terça-feira, 5 de abril de 2016

CONTRA O GENOCÍDIO ENCAPOTADO – Os ladrões envernizados e os migrantes de luxo


Por mais vistosos ou sugestivos que fossem outros temas,  nenhum deles poderia abafar neste dia o clamor que irrompe das profundezas do mundo neste dia de Abril. Junto-me, pois, ao coro gritante que os jornais, as TV’,s e as redes sociais levantam contra o crime organizado dos malditos paraísos que um punhado de demónios escavou nos subterrâneos do planeta. E faço-o, porque me estala a consciência a palavra de ordem, tantas vezes proclamada: “Vimos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”!
Todos nós vimos, ouvimos e lemos a descoberta, talvez a maior até hoje nos “media”, do tenebroso escândalo que dá pelo nome de Panama Papers, esse memorável trabalho de jornalistas coligados, a nível internacional,  que durante quase um ano investigaram, sob sigilo comum, a orgânica dos offshores naquele país. Milhões, biliões, fortunas sem rasto, filhos de ventres incógnitos e herdeiros do sangue, suor e lágrimas dos pobres da Terra! Tudo isso trancado em, para eles, paraísos e, para nós, infernos abrasadores! Agora percebe-se aquela cruel equação que envergonha a condição humana: só 1% da humanidade detém a riqueza do mundo, à custa dos 99%  que dela carecem.
Remeto os meus amigos para a comunicação social justa e competente, por onde ficamos a saber os tais  “herdeiros–donos disso tudo”, desde reis e presidentes das nações, banqueiros, gestores, cineastas, deputados e até futebolistas super-milionários.  Tudo gente importante, gente “séria”, raça de eleitos, ladrões de smoking envernizados, a quem nos mandavam beijar as mãos e os pés.   Oxalá não apareçam sotainas de bispos e  cardeais, embaixadores do Vaticano, o velho Vaticano, aquele que antes de Francisco Papa lavava dinheiro sujo nas catacumbas de Roma…
  De um único escritório de advogados – o Mossack Fonseca – sediado no Panamá, surgiam e cresciam como cogumelos venenosos empresas ocultas sem conto, que escondiam (e escondem) em cofres  frigoríficos, tão gelados e insensíveis como a consciência dos seus detentores, os corpos e até as almas dos que mourejam de sol-a-sol, curvados sobre a terra, presos à penosa ferramenta do trabalho que (talvez, alguns não)  têm, enfim, descapitalizam o erário público e obrigam os contribuintes indefesos a pagar duros impostos. Só de Portugal saem dois milhões e meio por dia, a caminho de bancas-fantasma.
É insuportável conviver com os “jihadistas” do dinheiro. Em que difere o sofisticado  terrorismo capitalista, agora posto a nu, do bárbaro terrorismo bombista   de Paris, Bruxelas, Madrid e quejandos? É com  dinheiro dos offshores que se compram as armas assassinas. E  são eles, os financiadores sem escrúpulos,  que sadicamente e impunemente praticam o mais sangrento genocídio encapotado, em morte lenta,  de pessoas e nações inteiras. Os autores da lei são os autores do crime. Ainda por cima, alguns deles são considerados beneméritos sociais, organizam promoções comerciais, oferecem donativos a instituições… enquanto, á socapa e protegidos pela lei, furtam-se aos impostos na sua pátria, ufanam-se de pagá-los noutros países onde lhes pinga mais doce o “cacau”, enfim, outros até negoceiam drogas, recrutam combatentes e proxenetas, traficam seres humanos. Que execranda, malfadada sorte nos coube! Em pleno século XXI.
Não haverá maneira de exterminar o crime organizado, falsamente legalizado?  Vamos assistir indiferentes e enxutos a esta contradição nuclear: enquanto os miseráveis migrantes refugiados de guerra imploram uma nesga de paz na Europa, os  multifundiários da alta finança fazem vida de migrantes de luxo, saltitando de offshore em offshore conforme a avidez dos seus apetites?!


Ninguém encolha os ombros, julgando-se impotente. Primeiro que tudo, é preciso saber disto, seguir a boa informação, conhecer os meandros dos terroristas financeiros. Mesmo perto de nós. Ainda está por esclarecer cabalmente  se aquele “negócio”  da chamada Zona Franca e respectivo paraíso fiscal , onde um escritório, sediado no Funchal, é susceptível de acolher ou receptar dezenas e centenas de firmas,  configurar-se-á  (ou não) com outros  Mossack Fonseca em miniatura.  Ainda está por  saber se, com  aquele empreendimento, ficaram os madeirenses a ganhar ou a perder. Estaremos nós, a troco de tostões,  dando passagem a contrabandistas que lucram milhões?  Fica no ar a grande incógnita.
Temos também outra arma contra o banditismo legalizado: peguemos nela, aquando do acto eleitoral, rejeitando os encobridores-legisladores do crime e votando naqueles que proclamam a abolição dos paraísos fiscais, à escala mundial.
“Vimos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”!
O editorial de Le Monde, pela mão de Jerôme Fanoglio, classifica de  vertige et nausée (vertigem e náusea) esta torrente de dinheiro sujo,  sem cuja proibição jamais serão credíveis os programas governativos de qualquer país. Entre nós, ocorre oportunamente recordar, para combate-los, Os vampiros que bebem o sangue fresco da manada, Comem tudo e não deixam nada, repetindo Zeca Afonso, o precursor e construtor do nosso Abril.
Contra o genocídio encapotado e lento, contra a geo-corrupção, abrir os olhos e… marchar, marchar!

           05.Abr-16
         Martins Júnior