sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

CARNAVAL A BORDO COM MUNIÇÕES NO PORÃO


Enquanto batucam no ar os tambores das trupes, vem-me ao pensamento uma estranha trupe naval que largou do cais da Rocha em Lisboa, no dia 4 de Fevereiro de 1967. Chamo-lhe estranha trupe, porque na altura era tropa que se chamava. E tinha  no aparato exterior  toda a cor, todo o ritmo cadenciado e triunfante das marchas que enchem as ruas, com os metais a reluzir de espanto sobre o betão do molhe onde estávamos atracados. A encenação era solenemente a mesma. Os figurões lá estavam perfilados como cavalos ajaezados para o festival. Eram brigadeiros e generais, eram ministros, o das Colónias à frente, era o Cardeal ou o Bispo com  seus cónegos de meias vermelhas, religiosamente paramentados a deitar água benta ao casco que nem a via. Era um delírio de lenços brancos brandindo a brisa e a luz multifacetada das oito da manhã.
         Destoando da apoteose malévola da parada em terra, uma multidão incontável de velhos, adultos e até crianças --- os jovens já estavam no convés voltados para terra --- erguia os braços pesados num último adeus que enegrecia o meu olhar. Pareciam-me os lábios trémulos de quem carpia lá dentro a fatídica esperança: “Adeus, meu filho, meu neto, meu pai, meu noivo… será que voltarás vivo aqui à nossa casa”?!
         Fez ontem, faz hoje, durante trinta dias --- os da longa viagem que nos  separava do Norte de Moçambique --- sim, faz cinquenta anos menos um.  Partíamos como cegos para o abismo,  no bojo do velho “Niassa”. E foi lá o nosso carnaval. Passámos o Cabo Bojador, dobrámos o Cabo das Tormentas que, para a maior parte foi da Esperança mas, para outros foi o naufrágio da vida que nunca mais voltou, porque lá ficaram com os ossos mirrados nas sepultas plagas da mata africana.  Ainda hoje, passado quase meio século, aproveitamos (os que éramos jovens garbosos e hoje somos velhos encanecidos)  para enviar mensagens e confraternizar via telefone, recordando o primeiro dia do resto da nossa comissão em Moçambique.
         4 de Fevereiro de 1967! --- Véspera do ímpar dia 5.
         Vou passar adiante e deixar não sei para quando episódios de uma campanha suicida que nos apertaram ao pescoço. Esquecerei, de momento, até as armas e munições que, longe dos nossos olhos, escondiam os porões do navio. Cinco décadas depois, fixo-me apenas na resignada, mais do que isso, quase-entusiástica aceitação desta sentença colectiva de pegar  em centenas, milhares de jovens, no maior esplendor da sua força física e mental, e empurrá-los forçadamente para o matadouro de carne humana. Em terra alheia!  Talvez se pudesse encadernar esta paradoxal contradição na capa do livro de João de Melo Gente Feliz com Lágrimas.
Ao mesmo tempo que se tratava de uma fatalidade inelutável, dou comigo a pensar  nessa passividade a que chamavam patriotismo, amor à bandeira e à Nação. Para isso também  contribuíam Nossa Senhora de Fátima, o bispo-brigadeiro sediado em Santa Apolónia, os capelães que benziam o estandarte do batalhão, coisa que me recusei a fazer e pela qual fiquei desde logo marcado no Índex das altas patentes militares. Como foi possível anestesiar um Povo inteiro até ao ponto de considerar traidores à Pátria os jovens esclarecidos que se recusaram a pegar em armas contra os legítimos possessores das terras africanas e, por isso, se exilaram por esse mundo fora…  Que droga, sobretudo a do medo e da tortura, nos dobrou a cerviz sem um pingo de resiliência?!...
Talvez aqui se assemelhe o 4 de Fevereiro de 1967 (e os de antes e depois) à alucinação colectiva de um entrudo etílico que nos encobre furtivamente a realidade. E aproveito o momento  --- cá está o perene no efémero --- para despertar os ânimos da gente afim de não permitirmos que o decurso dos anos e o deslizar imperceptível de certas  ideologias tomem conta de nós. Ceder um milímetro da nossa identidade é entregar ao carcereiro a chave da nossa liberdade. Quando acordarmos da anestesia global  chegaremos ao degradante cúmulo de  beijaremos as botas cardadas que nos esmagaram a cabeça. A nossa e a dos vindouros.
É por isto, também, que escrevo o SENSO&CONSENSO. É por isto que leio até à exaustão os SENSOS&CONSENSOS que, sob diferentes títulos,  muitos outros mensageiros amigos, como você, semeiam neste campo aberto e fértil das redes sociais.
A terminar: tencionava juntar um outro 4 de Fevereiro, o de 1961, véspera do ímpar dia 5. São intensas as fulgurações que daí emanam. Ficarão para outra oportunidade.
05.Fev.16

Martins Júnior