quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

UMA MÃE TRIUNFANTE E UM FILHO CONDENADO - Contrastes pendentes na Ilha


Uma onda de euforia gregária está a tomar conta da ilha. E todas as artes comunicacionais estão a ampliar o batente gravitacional que sai da Imagem Peregrina e provoca sinais de sentido contrário: nuns a emoção contagiante, noutros a razão analítica. Tenho algo a acrescentar às propostas lógicas que, a propósito, teci nos dois anteriores  “dias ímpares”,  mas deixarei tudo para depois de passar a onda. O ruído espectacular  toldeia o pensamento, que se quer atento e sereno.
Outros  espectáculos, porém, começam  a abrir o pano do teatro insular: as Sextas-feiras da Via-Sacra e os Domingos do Senhor dos Passos. Teremos, então, de um lado, a Mãe em estrepitoso périplo triunfante e, do outro, o Filho,  mísero  condenado a arrastar pelas ruas de Jerusalém ( em todas as cidades há uma Jerusalém latente) o cadafalso do seu próprio assassinato. Digo assassinato e não digo suicídio, porque o que vai comemorar-se é um crime de sangue, perpetrado no patíbulo do “Monte da Caveira”, o Calvário.
Não levarão a  mal os meus amigos e amigas que me ocupe de mais um assunto de inspiração bíblica, pois que eu próprio, em todas as sextas da Quaresma,  também sigo a “Via Crucis”  no recinto contido onde me situo com os participantes no mesmo inquietante percurso. E, mais uma vez, deparo-me frente  ao duplo reflexo do fenómeno ocorrido com a Imagem: nos dependentes da emotividade primária, possui-os o sentimentalismo culpabilizante, atenuado pela dimensão do espectáculo de rua; noutros, os que têm a coragem da análise histórica, prende-os a totalidade factual do acontecimento, em busca da resposta a três questões fundamentais: Quem matou?... Porquê?... Para quê, ou, por outras palavras, quais os efeitos directos e indirectos, imediatos e futuros?...
Não será revelação de monta para ninguém se disser que, na generalidade dos casos, as representações dos Passos têm a intencional e premeditada preocupação de criar no consciente e subconsciente dos crentes um ambiente de desolação quase mórbida, de autoflagelação psicológica (“Jesus morreu por minha causa”) levada aos paroxismos da depressão, como no filme de  Mel Gibson,  ou  no insistente exibicionismo de um crucificado, derrotado e desnudo, ou ainda  nas aberrantes crucifixões, ao vivo,  nas Filipinas, das quais pretendem aproximar-se os espectáculos incruentos de certas manifestações de rua, reposição de ambientes medievais para crânios ávidos do “esquisito” e vazios de pesquisa histórica.
Por uma questão de coerência crítica, tenho de respeitar a sensibilidade de cada qual, mas aos profissionais de lágrimas alheias e semeadores de complexos de culpa, apenas recordarei a coragem estóica do mártir J.Cristo quando se dirigiu às mulheres de Jerusalém que, entre portas, choravam à sua passagem: “Por mim ninguém chor… Chorai antes por vós, pelos vossos filhos… e se isto fazem à lenha verde, que não farão à lenha seca”?!  Que tremendo aviso à sociedade para que não deixe que os poderosos  matem mais os mensageiros da Verdade!
 E aqui já se entra no primeiro patamar dos socalcos que levam até ao local do crime, o Calvário: Quem matou?... Escusado será dar voltas ao prego, basta a leitura linear do texto bíblico para termos a resposta inequívoca: Foram os detentores do poder, conluiados na mesma trama maquiavelicamente orquestrada - o poder político, consignado em Pilatos, e o poder religioso dos Sumos-Sacerdotes Anás e seu genro Caifás. Da interpretação literal do mesmo texto fica a saber-se que o autor material da sentença de morte foi o governador Pôncio Pilatos, mas o autor moral e o mais perverso foi o Templo de Jerusalém, a religião oficial. Sempre na sombra, nos bastidores da Lei, foi este poder religioso que, pela calada da noite,  organizou os “jagunços”  que gritaram diante do tribunal público: “Mata esse Cristo e liberta Barrabás”. E foram  esses poderes “sagrados” que ameaçaram Pilatos se não lavrasse a sentença fatal, sem  corpo de delito nem matéria de acusação formada: “Não vejo culpa nenhuma neste homem”.
Seria um bom acto de fé e merecida homenagem ao Grande Mártir injustiçado  se investigássemos a fundo esta Primeira Estação.  Chegaríamos à conclusão de que permanece enraizada, como sina e maldição, no corpo das sociedades humanas o monstro ancestral da Inquisição: sempre o poder religioso entregando ao poder político os que lhe são indesejáveis para exterminá-los em fogo e sangue.
É contra esse “status quo” de todos os tempos que o nosso J.Cristo manda lutar, quando constantemente repete aos nossos ouvidos o grito que os poderosos querem abafar: “Por mim ninguém chore!. Por vós, sim. Pelos vossos filhos”!
A Via-Sacra é dinâmica, não é passiva. Por isso, dispensa espectadores, exige intervenientes que mudem o rumo da História. A nossa, também.

25.Fev.16

Martins Júnior