personalidade mais desconcertante e, ao mesmo tempo, mais imponente e admiranda deste século.  Porquê?...  É que na transição desta noite para o dia de amanhã  perfazem-se 1000 dias do pontificado de Francisco Papa --- “bispo de Roma”, como ele próprio quis chamar-se.
Rios de tinta e quilómetros de película estender-se-ão sobre a sua presença no mundo que habitamos. Panegíricos, marchas triunfais, poemas e hossanas já foram tecidos e muitos mais tecer-se-ão em homenagem àquele que parece ter vindo “de um outro mundo”. Não será hiperbólico dizer-se que para o grande universo de crentes e não crentes, ele surge com o brilho e espanto de um inquilino “extraterrestre” no palácio do Vaticano. Diria mesmo, de um intruso na colunata barroca de Bernini, corpo estranho  entre o génio aristocrático de Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci. E volto à mesma pergunta: Porquê?
E a resposta deixa-nos vencidos, desarmados: é porque ele não é mais que o fio de água genuína saído da nascente originária. Nos 1000 dias das sua passagem estão escritos 1000 anos, 2000 anos, enfim todos os  séculos e milénios do que de mais belo e simples possui a condição humana. No que concerne à narrativa histórica da Igreja Vaticana, o que de mais claro se pode dizer --- e nisso está o “fenómeno Bergoglio” --- é que ele veio abrir  portas e janelas de um armazém bimilenar, dourado  por fora mas estruturalmente  poluído por dentro. O espanto está onde não deveria estar. Como já tive oportunidade de constatar, Francisco Pontífice --- etimologicamente,  “ponte” entre-rios --- não fez mais que o óbvio: raspar as paredes do Vaticano, caiadas de ouro e prata, ao longo de 21 séculos, e restituí-la à cantaria nua e pura da sua construção original.
Alguns outros foram os que --- rari nantes in gurgite vasto, “raros nadando  no imenso abismo”, como dizia  o poeta Virgílio --- tentaram e conseguiram fazer com que a sede romana fosse a casa universal, tornando habitável o lugar que deveria ser a  Belém  do Ocidente, onde o Mestre renascesse todos os dias.  Pagaram, porém, com o exílio e até com o próprio sangue tão nobre e tão evidente tarefa, porque outros, o grosso da manada, voltaram a desumanizar aquilo que era sagrado.
Aqui poderia cotejar o pensamento de Bergoglio com o de escritores e profetas, sábios e teólogos, mestres e mártires de outros tempos. Cito,  por todos, o paradigma imorredoiro que hoje, 7 de Dezembro,  se comemora:  Ambrósio, bispo de Milão, jurista brilhante, que, mesmo não baptizado,  o povo escolheu como pastor da sua diocese, tendo recebido no mesmo dia o baptismo, o sacerdócio e a sagração episcopal. Na história ficou para sempre a atitude intrépida de Santo Ambrósio que, no século IV, tendo tomado conhecimento que as tropas do Imperador Teodósio invadiram a população indefesa de Tessalónica, proibiu o Imperador de entrar na catedral sem que, primeiro, se penitenciasse durante meses, descalço, nas neves dos Alpes.
Se acreditasse nas teses budistas, não hesitaria em proclamar, sem peias de espécie alguma, que Francisco Papa é hoje a reincarnação viva  desses heróis de antanho, direi, do próprio Cristo --- os quais, se cá viessem, poriam os seus pés nas pegadas do Mensageiro da Paz --- a Paz, esse    almejado troféu, arduamente conquistado  na luta pela Verdade e pela Transparência sem medos.   
  Saúdo, pois, militantemente os  1000 dias  que são 1000, 2000 anos passados. E outros 1000, 2000 anos vindouros! Se houver quem lhe siga o corajoso percurso…

07.Dez.15

Martins Júnior