quinta-feira, 7 de abril de 2016

NÃO É SÓ DO PANAMÁ – “O PROBLEMA É NOSSO”


Hoje, renuncio ao prazer de escrever, de burilar as palavras, enquanto serviço ao “Prazer de Ler”, na bela expressão de Roland Barthes.  Pelo contrário, hoje não escolho palavras nem convido ao descanso. Nem serão minhas as palavras. Vou  bosquejá-las nas leituras que por estes dias nos caem em cima, através dos jornais e respectivos comentadores.  No estrangeiro e em Portugal.
         No último texto tentei aguçar a atenção para o clamoroso escândalo dos Panama Papers.  Porque o caso é connosco também. Esse veemente protesto alastra por todo o mundo. Os termos mais aplicados em artigos de opinião vão desde “escândalo”, “náusea” (Jêrome Fenoglio)), “túnel de esgoto, por onde passa o dinheiro negro daqueles negócios que geram lucros fabulosos para alguns  e  dívidas públicas mastodônticas” (Eduardo Dâmaso) “veículo para o crime organizado” (Lobo Xavier), “polvo gigante”  “terrorismo financeiro” (F.Gonçalves)  “lógica da selva e pornografia fiscal” (Pedro Ivo Carvalho).
         Acerca dos agentes e beneficiários do gabinete da ‘Mossack e Fonseca’  os analistas não poupam qualificativos, tais como  “os corsários financeiros” (Raul del Pozo), “elites financeiras políticas e criminosas –qualidades que muitas vezes se cruzam no mesmo indivíduo – ou seja, que países, como o Panamá ou as Ilhas Virgens, são santuários para grandes fortunas” (Rafael Barbosa). O Panamá é considerado como um “passageiro clandestino num mundo que se quer normal” (Arnaud Leparmentier): clandestino sinónimo de contrabandista, eventual bombista, enfim, um malfeitor da humanidade. Os grandes tablóides, desde o Suddeutsche Zeitung  até ao Guardian referem-se ao caso do  Banco   HSBC que ajudou a salvar os milhões de Rami Makhlouf, um dos gestores da rede corrupta denunciada nos papéis do Panamá e primo do ditador Bashar al-Assad.
         São muitos e imperiosos os avisos de vários países representados na OCDE, os quais são unânimes em afirmar que um “mundo globalizado sem ética e sem transparência tem em si o gérmen da sua própria dissolução”.
         Poderia continuar com muitas outras e eloquentes imprecações contra a “chantagem do Panamá” (Carlos Segovia). Registo o  apelo do supra-citado  Raul del Pozo: “Oxalá que o esforço dos mais de 300 jornalistas, agregados no Consórcio Internacional de Investigação, sirva de  “despertador da ira dos contribuintes”.  E termino, citando por todos, o editor executivo adjunto do Jornal de Notícias, na sua edição de ontem:
         “O problema é nosso. Aquele dinheiro que não pagou impostos poderia ter sido gasto nos nossos hospitais, nas nossas escolas ou nos nossos tribunais. Aquele dinheiro que não pagou impostos é o mesmo que, sob a forma de branqueamento e ocultação de operações financeiras e demais expedientes,  levou à ruína do BES, do BPP e do BPN. Pagos por quem nós sabemos”, (nós, os contribuintes)… “A sem-vergonhice dos clientes da ‘Mossack e  Fonseca´ permitiu que o capital e os bens de 1% dos mais ricos (cuja fortuna supera a riqueza mundial) possam circular livremente sob o anonimato fiscal que não aplica a mesma benesse aos restantes 99%”.
         O problema é nosso. E a solução também. Foi a voz persistente do povo islandês que provocou a queda de um dos clandestinos dos offshores, o Primeiro Ministro do seu país.
         “Vimos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar”.
        
07.Abr.16
Martins Júnior