segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

DEMORE-SE E FAÇA O SEU “CANTICO DOS CANTICOS”

Para se chegar à Festa/ Festa da nossa alegria/ Anda tudo baldeado/ Como o mar em levadia/ Ninguém pára nem descansa/ Quer de noite quer de dia
Cantigas do povo, como esta, traduzem a azáfama e o bulício que põem tudo a mexer: crianças e adultos, estradas e veredas, geleiras e igrejas. Não há tempo porque o tempo urge. Muito menos para ler. E não serei eu a meter areia no maquinário das tarefas radiantes mas efémeras desta semana melhor. Apraz-me assim designar estes dias. Se na Páscoa há a Semana Maior, no Natal sobressai a Semana Melhor. Por isso, limitar-me-ei a respigar notas soltas do sumário de ideias que  temos saboreado no novenário da Missas do Parto, como primeiro manjar das seis horas de cada manhã.
É a imanência do Parto, mais a sua transcendência  que nos trazem presa a atenção e a emoção, principalmente no tocante à terra, à ecologia, à vida. Hoje esquecemos decididamente os atentados ao ambiente, deixámos de fora a poluição dos campos e dos mares, para só nos extasiarmos diante de uma flor, de uma tangerineira, das majestosas  montanhas, do azul infinito que une os extremos do céu aos oceanos. Numa palavra, hoje é dia de ser poeta do verso de todas as cores do arco-íris. “O poeta em tudo se demora” --- assim ecoa dentro de nós  a  “linda, longa melodia imensa” de Sebastião da Gama. E o “Guardador de Rebanhos estira-se ao longo do manto da verde relva e vê saúde, respiração, felicidade.
Habitar o campo, conversar com o vetusto tronco da nogueira, ver crescer como um filho os “pés de semilha”, tão mimosos como as rosadas buganvílias, enfim, beber a água das nascentes e inebriar-se do cheiro da terra, do milagre da vida que se oferece gratuitamente aos nossos olhos e nós nem damos por ele. Que pena calcar aos pés da indiferença mortiça as violetas roxas de paixão que são pisadas e nunca se queixam…
“Olhai os lírios do campo”, repete Eric Veríssimo o lirismo bucólico do Cristo histórico. Ele, o “Maior dos filhos dos homens” também era poeta, também se demorava como a abelha obreira sobre o mel a haver das flores silvestres. O povo da ruralidade tem um privilégio que não têm os inquilinos das cidades.   
Acompanhámos  o LAUDATO SI  em cujas páginas o quase-octogenário Francisco jovem do século XXI evoca o Francisco romântico do século XIII que a todas as terras, a todos os sóis, a todos seres chamava “Meu Irmão e Minha Irmã”.
“Demore-se” um pouco…pela sua saúde --- física e mental. E ao olhar o presépio ame o Planeta e o que ele contém. Mais ganha em “demorar-se” do que em ir à farmácia… É o que de mais doce traz este Natal!
“Olhai os lírios do campo”… e deliciai-vos com o “Cântico dos Cânticos” --- o bíblico e o vosso  do dia-a-dia.  

21.Dez.15

Martins Júnior