sábado, 9 de abril de 2016

NO MEIO DO BULLYING E DO NEVOEIRO, HÁ ALGUÉM QUE RESISTE


Em fim de semana – e que semana! - o que apetece é respirar, estender corpo e alma  no chão da terra verde, ao gosto do “Guardador de Rebanhos”.  Mas nesta semana exclamativa (!) também nos chega o eco perturbador do fim da “Mensagem” quando Pessoa nos envolve no “nevoeiro”, não só do país mas do mundo à nossa volta, acabando por constatar que “tudo é disperso, nada é inteiro”.
De entre tantos, dois acontecimentos vieram toldar o pavilhão onde habitamos. Um, o ensaio de bullying entre um par de  adolescentes velhos, o  ministro e o jornalista, tipo duelo de outras eras, o qual ensaio, mesmo levado a sério, outra reacção não  merece além de umas gargalhadas de caserna. O certo, porém, é que a comédia dos brandos costumes acabou em naufrágio ministerial. Mas o prometido “par de bofetadas”  é,  não raras vezes, o receituário recorrente  - dito e não escrito – de muito boa gente que por aí anda ou vegeta em palanques e carroças. Para nós, madeirenses, nada de novo, já herdámos a  cartilha de um “governador ”, tão hilariante quanto perigoso. Muitos estalos foram dados na honra, na carreira e até no pão de  famílias e instituições, cujo único crime foi o de exercer o seu direito de expressão. A aplicar a mesma sanção, tentem contar quantas vezes ele e seus comparsas seriam  demitidos.  No entanto, aguentaram-no lá mais tempo que o ditador-mór do velho regime português…
“Nada é inteiro” nesta forma de habitar a terra. Oxalá, o recente bullying verbal dos rançosos litigantes sirva para reaprendermos a ciência e a arte de sermos diferentes e até adversários, mas nunca terroristas em “vias de facto”.
E “tudo é disperso”! É o segundo acontecimento desta semana: os “Papéis do Panamá”. O crime anda à solta, onde quer, como quer. E tudo abafado  de gravatas e cortinas da mais fina sede. Que execráveis trastes, esses  traficantes nauseabundos! Os chamados “golpes de mão” e os assaltos por esticão que enchem primeiras páginas  são puros eufemismos, comparados aos piratas especuladores que por aí pululam espaventosamente diante dos nossos olhos pálidos de tristeza e mesmo de fome, nalguns casos. Até quando?... Lamentava-se, enfurecia-se anteontem um  jornalista muito atento que passo a citar: “Jamais haverá unanimidade entre países para acabar com os paraísos fiscais. Se há um predador que desiste, há logo outro que toma o seu lugar”. Quando levantar-se-á um povo, como o da Islândia, para apear do trono um alto presidente e bradar que “o rei vai nu”? Ou como os britânicos que obrigaram Cameron a retratar-se, confessando publicamente que também se serviu à mesma mesa dos “vampiros” dos offshores? E entre nós, os secos, os doces e os salgados?!
“Tudo é disperso, nada é inteiro”.
Por entre o “nevoeiro” e no meio deste vulcão sobre o qual muitos de nós inconscientemente navegamos, há sempre uma voz que se levanta, suave como a brisa mas contundente como o trovão que limpa as estruturas do planeta: a voz de Francisco Papa, quando anuncia que vai pessoalmente à Grécia proclamar na  Ilha de Lesbos, mártir de mártires, que os refugiados de guerra são vítimas do terrorismo financeiro personificado também, dizem os comentadores, nos ditadores presidentes da Síria e da Arábia Saudita, clientes sanguessugas nos offshores do Panamá e fomentadores do terrorismo armado.
Voz  –  a do longínquo argentino – que abre um novo espaço de paz e realização humana, quando recomenda à Igreja que alargue os braços compreensivos  aos “cristãos imperfeitos, como os divorciados, os recasados” e até os de orientação sexual diversa. O ancião de corpo, mas o Jovem conquistador da Ideia e distribuidor da verdadeira essência do Amor!
À opacidade nebulosa dos poderosos oponhamos a corajosa transparência que a todos conforta e liberta.

09.Abr.16

Martins Júnior