terça-feira, 1 de dezembro de 2015

HERÓI COMBATENTE COM AS ARMAS DA LUZ!


Não obstante os múltiplos e momentosos acontecimentos da segunda metade do mês de Novembro --- posse, a ferros cavaquistas, do novo governo;  ataques jihadistas em Paris;  cimeira de 140 líderes mundiais no COP21 sobre o ambiente; 1º de Dezembro da Restauração em Portugal; taça das nações e campeonatos nacionais e regionais que dominam a opinião pública --- apesar de tudo isso,  não pode ficar nos bastidores do grande teatro do mundo actual o périplo do Papa Francisco ao continente africano. Verdade se diga que  os braços e os dedos do argentino tocam todo o planeta e todos os dias mexem connosco, tornando-se quase que um lugar comum a evocação do homem mais corajoso deste início do século XXI. No entanto, SENSO&CONSENSO  não pode perder a visibilidade da grande paisagem e faz questão de colocar na ribalta do tempo essa aventura, símbolo vivo do que de mais nobre, vigoroso e construtivo é capaz de conceber a mente humana.
Apenas três breves  mas eloquentes gestos de entre a grande mensagem de Francisco Papa:
1º - A coragem de alguém que conhece bem  o risco da própria vida em que incorre,  acrescido de prenunciadas ameaças de morte. O atávico fogo posto, de há muitos anos, naquela região do continente africano, as “minas e armadilhas” secretamente escondidas no seu percurso, as lutas fratricidas entre muçulmanos e as rivalidades ideológicas contra os cristãos, nada nem ninguém conseguiram travar os passos decididos de um homem de paz. Deu o corpo à balas, afrontou os mitos, fez quebrar diante dos próprios olhos os ódios e as armas. Ele, o grande combatente, intrépido, confiante!
O episódio, verdadeiramente estremecedor, foi aquele, ocorrido em Bangui,  a capital massacrada da República Centro-Africana,  em que ele atravessa o cerco com que as milícias cristãs mantêm no mais vil cativeiro uma comunidade  muçulmana para abraçá-la e dizer que entre cristãos e muçulmanos deve imperar a relação entre irmãos e irmãs, num gesto ímpar que arrancou ao ancião Idi Bohari este desabafo público: ”Pensávamos que todo o mundo nos tinha abandonado. Ele (Francisco Papa) também nos ama a nós, muçulmanos, e estou muito feliz com isso”. Único e incomensurável!
2º -  Na pátria do Idi Amim, de execrável memória, nesse antro de gritantes assimetrias sociais, o sereno mensageiro das causas pacíficas não se conteve que não proclamasse à África toda, ao mundo inteiro,  a Lei  dos três “Ts”:  “Terra, Tecto e Trabalho. Não por caridade ou filantropia, mas por direito próprio”! Sobre o vulcão das desigualdades o Nosso Homem não hesitou em içar bem alto o pregão e a bandeira da Justiça. Aos ouvidos de muitos, aos meus também, soou como o grito clamoroso de outra época: “Proletários de todo o mundo, uni-vos”.  Pelo direito ao pão, à casa, ao salário justo. Simultaneamente, ecoou no meu subconsciente o normativo do Mestre na Montanha: ”Felizes os que têm fome e sede de Justiça. Esses são os do meu reino”.      

 3º - Como quem possui o dom da ubiquidade, o Argentino, incarnação  do intelectual jesuíta e do sensível franciscano, demonstrou a inteligência esclarecida e a mais fidedigna  coerência  quando enviou os seus sapatos para a Praça da República em Paris, afim de juntar-se aos 22.000 que lá  estavam, em silenciosa manifestação de apoio ao COP21, em defesa do clima.  Expressão inexcedível da grandeza de alma de alguém de quem  este Planeta precisa como de pão para a boca, como  de paz para o mundo. Coerência, aliás, com a proclamação do Código ecológico universal da encíclica Laudato Si, que ele próprio subscreveu na mensagem colocada sobre os “sapatos cambados”.
O entusiasmo e a  homenagem ao Profeta e Líder do nosso tempo contrastam com a passividade inculta  dos nossos bispos, mais escandalosamente a nível regional, que se deleitam em jantares com Cavaco Silva na Madeira e com o ofício de “festeiros” nas festas do verão e de “parteiros” nas regionalíssimas missas do parto no inverno?... Quando é que estes homens acordam para a vida e para a  missão?...  Quando é que terão a coragem de  concentrar-se  seriamente no seu mandato de abrir clareiras de Justiça por entre as trevas das desigualdades acobertadas pelo assistencialismo farisaico? … Quando é que, finalmente, se resolvem a alistar-se na militância de Francisco Papa?


01.Dez.15

Martins Júnior