quarta-feira, 13 de abril de 2016

“BEIJA-FLOR”

No "Dia do Beijo" gratuito e necessário. E dentro da Festa da Flor



Quanto a amei
Amei-a fora da lei
Dos códigos cifrados que a cidade tece
Amei-a
Como na selva se ama
Deitei-a no chão-cama
Do meu terreiro
E o terro da cor do castanheiro
Ficou palácio real
Só porque nele eras rainha
Fiz-te lençóis de água cantante
E tornei-me fiel escudeiro
Contra invasoras hostes do levante

Cresceste com beijos coloridos
A todo o viandante
Que passasse
E ensinaste
Que sempre o amor puro dá-se
De pronto e de graça
Ao caminheiro sedento que passa

E tu eras assim
Pródiga e frágil
Vestida da nudez clara do meu jardim
À tua mesa
Vinham esvoaçando de êxtase
Asas de seda e framboesa
Beber o mel da tua boca
O sumo perfumado da corola
Porque terra mar e céu
Moravam todos
No teu secreto gineceu

Até que um dia te levaram

Vi-te no empedrado e nos salões
Prisoneira de olhos estranhos e mãos-cifrões
Vi-te estendida morta
Cobrindo a laje
Das vítimas caídas diante dos canhões
Vi-te pisada
Pelo sardanapalo calçado de verniz
De quem se diz
Trazer os pés sofridos do Crucificado

Triste sorte
A flor de sua sina
Bela intocada virgem-menina
Espera-a a prematura morte
No rude corte
De mão assassina

Ninguém mais saberá dela
Da ametista açucena, da orquídea estrela

Será talvez a sua palma
Esse martírio de alma
Errante no parto condenada
Congénita cigana  
Sempre aquela  refugiada
Às mãos de quem a prende e a engana

É a sua epopeia

Por isso amei-a
Com aquele amor-primeiro
E só queria vê-la beijá-la
No chão-cama
Do meu antigo terreiro

13.Abr.16
Martins Júnior