quinta-feira, 21 de abril de 2016

Breve Tríptico experimental de todos os “Abris” ANTES – DURANTE – DEPOIS


Dos três dias ímpares que anunciam “Abril em Portugal” – esse o único Dia Ímpar para a nossa geração – extrairei a tese, a antítese e a síntese, inerentes ao processo histórico-científico de todos os Abris, de todas as revoluções que fizeram guinar a agulha magnética dos destinos de cada país: do nosso e de todos os outros. Dedicarei, pois, os dias 21, 23 e 25 a esta análise, tentando demonstrar a inevitabilidade das revoluções perante as mesmas causas no terreno e, de permeio, podermos enfrentar com serenidade e firmeza as tempestades cíclicas da História. Sei que é longa a caminhada, pelo que procurarei torná-la mais curta e acessível.
As transformações de um país, em todos os tempos, seguem o ritmo dos grandes rios: nascem nas águas jacentes da terra e desaguam no mar azul de um futuro maior, Sucintamente, abrirei as páginas da nossa História, onde podemos monitorizar o  Antes – chamemos o “caldo” circunstancial - que estremeceu as estruturas de Portugal, em 1383-1385, mais tarde em 1640 até alcançarmos 1910. A esta luz que vem de longe veremos mais de perto a lógica do “25 de Abril de 1974”.
É um dado insofismável que o movimento pendular das civilizações oscila entre três apoios fundamentais: a economia, a política e a cultura, São (volto a repetir) o “caldo” perfeito que sustenta ou abala uma sociedade e o seu povo. Quanto mais aguda for a sua simbiose, mais incisiva será a infecção do organismo social, originando a ablação do vírus perturbador.
Na Revolução de 1383-1385, a vacilante condução política do reinado de  D. Fernando – “Um fraco rei faz fraca a gente forte”, bem o disse Camões – debilitou irremediavelmente todos os sectores económicos da nação, manietada pelos interesses da nobreza castelhana, personificada no Conde de Andeiro. Para ilustrar as míseras condições de pobreza entre a “arraia miúda”, diz o cronista coevo, Fernão Lopes, e testemunha ocular dos acontecimentos: “Na cidade não havia trigo para vender e se o havia, era mui pouco e tão caro que as pobres gentes nem podiam chegar a ele … começaram de comer do pão de baga de azeitona e dos queijos de malvas e raízes de ervas … Desfalecia o leite àquelas que tinham crianças a seus peitos por míngua de mantimentos e, vendo ‘lazerar’ seus filhos a que acorrer não podiam, choravam amiúde a morte sobre eles antes que os a morte privasse da vida”…
Acresce a influência das instituições culturais, então consignadas à Igreja. Era o tempo da privilegiada aliança Igreja-Estado. E o Bispo, que tomou partido pelos de Castela, foi publicamente assassinado pelo povo de Lisboa.
A mesma conjuntura repete-se, quase em decalque da anterior, aquando da  Restauração da Independência após a crise de 1580, culminando com a libertação do domínio dos “Filipes” em 1 de Dezembro de 1640. Portugal era então uma colónia de Madrid, de onde o Rei dispunha a seu bel-talante, com total indiferença pelo povo português. O testamento de D. João IV atesta-o, à evidência, quando este justifica a aceitação do trono “não por qualquer respeito à minha pessoa, senão por livrar os reinos que me pertencem das misérias que lhe via padecer em estranha sujeição”… Ao mesmo elenco de entidades de domínio público, na área da educação religiosa, pertence o Arcebispo de Braga – sopravam já os ventos da Inquisição – o qual, por ter-se aliado aos partidários da coroa filipina, foi preso nas masmorras da Torre de Belém, onde veio a falecer.
São sempre os três vectores decisivos para a movimentação de um povo: o político, o económico e o cultural.
Sem querer alongar-me, convido os meus amigos a compulsar o pesado processo da evolução da Monarquia para a República. Era a “idade de ouro” da nova era industrial, com todos os efeitos colaterais que lhe estão associados. As falências no sistema bancário levaram o governo português a contrair dívida externa, cujo pagamento foi, mais tarde,  compulsivamente exigido pelos países credores. Os problemas com a Coroa Britânica e as possessões africanas (recorde-se o “Ultimato Inglês”), o contraste do luxo da Corte com a miséria da população rural, a que se juntavam os conflitos dos operários fabris, tudo  isso originou o tal “caldo revolucionário” que explodiu no assassinato do Rei D. Carlos, seguindo-se-lhe a implantação do regime  republicano.
Assinale-se, na sua fonte, a poderosa influência da vertente cultural no percurso libertador contra o “ancien régme”, sobretudo com o famoso “Grupo dos Cinco” (Antero, Eça, Junqueiro, Ramalho e Oliveira Martins) precursores da Ideia Nova, de teor vincadamente anticlerical, recriminando à Igreja Institucional o atraso das populações. (Vide Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, Conferências do Casino, de Antero de Quintal).
 Sendo longo, acabo por ser escasso. Fica apenas este feixe de considerações sobre as raízes comuns a todas as revoluções para tentarmos ler a radiografia dos saltos e sobressaltos da História. As mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Inelutavelmente. A Libertação na alvorada do “25 de Abril” também. Fique ainda esta proposta: Se não queremos revoluções traumáticas, façamos em todos os dias uma conquista de Abril

21.Abr.16

Martins Júnior