quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

QUE NOVAS NOS TRAZ O DIA QUE PASSA?


Sentemo-nos lado a lado. Ou se preferir, deambulemos sob alameda das memórias que trazem consigo momentos felizes e também pistas de reflexão. É que, ao dedilhar as teclas deste meu e seu comunicador, dei comigo a pensar nas 238 publicações do SENSO&CONSENSO, surgindo-se logo este puxão de orelhas: “tens a certeza de que os teus assuntos interessam às pessoas”?  Com isto deixei cair os braços e soltou-se-me  estoutra  pergunta: ”escreves para ti ou para os outros? E conheces tu o que os outros esperam que lhes transmitas”?
Parafraseando o velho ditado, escrever não custa. Custa é tocar o dentro de quem  lê, a sua mente e a sua psique, a sua expectativa e as suas apetências. É o drama de quem escreve. Sobretudo este portentoso mecanismo de comunicar à distância, como  bolas de sabão sopradas à brisa corrente. E é o que hoje vou ensaiar perante os meus amigos e amigas, dependurando no estendal desta varanda as muitas e tão diversificadas opções para o 27 de Janeiro de 2016.
 1-  Para os que estão atentos à História do quanto é capaz este arrumo de ossos que nós somos, lembraria o 71º aniversário da luta ingente que pôs fim ao mais bárbaro  genocídio do género humano que dá pelo nome de Auschwitz, perpetrado por um monstro em traje de gente, cujo nome recuso para não  manchar esta página. Surpreendo-me com a indiferença dos nossos jornais, dos homens que aí escrevem. Não apenas uma vez ao ano, mas todos os dias,  deveríamos olhar de frente para que os homens não esqueçam. E o mais horroroso é que, sob outros camuflados, andam por aí os facínoras de Auschwitz.
2 - Para quem se ocupa e preocupa com a asfixia  que os decisores europeus  “oferecem” a Portugal, rebobinaria aqui o passo cadenciado e grave, como cangalheiros que ajudaram a matar o defunto, entrando na Assembleia da República com o vergonhoso brasão ao peito, onde figura a pitonisa Troika que vem de palmatória em riste  embolachar as mãos de quem fez o plano do próximo Orçamento de Estado. Não menos abjecta, patrioticamente falando, é uma outra brigada do reumático (a mesma que pôs o país a pão e água) vir agora restabelecer a farsa de um país “de tanga”, como essa rapariga brancaça, substituta de  Paulo Portas (aquele que lhe pôs nos braços quatro ministérios, do mar à serra) e que sai à rua, com uma graçola de rapazinho imberbe, dizer na cara da Troika que “o OE/16 é candidato ao Óscar de Hollywood”. Ficarão os portugueses indiferentes aos mercados que emprestaram dinheiro para, agora, nos oferecerem um garrote ao pescoço de  pais, filhos e netos? “Bolsa ou vida”! E já!
3 - Para os aficionados da bola, perguntaria qual a sua opinião sobre o arquivamento, por parte da Comissão de Instrução e Inquérito da Liga,  do processo de difamação contra os árbitros, em que foi protagonista o presidente do Sporting. E daí, exigir à Justiça que investigue e não deixe a culpa solteira para sempre. E que não leve um ano e mais, noutro conhecido processo, a formular comprovada acusação. Ai, quem julga a Justiça?! E que dizer da mesa redonda da TVI24, agora à noite, em que a imagem dos quatro  comentadores desportivos foi escandalosamente abafada pela encenação gesticulada do dito presidente, numa reportagem de Outubro do ano transacto, exibindo repetidamente papéis baralhados ao repórter de então? O espectador não é propriamente um parvo.
4 - Aos que lhes toca mais dentro o problema das religiões, que belíssimo o frontispício desta peça, o encontro entre o presidente Rouhani, do Irão, com o Papa Francisco, prestimoso augúrio de outros compromissos europeus para a paz entre o Oriente e o Ocidente! Do lado oposto, a mancha negra, tão difundida  na comunicação social, do filme Spotlight, de Tom McCarthy, sobre os escândalos sexuais do clero católico de Boston, que tanto abalaram a América e o mundo. Ainda por cima, proposto para os Óscares da Academia. Na mesma linha, a humilhante posição em que ficou a Diocese do Funchal que, após sucessivos e dispendiosos processos judiciais pelo competente testamenteiro, foi obrigada na barra do tribunal  a mostrar os documentos relativos à “herança de D. Eugénia Bettencourt”, os quais passou tantos anos a ocultar. Já é voz corrente que o detentor do poder religioso regional outra coisa não faz senão esconder, encobrir e refugiar-se na sotaina cintada.
5 - Incontornável, impossível passar adiante sem evocar e reler Vergílio Ferreira, o talentoso romancista, ensaísta e filósofo português, cujo centenário o país está a comemorar. Que sabemos nós do Autor da Manhã Submersa, traduzida para a tela cinematográfica pelo realizador Lauro António? Ao constatar a irresistível superficialidade dos dias fugazes que nos absorvem, fica-me até ao fim esta mágoa: quanta gente escreveu para mim e para cada um de nós mensagens tão afectivas e eloquentes e nós nem abrimos o computador, nem sequer o telemóvel.     …………………………………………………………………………………………………………..............   
        Que mão cheia de lembranças para este 27 de Janeiro! E muitas outras deixei ficar para trás. Quanto me apeteceria e ajudaria saber a qual delas foi mais sensível quem me lê. Por onde se vê o drama interior que persegue aqueles que se predispõem a transmitir algo que interesse e não apenas gastar as  molas do teclado. E desculpem-me este extenso linguado, quando pretendia fosse mais sintético que os anteriores. Como no velho exemplo do estilo epistolar.  “não tive tempo de fazê-lo mais curto”.

27.Jan.16

Martins Júnior