sábado, 13 de fevereiro de 2016

TRÊS HERÓIS EM FEVEREIRO

Corro o risco de jogar em  contra-corrente neste fim de semana polvilhado de resíduos multicores. Prefiro pegar na corrente que há oito dias iniciei com a evocação
.do 4 de Fevereiro de 1967, quando o velho “Niassa” transportava urnas  sem identificação para soldados desconhecidos a caminho do “Cabo das Tormentas”, sediado em Cabo Delgado, nas margens do rio Rovuma. Terminei, então, essa memória --- triste memória --- apontando para um outro 4 de Fevereiro, o de 1961, dia em que o (já extinto vespertino) Diário de Lisboa  transcrevia um lacónico comunicado do Governo-Geral de Angola: “Na noite passada, três grupos de indivíduos armados pretenderam assaltar a Casa de Reclusão Militar, o Quartel da Companhia Móvel da Polícia de Segurança Pública e as Cadeias Civis de Luanda, os quais foram detidos e “restabelecida a ordem”.
Começara o longo e fatídico percurso da emancipação total das colónias portuguesas. Não é disso, porém, que me ocupo neste momento. É de um outro enorme “pormaior” que, para alguns, não passará de um mero pormenor, assinalado por dois historiadores luso-angolanos: Carlos Pacheco documenta que “na origem da rebelião de 1961, como seu inspirador, esteve Monsenhor Manuel Joaquim Mendes das Neves, mestiço, natural da vila do Colungo Alto e missionário secular da arquidiocese de Luanda”.  Por sua vez, Emídio Fernando refere o nome do Padre Dr. Joaquim Pinto de Andrade que ouvira da boca do seu colega “ser preciso quebrar o mito de que os angolanos gostavam de ser portugueses … e que não era preciso fazer uma guerra para vencer. Basta fazer um acto que dê brado lá fora e quebre o mito”, dizia.
Quero acentuar essa circunstância suprema e decisiva: dois sacerdotes católicos na vanguarda da libertação de Angola. Faço-o para não perder a sequência do apontamento da semana passada. Faço-o também
para tentar descortinar a luz no meio de tanto negrume e tanto obscurantismo reinante na vaga do devocionismo religioso, amorfo e anémico, que não é capaz de “mexer uma palha” para mudar o mundo, antes mesmo, atira as primeiras e últimas pedras contra os que sentem correr-lhe  nas veias a voz fumegante saída do Monte Sinai: “O clamor do Meu Povo chegou até mim… Vai, liberta o Meu Povo das mãos do faraó do Egipto”.
         É este um mito ainda por desvendar: a seráfica distância dos chamados religiosos e clérigos face às espinhosas lutas  do Povo crente. A abstenção, seja a que pretexto for e com que roupagem se cubra, não deixa de ser o que é --- a máscara do farisaísmo em pleno exercício de auto-defesa. Os crepes das devotas carpideiras da Via-Sacra-espectáculo, tais quais as sotainas nigro-rubras  do clã eclesiástico não são mais que as mãos cobardes mergulhadas na bacia de Pilatos. É muito cómodo, muito do agrado da instituição manter-se quieto, estar de bem com deus e com o diabo, alistar-se na cauda do batalhão dominante.
         Basta abrir, ao acaso, as narrativas bíblicas para nos depararmos com a militância do  “Senhor Deus  Iaveh” delegada nos patriarcas, profetas, juízes e líderes das populações oprimidas. Basta revisitar aquele vigoroso alerta do J:Cristo: “Pensais que eu vim trazer a paz à terra? Não, eu vim trazer a espada”! Basta ver o princípio e o fim de tantos mártires que nos primeiros três séculos do Cristianismo juntaram-se aos escravos para arrancá-los das garras dos imperadores!
         Anda o Papa por terras sul-americanas, onde as ditaduras e a corrupção navegam em águas largas e atravessam o corpo e a alma de milhões de sofredores. Apesar de recebido com honras de chefe de estado (privilégio inconsequente e que espero venha a conhecer seu voluntário empeachment) ele não se coíbe de denunciar os abusos dos magnatas opressores. Lembro a plêiade de lutadores, gente da Igreja da América Latina, que empenharam a própria vida, frontalmente, na defesa do seu Povo: Ernesto Cardenal, Óscar  Romero, Camilo Torres, Hélder da Câmara, De Escoto (este último condenado por João Paulo II e reabilitado por Francisco), enfim, tantos outros anónimos, inscritos no coração das pessoas e no chão térreo onde deixaram o corpo. Não será, pois, de estranhar que os obreiros da emancipação das colónias portuguesas fossem oriundos das missões cristãs, católicas e protestantes, presentes em África. Tive a felicidade de conhecer  os famosos “Padres Brancos”, perseguidos e expulsos  pelo regime salazarista, Sebastião Soares de Resende, bispo da Beira, Manuel Vieira Pinto, bispo de Nampula. Ao contrário, o grosso dos invertebrados bispos do Padroado, os “generais” da Igreja, de mãos amarradas  em profunda oração, mas logo livres e  prontas para assinar a deportação dos eclesiásticos non gratos ao Império, caso, entre outros, de Monsenhor Mendes das Neves e Padre Dr. Joaquim Pinto de Andrade (presidente honorário do MPLA). Depois de várias prisões em Caxias e Peniche, acabaram os seus dias, exilados e esquecidos em Ponte de Sôr e Vila Nova de Gaia. Do mesmo modo, o bispo de Timor,  Martinho da Costa Lopes --- esse, sim, o verdadeiro e único bispo que, sem comendas nem medalhas, entregou a  vida pela libertação do Povo Timorense.

         Com este apontamento, completo o filão inspirador da semana passada --- o 4 de Fevereiro --- e atiro para cima da mesa da reflexão comum a grande incógnita: a que estranha classe pertence um cristão institucionalizado para dispensar-se da militância directa na luta dos Direitos Humanos ?  Direitos Humanos que mais não são que Preceitos Divinos!
          Ficaria escassa esta página se não depositasse uma mancheia de cravos na memória intemporal da campa do General Sem Medo, Humberto Delgado, hoje, 13 de Fevereiro, dia em que se comemora o seu bárbaro assassinato, em 1965. Embora morto, a bandeira da sua luta flutua nos céus de Portugal. E do Mundo!

13.Fev.16
Martins Junior