domingo, 21 de fevereiro de 2016

SENSOS SEM CONSENSOS ACERCA DE UMA VISITA


Não estava no meu senso abordar um  tema  destes sem consenso. Até porque considero-o um não assunto, dado que imagens há muitas e tantas, tantas que nenhuma delas se parece com o original. Mas perante as acerbas críticas  atiradas contra  as judiciosas considerações do Padre José Luis Rodrigues sobre o caso, não posso deixar-me ficar inerte, sem senso nem penso.
Em primeiro lugar, deixai-me desabafar convosco a dura  sensação que tive,  pois tais críticas assemelhavam-se ao ardume dos Jeovás e do Reino de Deus quando criticam os católicos. Pareceu-me até ouvir as pedradas arremessadas pelos fanáticos islâmicos contra quem não segue Maomé.
Ora, assuntos destes não se resolvem nem sequer se discutem à estalada no braseiro dos nervos pseudo-religiosos. Porque cada um tem a sua própria sensibilidade, os seus dogmas e  contradições (todas respeitáveis, à partida) o que torna o terreno tão movediço como a lama que desabou dos penhascos da ilha. Para aqueles que vivem os traumas de uma   dependência estrutural, a Imagem é a bóia, o último barrote a que se agarram no meio do mais leve  contratempo. Mas para os que cumprem a ordem do Mestre ao paralítico --- “levanta-te e anda” --- a mesma Imagem é isso mesmo, bordão imaginário, inútil, contraproducente mesmo. Neste jogo de trapézios sem rede, as duas posições, ou as três, ou as dez, ou as mil, são todas admissíveis, tantas quantos os sinais  de trânsito da sua crença e dos humores do seu psiquismo. Aí, navega-se nos abismos da pura subjectividade.
Prosseguindo, porém, nos túneis da investigação objectiva, o mito que urge desvendar é o seguinte: afinal, quantas são as imagens peregrinas? Da sede “canónica” do Santuário de Fátima informam que são treze!... Treze cópias, treze fotocópias, treze carimbos a-três-dimensões. Podemos, então, dizer que são treze em uma ou o seu contrário: uma em treze. Complicado, mais complicado que o mistério da SSS.Trindade, três em um ou um  em três!
O facto é que o mesmo arfante olhar com que os madeirenses vêem “esta sua” Peregrina (como se fosse a única) também  com o mesmo ardor ofegante estão os açorianos a contemplar a “sua” (deles) Imagem Peregrina, ora em visita ao arquipélago vizinho.  Muito estranho e fantasioso  este peregrino exercício de ubiquidade! Em qual delas nos devemos fiar? Sem falar nas outras onze que andam a “peregrinar” por esse mundo fora. E todas, refulgentes de mãos postas, concitando a fé dos devotos como se cada uma delas fosse a única. Agradece-se a quem decifre o enigma e nos esclareça sobre o porquê de tão prolífero desdobramento de personalidade.    
         Esta “Senhora” duplicada, triplicada, poliplicada, lembra-me a igreja de Nossa Senhora do Coromoto, em Caracas, onde fiquei embasbacado perante nada mais nada menos que dezassete imagens da Fátima espalhadas pelas paredes do templo, ofertas prometidas por vários emigrantes. Os mais doutos estudiosos desta matéria dir-me-ão que se trata tudo de uma só e mesma Peregrina. E, pronto, está tudo explicado. Mas aí é-nos permitido concluir que, pela mesma lógica, todas as imagens da Senhora, quer estejam na igreja, na ermida, nos caminhos ou nas nossas casas representam a mesma Senhora. E os eventuais “milagres” que uma faz, todas as outras fazem. Porque todas representam a mesma pessoa. E se me objectarem, eu pergunto: Então quem faz o “milagre”, é a imagem de gesso ou é Senhora em pessoa?... Se me disserem que é a imagem, então aí, muito cuidado, vamos resvalar  pelos barrancos abaixo até ao abismo do mar, isto é, vamos cair na idolatria, a mais requintada  forma  de paganismo. E, sem querer, eis-me aqui a recordar a opinião de um intelectual quando, em 2010, lhe perguntei o que achava da visita, então em curso, da Imagem Peregrina à Madeira. “Paganismo” --- responde-me prontamente, como quem me dá um soco no estômago. Afinal, o professor pensador já tinha despertado  para as incógnitas que proponho hoje a quem me lê.
         Reparem que não me referi ainda à realidade “Fátima”, apenas reflicto sobre os rituais adjacentes à Imagem, enquanto tal. São perguntas sérias que, objectivamente e desapaixonadamente, faço a mim próprio e àqueles que procuram a verdade íntegra por entre a neblina de inverno que povoa muitas das nossas crenças.
         O nosso Deus, suponho, não se satisfaz com os crentes de fé cega, antes ajuda a que sejam esclarecidos os que O procuram.
         Vamos continuar.

         21.Fev.16

         Martins Júnior