quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

HETERÓNIMOS EM CARNE VIVA! Lembrando David Bowie



É tremendamente exaltante ver passar diante dos nossos olhos  as mil sombras de David Bowie. Toda a sua vida foi um desfile perturbador e, ao mesmo tempo, repousante, em que perpassam as infinitas hipóteses  de que é capaz a condição humana  do estar aqui e agora. Perturbador e repousante, digo, porque nele tudo é disperso e tudo é inteiro. Uno e múltiplo. Inesgotáveis são as definições para qualificar  uma vida-mistério e alma desnuda. De tantas e tão eloquentes --- desde génio musical, artista total (como lhe chamam criativos e jornalistas) mestre da invenção (assim classificou David Cameron o seu compatriota britânico) --- destaco o título do colunista de Le Monde: “a lenda viva” e o “extraterrestre”.  
         Dispenso-me de elencar a sua multiforme criação musical, com as mais talentosas canções, todas diferentes e todas iguais, por que inspiradas na mais genuína música popular, passando pelos mais diversos géneros, o music-hall, o folk hippie, o glam-rock, a canção soul, a funk, a pop, a música electrónica.  Dou também  por adquirida do conhecimento público a sua versatilidade artística, como actor  e produtor no teatro e no cinema,  estrela nos desfiles da moda, visionário do futuro quando antecipou a queda do Muro de Berlim, na chamada trilogia berlinense  Low (1977) Heroes (1978) e Lodger (1979). Homem de causas, bateu-se pela igualdade de género, no desconcertante desempenho de Ziggy Standurt /1972).

                       

 Mais que Cidadão do Mundo, ele foi o Caminheiro da História, pois que nele se condensa, sob diversos cambiantes, o mistério do Homem e os seus fantasmas. Até no próprio leito da morte, ele incarnou a incomensurável dimensão da alma humana. Durante 18 meses arrastou consigo o ferrete da morte anunciada pelo cancro que manteve sempre no mais secreto sigilo até aquele dia em que editou o seu último álbum premonitório Blackstar,  8 de Janeiro, vindo a falecer em 10, mas a morte, só anteontem, 11, foi dada a conhecer ao mundo. A força anímica com que gravou o videoclip em que aparece na figura bíblica de Lazzarus, redivivo na “tumba” de uma cama de hospital, evidencia a síntese do homem-espectáculo (com 50 anos de carreira e mais de 140 milhões de álbuns vendidos) envolto no sudário do homem-mistério, a definição que revestiu toda a sua vida.

Três dias após a sua morte, aos 69 anos de idade, aqui presto aminha homenagem e o preito de gratidão pela esteira de luz que nos deixou. “Nunca mais vai haver David Bowie, escreveu um seu admirador. Mas vai haver sempre quem aprenda com ele a ser não só aquilo que é mas aquilo que gostaria de ser”. Levaram-no aos braços dois geniais companheiros de jornada, Paul Bley, pianista e compositor, e Pierre Boulez, compositor e maestro, que recentemente nos deixaram
  Envolvo na mesma homenagem duas memórias eternas da cultura portuguesa: Antero de Quental e Fernando Pessoa. Do primeiro, escreveu Eça de Queiroz: “Antero tinha alma para sete famílias”. Embora noutro registo, bem poderia escrever-se igual epitáfio sobre a lápide de David Bowie.
De Pessoa, conhecemos a genialidade --- diria também “extraterrestre” --- dos seus heterónimos. Descobrindo o misterioso caleidoscópio a que se reconduzem  a vida e a obra de David Bowie, estamos seguros de afirmar que  ele corporizou em carne viva --- e não só em páginas de laboratório --- a abissal heteronímia da condição humana.

13.Jan.16
Martins Júnior