terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

EM DIA DE ZECA AFONSO, AS ATRIBULAÇÕES DE UMA IMAGEM

       Logo pela manhã estava escrito no meu travesseiro o Canto uníssono de Vinicius de  Morais (Operário em construção)  e de Zeca Afonso, hoje, o Dia da sua Memória. Os dois cantautores --- pessoas e não imagens --- acompanharam-me todas as horas do dia, pintadas de cravos vermelhos, mensageiras da poesia e da liberdade. Sempre vivo, Zeca Afonso!



        Retomo agora o fio à meada,  anteontem iniciada, sobre a Visita da Imagem Peregrina. Nem de propósito: ao terminar essas minhas considerações, ponho em dia a leitura da imprensa nacional  e  com incontido gáudio da minha parte vejo o grande teólogo e pedagogo Frei Bento Domingues, na sua crónica semanal, sublinhar esta verdade insofismável: “A idolatria confunde a imagem com a realidade”. Não teria desejado melhor prémio para o meu esforço. Porque, se bem vos recordais, foi esse o meu alerta perante a euforia, quase o frenesi, que a Visita tem suscitado. Como prometido, continuo hoje a caminhada, em vossa companhia, tentando desvendar e distinguir a diferença entre a racionalidade e a emotividade que tais eventos são susceptíveis de  provocar.
Estou a referir-me sempre à Imagem que comprime as multidões e à qual se dirigem encendradas  preces de milagres em carteira. Houve até um clérigo que em determinado estabelecimento de ensino se dirigiu aos alunos nestes termos: “Rezem-lhe para passar nos exames”…
Mas não foi esse o almejado rasto milagreiro que a Imagem deixou na Madeira. Pelo contrário, foi na vigência da Imagem que, em Fevereiro de 2010, os madeirenses conheceram a maior tragédia do século XX: um cenário apocalíptico de destruição e morte. Casas, campos, pessoas, adultos, e até crianças inocentes, um rosário tétrico de horrores sumidos na voragem das águas bravias. E, agora, em 2016, a Imagem não foi o melhor “seguro contra terceiros”. Outra vez, pelo contrário: as ameaças atmosféricas, os temores adormecidos, aeroportos fechados, milhares de estrangeiros impedidos de comparecer ao trabalho, estradas e escolas encerradas, adiada a festa da anona e até a própria bola aprisionada, com os clubes em compasso de espera. Pela aragem, não foi simpática a carruagem, nem auspiciosa a Imagem. Remontando à história lusa, atribuiu-se  ao  Mestre de Avis, D. João I, o cognome de “Rei, de Boa Memória”. Mas, pela evidência dos factos, a Imagem (é dela que falo) dificilmente escapará ao subtítulo de “Rainha, de Má Memória” . Contra factos não há argumentos.   
         Para encobrir a “maldição” que caiu sobre a ilha, o coro oficial da “tragédia” entronizou no pódio dos milagres uma imagem que, disseram e dizem, “milagrosamente escapou à fúria da tempestade”. TRADUZINDO EM VERNÁCULO: a Peregrina Imagem  teve mais amor ao gesso do seu pseudo-retrato do que à vida de quarenta e dois filhos seus, incluindo crianças indefesas!!!  Se acaso alguma mãe me estiver a ler, consulte o seu instinto maternal  e pergunte se seria capaz de preferir salvar da tempestade  o seu retrato em vez de salvar um filho! Nem a sentença salomónica consentiria. Concluamos o raciocínio lógico:  se uma mulher pecadora seria incapaz de tal barbaridade, achais que a Imaculada  Mãe, a mais perfeita de todas, cairia em tal aberração contra-natura?... Tenha senso na cabeça o coro clerical  e tenha tento na língua para não ofender mais a Senhora. Incriminem, se quiserem, a Imagem, (que é o que têm  sub-repticiamente escondido)  mas não ofendam a Senhora. Retomo Frei Bento: ”A idolatria confunde a imagem com a realidade”.    
         A Imagem teve honras de Estado à saída do portaló do avião. E os homens levaram-na por onde quiseram: praças públicas, templos altaneiros, escolas do ensino privado. Os acólitos governantes, os polícias de farda de gala, os motards, os bombeiros de luvas brancas.  Ai, se a Senhora falasse --- se fosse Ela, a própria --- teria desprendido as mãos, saltaria do andor e diria aos governantes faltosos: “Levem-me aos locais da tragédia de 2010… às quarenta e seis casas que ainda estão por reconstruir… às mães que perderam os filhos… aos filhos que perderam as mães … às vítimas que ainda sobrevivem”.
         Mas não é a Senhora que ali vai, às ordens dos feitores do trono e do templo. Nem estes ouviriam, afogariam até,  a sua voz angustiada,  se ela falasse. Aliás, tenho a convicção (como disse, um dia,  em Fátima a quem, a meu lado, contemplava a multidão alçada em lenços brancos) se Maria de Nazaré ali --- e aqui --- passasse, a pé, trajando na simplicidade e humildade das mulheres da sua aldeia, os “senhores de proa” teriam vergonha de acompanhá-la. E Ela, agora parafraseando o Pe. António Vieira, Ela “ficaria mui contente disso”.
         Termino, voltando a algumas críticas feitas ao  texto do Pe. José Luís Rodrigues, que motivaram estas considerações e às quais me apetece aplicar o veredicto do citado Frei Bento Domingues: “Acabam por sacralizar o ridículo”. Padre José Luís Rodrigues é um estudioso da Fé (já publicou um livro sobre o tema) e se quisesse ficaria calado, iludindo os crédulos, alimentando superstições, vendendo velas e locupletando-se à pala dos sentimentalismos doentios das devoções. Mas, porque é sério e tem a coragem de caminhar ao encontro da Verdade, ei-lo a esclarecer as almas de boa-fé. Bem haja!

23.Fev.16
Martins Júnior