sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

NEGÓCIOS (de) “BÊBEDOS”


         Nada melhor que anedotas e caricaturas  para caracterizar estados de alma ou complexos atávicos. Vou dar quatro rápidos “anúncios”, para não dizer spots, suficientemente esclarecedores.
O primeiro, passado nesta nossa terrinha ilhoa, refere que um chorudo negócio de dois aldeões ficou marcado para o almoço, mas porque um deles só admitia à mesa  vinho seco e o outro  só vinho tinto, o negócio borrou.se… O segundo conta-nos que a secretária de trabalho  do competente notariado que registaria o contrato de compra e venda de um valioso prédio entre dois proprietários ricos, foi ela, a mesa, responsável pela frustração do negócio. Causa: o prometido comprador, educado por uma beata catequista, fugiu desabridamente  porque a dita mesa tinha um arranjo floral onde predominavam dois esbeltos antúrios ostentando garbosamente o seu natural “ex-libris”…  O terceiro caso diz respeito a um jogo de futebol feminino em que uma das equipas se apresentou de calções e a outra, que entrou em campo, de calça comprida  até aos pés e camisola afogada até ao pescoço, exigiu que todas se equipassem bem compostas, pois assim lhes ensinara uma púdica tia religiosa e solteirona. Lá se foi o campeonato…  O último caso fala-nos de dois compadres à roda de uma mesa, onde a garrafa de vinho  se encontrava numa situação tal que um deles dizia que ela estava meio-vazia e o outro teimava que estava meio-cheia. Foi tão acesa a discussão que nenhum quis provar o precioso conteúdo da  garrafa. No entanto, sempre lá concluíram o negócio aprazado.
         Mudem os nomes e os trajes e ponham em seu lugar o episódio grotesco do almoço protocolar entre Rouhani, o presidente do Irão, e François Hollande, de França, marcado para ontem, o qual acabou por ser cancelado devido à exigência dos muçulmanos que proibiram o seu presidente de sentar-se à mesa onde houvesse uma  garrafa de vinho, uma só que fosse. Ordens sagradas de Maomé!  Sem comentários. Aí é que se ouviram as paredes do Eliseu a rir, divertidas, enquanto ecoava o velho ditado: Ridicule mais charmant, ou então, encostando o caso às Précieuses Ridicules, de Molière. Apesar de tudo, fez-se o negócio de muitas dezenas de milhões, como de resto, um dia antes em Itália.
           É caso para dizer: a cada qual, o seu vinho e a cada qual a sua droga…
         Este pitoresco episódio levou-me até África, aquando da guerra colonial em Cabo Delgado,  extremo  norte de Moçambique, numa tarde em que o, aqui correspondente ao regedor da sanzala, veio ter comigo e balbuciou-me ao ouvido: “Tènenti, zungo (patrão), trá-me madji di lizebaua”. Perguntei a alguém o que era aquilo de ”água de Lisboa”, sendo então  informado que se tratava de vinho tinto. Lá comprei a garrafa na messe de oficiais, dirigi-me ao aldeamento (onde dava as chamadas “aulas regimentais” aos lindos  petizes negros… que saudades!), chamei à parte o dito “regedor” e pu-lo à prova: “Mas você é muçulmano e o Profeta proíbe você de beber vinho”, ao que ele, outra vez ao ouvido, depois de observar que ninguém topara a cena, respondeu baixinho: “Mas eu bebo de noite”.
         Percebi logo. Até neste esquelético cocuana (velho) se confirma a hipocrisia oficial dos quadros do poder --- lá e cá! --- em que  o mais importante é preservar as aparências, a letra da lei, enfim, o político-religiosamente correcto. Só queria saber  qual a marca do vinho e qual o éden em que  plantou Maomé as muçulmanas  parreiras, capitosas e fulminantes, que levam um homem a cinturar-se de granadas e fazê-las explodir, matando dezenas, centenas, milhares de vítimas inocentes…
         Até  onde é capaz de  levar-nos  o atavismo inquestionado! Voltando ao mesmo sítio, impressionava-me ver as crianças comer a feijoada que lhes levávamos do rancho geral e elas, escrupulosamente, separavam a dobrada e só comiam o feijão e a batata. Perguntei-lhes uma vez por que razão procediam assim. E a resposta veio directa: “O pai não deixa”. Lembrei-me do (já aqui  referido)  relato bíblico daquela mãe que se entregou à morte mais violenta, ela e os seus sete filhos Macabeus, só por se recusarem a comer a carne de porco que o rei Antíoco lhes oferecera. Há milhares de anos! A força cega das crenças não escrutinadas, diríamos, dos dogmas, também  impostos, mutatis mutandis, pela Igreja Vaticana!
         Há quem discuta se Hollande terá feito bem cancelar o almoço e o jantar. O Sim ou o Não  defensáveis são. Inclino-me, no entanto,  para o Sim: outro bem maior estava em jogo, ou seja, a histórica visita de presidente iraniano à Europa, após o acordo nuclear e o levantamento de sanções, prenúncio de um tempo novo na história das civilizações. Na senda da comprovada filosofia que fez escola, “ por vezes, é preciso dar um passo atrás para ganhar dois passos à frente”! Mas… sem tacticismos, apenas com vista à prossecução dos verdadeiros valores que dignificam a espécie humana.

         29.Jan.16
         Martins Júnior