sexta-feira, 25 de março de 2016

Na celebração do crime … ENTRO, MAS SOB PROTESTO!

 

Esta é a crónica que nunca desejara escrever. Porque este é o crime que nunca imaginara “ver” sob os meus olhos nem muito menos no cenário da minha memória.
         À hora em que escrevo, sinto os passos daquela multidão que corria para as suas casas batendo no peito. Oiço o pulsar e a voz do oficial centurião romano, comandante da tropa que levou a cabo a operação “assassinato” do Nazareno: “Agora reconheço que esse homem era um justo” (Lc. 23, 47)- eco magoado, mas tardio,  do plenipotenciário Pôncio Pilatos que, antes de  lavrar a sentença capital contra J:Cristo, exclamou perante os acusadores em satânico delírio: “Não acho matéria de crime neste homem” (Jo. 18,38).
         E, no entanto, entregou-O  à sevícia dos carrascos. Então, como? Se o juiz Pilatos não encontrou matéria de acusação,  por que  O  mandou para fatal cadafalso?
É com este nó atravessado na garganta que me custa entrar no cortejo da chamada “Via-Sacra”. Entro, sim, mas sob protesto! Contra a tibieza de Pilatos que se acobardou à pressão do poder religioso. Protesto contra os Sumos Sacerdotes do Templo, instalados no  topo da hierarquia da religião judaica. Estes, os autores  principais, únicos, deste horrendo atentado: sob as vestes bafientas mas tenebrosas da “Lei” esconderam-se na sombra e mandaram para a arena das ruas de Jerusalém  os soldados, os marginais, os criminosos das cadeias que bradavam liberdade para  Barrabás. Protesto contra a subversão das normas processuais então em vigor, atirando J:Cristo de tribunal em tribunal, o religioso (Sinédrio) e o judiciário (Pretório). Foi a antecipação da Inquisição, sempre o poder religioso e o poder político maquiavelicamente  conluiados, não se sabendo onde acaba um e começa o outro, para queimarem na fogueira pública da mais vil hipocrisia aqueles que rompem a treva e levantam o facho purificador da Verdade e da Transparência.
         É um turbilhão de íntimos sobressaltos que tomam conta de mim nesta fatídica sexta-feira do crime histórico. Protesto contra todos esses poderes hierárquicos, a dois níveis, que fazem da Via-Sacra uma “diversão” para os olhos e um anestesiante da consciência crítica,  pomposamente  arregimentadas (nada de mais disforme da verdade dos factos!) percorrendo cidades e aldeias, fazendo crer que o nosso Cristo se deixou matar, como se de um suicida se tratasse, “pelos pecados do Povo”, quando é o Povo a vítima  constantemente sangrada e apetecida dos poderosos. Protesto!  Jesus foi assassinado pelos crimes dos  que  pervertem o Povo, distorcendo a realidade: os detentores do capital, da ditadura, do domínio, seja ele profano ou pseudo e atrevido domínio “sagrado”.
Faço minhas as palavras de Anselm Grun: “Para Luther King, a Paixão de Jesus indicava um caminho para os cristãos manifestantes  se revoltarem pacificamente contra a injusta  segregação racial e para destituir o poder estatal, frequentemente bruto e desumano”.
Perdoem-me a impaciência, mas não consigo prosseguir.
Na nossa Via-Sacra, acompanhou-nos uma cruz. Sem crucificado. Não se percebe a atracção dos crentes por um Cristo, quase nu, derrotado e vaiado, como se os denodados defensores da Verdade tivessem sempre como prémio a derrota e a ignomínia. Acabemos com o prazer mórbido de ver condenados os inocentes. O nosso J:Cristo quer quem O tire de lá, quem faça ressuscitar as causas pelas quais teve de suportar toda a vida os ataques dos barões da religião.
Naquele cruzeiro vazio estamos nós, estão  todos os que lutam contra as quotidianas condenações de tantos Cristos vivos.
 Para apaziguar  a minha mais profunda indignação, fui visitar amigos meus, presos a uma outra cruz, uma cama do hospital. Aí, recordei-me do “Príncipe da Língua Portuguesa”, o Padre António Vieira, em São Luis do Maranhão, há mais de 400 anos:
  “As imagens de Jesus Crucificado que estão nas igrejas são imagens falsas, porque não padecem nem sofrem. Imagens verdadeiras de Jesus são os pobres, os doentes, esses sim é que padecem”.
Que o protesto se transforme em força maior e manhã de Páscoa!

25.Mar.16

Martins Júnior