terça-feira, 15 de dezembro de 2015

CASAMENTO CIVIL-CASAMENTO RELIGIOSO: Linha do meridiano entre dois hemisférios



Dezembro, mês de ternuras, de casamentos, de natais. Na geada fria que perpassa à nossa beira, passam também os segredos da vida --- biológica, afectiva, social --- e, com eles, o sortilégio e o encanto que sobredoiram a monotonia do comum dos dias.
Coube-me essa prenda de Natal quando, no mesmo dia 12,  fui  chamado a associar-me a duas cerimónias de casamento: tão diversas no ritual e tão iguais na sua essência.
Dois casamentos --- um civil e outro religioso. O primeiro nos jardins da velha fortaleza que se ergue há mais de trezentos anos, como sentinela vigilante, no coração da baía de Machico. O segundo, no templo da Ribeira Seca, situado num território de história também  tricentenária.
E começa, precisamente por aqui, a similitude de identidades convergentes: o templo da Ribeira Seca tem origem na primitiva capela que, em 1692, o capitão-secretário da Câmara de Machico, Francisco Dias Franco,  mandou construir sob a égide de Nossa Senhora do Amparo. A fortaleza, construida em 1706, dedicou-a o seu autor, o mesmo Francisco Dias Franco, à mesma Senhora, sob a designação de Nossa Senhora do Amparo.
         O objectivo deste meu SENSO&CONSENSO não é mais que o de partilhar a emoção e a descoberta de horizontes que a mentalidade tradicional nos apresentou tão contraditórios e que, no seu íntimo, são tão unidos e congénitos como as linhas do círculo quando se encontram--- casamento no civil e casamento na igreja. Semelhanças e contrastes. Quem se lança à decifração do enigma?... Levar-nos-ia longe esta incursão e decisivas seriam as conclusões. Limito-me a partilhar aqui  a síntese do discurso, em tudo semelhante, que dirigi nos dois eventos festivos, sujeitando-me à contradita de quem julga por critérios diversos dos meus.
                                                     


1 – O casamento é um contrato bilateral da inteira e única responsabilidade dos nubentes. Por isso, o Código de Direito Canónico classifica-os, aos nubentes,  de ministros do matrimónio. Assim sendo, o padre não casa ninguém, o bispo não casa ninguém, o papa não casa ninguém. Estes são apenas testemunhas qualificadas que aceitam o juramento daqueles. Mesmo casando em Roma, com o Papa a presidir, 100 cardeais, 1000 bispos, 10 000 freiras, 1 000 000 de fiéis  apinhados em S. Pedro --- se, na altura da declaração de vontade, um dos nubentes dissesse que não --- podia o Papa desfazer-se em bençãos rituais, mandar chover água benta, haveria um tsunami de orações e cânticos  --- haveria tudo…menos casamento. Ai, se os casais descobrissem e interiorizassem a nobreza e magnitude do seu compromisso, livre e responsável, então aguentariam firmes os embates da vida. E a  quem viesse dizer-lhes que o casamento era uma prisão responderiam gloriosamente, como Gilbert Cesbron num dos seus romances: “A minha prisão é um reino”!
2 – O elixir “ mágico” e o segredo da longevidade do amor conjugal residem dentro dos nubentes e podem resumir-se neste breve axioma: Quem muito ama- muito dura. Quem ama pouco–pouco avança. Quem ama totalmente-ama eternamente.
3 -  Não foi por mero acaso que o primeiro milagre que Jesus realizou aconteceu precisamente numa festa de casamento. Gente trabalhadora, gente humilde, pois até faltou o vinho na festa. Milagre, o primeiro, porquê?… Porque não há maior milagre do que unir duas vontades livres e responsáveis num mesmo tronco existencial. Para mais, neste caso, no mesmo afã de amar e construir o mundo novo que brotará daquela jura assumida, consciente.
4 -  Por isso, em cada casal que se entrelaça, aí se encontram um Novo Adão e uma Nova Eva. Com eles, recomeça a trajectória do planeta habitado pelos humanos, a partir do "jardim terreal" do espaço onde irão viver.   
Casamento civil –casamento religioso: em qual dos dois estará Deus mais perto?... Só os noivos poderão responder. Porque todo o cenário envolvente --- local, oficiante, coro e orquestra, padrinhos, convidados --- não são mais que a moldura do quadro dentro do qual o segredo do sucesso está na força  do seu voto, ali subscrito mais com a cor do seu sangue do que com a tinta do  aparo dourado.

Para os dois casais amigos, o abraço da primeira hora!
A felicidade segue os vossos passos.


15.Dez.15
Martins Júnior