sábado, 9 de janeiro de 2016

PARA QUE NÃO SE DISSOLVA O CASAMENTO DE HÁ TRINTA ANOS

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A festa do nascimento quão diversa foi  da do trigésimo aniversário!
Aquela, toda ela feita de sonho e misticismo, sob as ogivas do mosteiro quinhentista erguido em honra das Descobertas, com discursos apologéticos de primeiro dia de núpcias. Esta, mais cautelosa, talvez doída de sofrimento por se achar traída e  amachucada ao longo de 30 anos de percurso…
Refiro-me à comemoração, ontem, das três décadas de adesão à Europa, no mesmo histórico Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa. Assisti à primeira  (a assinatura do contrato de adesão em 12 de junho/1985, com entrada em vigor no dia 1 de janeiro/1986) e ainda guardo o cheiro a incenso que se evolava das timbradas vozes do septeto gregoriano deambulando sob as arcadas do velho convento que, então se me assemelhavam às caravelas de outrora na conquista de novos mundos.
Mas ontem os panegíricos transformaram-se em ondas suficientemente batidas na falésia europeia  para se perceber que a canção era outra: de repúdio pela invasão da nossa soberania, de protesto contra o confisco do pão a que temos direito. Que outro sentido tem a proclamação clara e sonora do Primeiro Ministro de Portugal: “Pertencer à Europa não significa estar subjugado ao pensamento único”?!
Esta subjugação tem um nome: austeridade. Austeridade que é desumanidade.  Crueldade. São muitos os economistas de renome, um deles Paul Krugman, Prémio Nobel; sociólogos da estirpe de Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni (no seu livro escrito a quatro mãos  Estado de Crise) todos a apostrofar o capitalismo financeiro dominante no planeta e, por consequência, na casa comum da Europa, onde o “poder está globalizado mas continua a aplicar políticas locais, individualistas, ‘paroquiais’, como dantes”, em vez de tornar global a política que a todos deve servir equitativamente.
Na lua-de-mel europeia em que os especuladores carreavam toneladas de sacos de  euros para os países mais frágeis (e pensavam estes que se tratava de uma generosa dádiva) um amigo meu observava: a estratégia é maquiavélica e consiste, primeiro, em empresar, dar às gavelas, engordar a rês, para mais tarde caçá-la à mão, tal como os bancos que facilitam a compra de casa para, depois, absorver casa e dinheiro”.  Malditos agiotas, piratas dos offshores, sem escrúpulos, que “bebem o sangue fresco da manada”,  comem às dentadas a carne mirrada de um povo carente. Essa gente consegue ser mais assassina que os jihadistas de rosto coberto. Escondidos nos antros da banca clandestina (legal, mas visceralmente imoral) amontoam paióis de armamento sofisticado, o dinheiro, com que matam os pobres indefesos. Mas cuidem-se (!) porque se os seus cofres estão blindados, as suas vidas não estão seguras! Sinais dos tempos…
Foi assinada a união territorial, tenuemente política, mas onde está firmada a união económica, a união bancária, a justiça distributiva? Chegou-se até ao cúmulo de serem os próprios campeões da agiotagem, o FMI, a reconhecer que a austeridade foi longe demais e nada resolveu.  Pelo contrário, agravou a catástrofe iminente. Empobrecemos. Perdemos a dignidade.  É a “sociedade líquida”, de que fala Zygmunt Bauman: “dos que vivem nesta precariedade continuada, sem saber se a sua empresa vai funcionar ou se vai comprar outra, sem saber se amanhã vai para o desemprego, saber se lhes pertence o que tanto lhe custou”.
Estas turbulentas incógnitas não têm outro intento senão o de alertar-nos a todos para a contida veemência do discurso do Primeiro Ministro contra uma “Europa de pensamento único”, possessiva, asfixiante, sem dar um palmo de pertença aos países membros afogados pelo garrote financeiro. É preciso deixar de ser o “bom aluno”, o boi-mudo, subserviente, à espera de um lugar na cúpula do poder central, como ignobilmente fizeram conhecidos malfeitores políticos deste país. Em boa hora, Portugal mudou de rumo. Oxalá que Espanha, Itália, Grécia (e outros que ainda estão na primavera falaciosa das dádivas europeias) despertem para a dignidade da sua soberania e lutem arduamente sob a tarja imponente que a todos deve mobilizar: NÃO ESTAMOS À VENDA!
Antes que todo o edifício venha a ruir.

9.Jan.16

Martins Júnior