segunda-feira, 7 de março de 2016

AS MULHERES NA TRAGÉDIA MAIOR DE JERUSALÉM – ANO XXXIII


É da praxe, hoje e  amanhã, pintar de feminino as páginas e os portais de tudo quanto é editorial. Porque estamos na envolvência do  artificioso Dia da Mulher. Chamo “oficioso”, interpelando-me, a mim  e ao mundo,  se todos os dias e todas as horas não lhe pertencessem, a ela, princípio activo da Vida! Vou, pois, trazê-la para a nossa tertúlia afectiva desta passagem de nível de 7  para 8 de Março.
Mas não é só – nem tanto – por isso. É também pelo mesmo impulso de entrar, com olhos de ver, no Processo de Jesus,  continuando a exposição do dia  25 de Fevereiro. Tentarei perceber qual o papel da Mulher em toda essa tramitação. Não serei, certamente, coincidente com as interpretações mórbidas da devoção  à deprimida “via-sacra” com que a tradição  trata as pegadas do Caminho da Cruz. Porque o que me atrai é a análise objectiva dos factos , no seu concreto e rigoroso contexto histórico-social.  
Por esta pista, penso alcançar a visão exacta da Mulher: uma personalidade firme,  coerente, inquebrantável, a que o pulsar do coração imprime aquela razão de que “o amor é mais forte que a morte”.  Para aí chegar, situei-me numa das colinas da Jerusalém do ano XXXIII, olhei  a paisagem sócio-político-religiosa da época em que a ditadura do Templo ombreava, senão mesmo, suplantava a ditadura do Império. O nazareno “Filho do carpinteiro” mestre José, além de servente de oficina, um proletário portanto, era tido aos olhos dos dois poderes como um perigoso agitador público. Não tinha exército, não tinha púlpito,  não tinha banca. Nem o  traje o diferenciava da “arraia-miuda” do seu tempo. Por isso, tinha contra si a omnipresente vigilância do estado romano e do estado judaico, eram marcados os seus fãs e só não o liquidaram mais cedo porque o seu escudo estava na multidão crescente que dia-a-dia o acompanhava. Ao mínimo sinal de dispersão, caíam-lhe em cima. Ontem como hoje, os ditadores temem o Povo unido!
É aqui mesmo que entram as mulheres de Jerusalém. Quantas delas se não deixaram fascinar pelo olhar meigo e vigoroso do Nazareno, pela sua  palavra penetrante e aconchegada?!... No emocionante texto d’O Processo de Jesus, Diego Fabri revela um dos mais convincentes libelos  acusatórios, o que foi atirado por Caifás “Esse homem é um sedutor das multidões”. Mas na hora das trevas, desde aquela noite trágica em que  traiçoeiramente foi denunciado e entregue às garras do poder, todos os “amigos do peito”  dispersaram, um deles até, transido de medo,  jurou que não o conhecia. Quem ficou? Quem o acompanhou até ao patíbulo?...  As mulheres. Primeiro a Mãe, que deu com ele numa das empoeiradas ruas da velha cidade, abandonado aos jagunços contratados pelo poder. Os dois olhares, que dolorosamente se cruzaram, foram como dois rios que, em vez de correr para a foz do desânimo, ganharam força hercúlea para subir à nascente, às fontes do monte  Calvário.
Depois, veio a “Verónica”, designação que passou a identificar aquela mulher anónima que teve a suprema ousadia de romper o pelotão dos soldados e carrascos afim de limpar a face irreconhecível daquele que sempre o conheceu, de porte atraente e afável, compreensivo e bondoso para todos. Não consigo passar adiante sem demorar-me nesta sexta estação: aquela mulher, coração de gigante, não consentiu no que via,  furou a muralha de ferro bruto que esmagava o condenado e apresentou a arma que a todos deixou estarrecidos: uma toalha de linho puro a restituir-lhe o rosto de outrora. Eu faço ideia dos empurrões, dos insultos e palavrões de caserna, vociferados contra ela e o seu Mestre. Mas não hesitou. Vejo nela uma Joana d’Arc, uma Maria da Fonte, uma Catarina Eufémia! Mulheres de luta e de coragem!
Outras mulheres, nos quintais e nas portas entreabertas das suas casas, com medo das retaliações dos olheiros do poder, ou acompanhando na retaguarda o lúgubre cortejo, enxugavam furtivas lágrimas de compungida indignação. A essas o Mestre, em agradecimento,  ditou-lhes a palavra de ordem que até hoje nos é dirigida: “Não choreis por mim, mas pelos vossos filhos” (Lc.23,28), o mesmo que dissesse: “Por  mim e do que me fazem, ninguém pene, ninguém se indigne. Indignai-vos, antes, pelo que os poderosos vos fazem a vós e pior farão ao vosso Povo”. Mais que as choronas "devotas", o nosso J. Cristo, quere-as, as mulheres, intrépidas e lutadoras.  
Até ao último suspiro, como se fossem estátuas vivas da Dor, lá estavam elas, sempre as mulheres: “Sua Mãe, a irmã dela, Maria de Cléofas, e Maria Madalena” (Jo, 19, 25). Dos homens, dos Doze, nem sombra. Todos se acobardaram, excepto o mais  jovem, João, filho adoptivo de Maria. E, para recebê-lo nos braços, já morto, sempre uma mulher, a Mãe, líder inspiradora e silenciosa da luta do seu Filho!
Por isso, mereceram as mulheres erguer, como pioneiras bandeirantes, a grande mensagem da Vitória na manhã da Páscoa do Ano XXXIII.
Mulheres que vêem e entendem. Mulheres que lutam e libertam.
Mulheres de ontem!
Mulheres de hoje!
Mulheres de sempre!

07.Mar.16

Martins Júnior