terça-feira, 19 de abril de 2016

UM PAPA POPULISTA?...


Fiquei deveras surpreendido com o elevado número de leituras que mereceu o meu último convívio convosco, não obstante o título que, à primeira vista, tornava-o antipático e, no mínimo, indigesto. Apreciei as várias partilhas do texto, os comentários, sobretudo o do Dr. Gaudêncio Figueira que destacou um parágrafo que, porventura, tenha passado liminarmente desapercebido, o qual sublinhava o pesado encargo financeiro e logístico que impenderia sobre Francisco Papa se acaso tivesse o temão governativo de um eventual país de acolhimento. É verdade, mas também não é menos verdade que, perante a tradição imperialista do Pontificado Romano, recai sobre os ombros do actual Pontífice uma hecatombe de insinuações, impropérios e ameaças, vindas dos quadrantes político-religiosos auto-proclamados defensores acérrimos da pureza evangélica do “Depósito da Fé” -  sofisticado disfarce de um passado faustoso do empório vaticano. Veja-se o recente duelo verbal de dois cardeais da Cúria Romana: o cardeal W.Kasper, ao lado de Francisco e, em arrepiante contraste, o cardeal Gehrard Muller, ainda por cima, coroado como supremo titular do Sagrado Tribunal  da Doutrina da Fé Católica.
         Mas, de entre os contundentes aleives que os detractores do Papa lhe lançam em rosto, o mais capcioso  é o de acusá-lo do mais rasteiro populismo. Só lhes falta apropriar-se  abusivamente de Karl Marx e dizer que o Papa Francisco “é o ópio do povo”. Interroguemo-nos olhos nos olhos: Será Francisco um Papa populista? … É a questão que, muito judiciosamente, põe Jorge Bustos , na secção “La Ultima Coluna” de “EL MUNDO”, contradizendo  “a ideologia liberal  que o acusa de peronismo jesuítico”.
         Reflictamos.
         O populismo tem por objectivo dissimulado a conquista do poder e, daí, a implantação do autoritarismo. Um outro escritor, Jean-Marie Colomban define que a “estratégia  populista  alimenta a necessidade de um salvador, a urgência de um ‘super-herói’ que, uma vez no poder, usa e abusa de todos os meios belicistas para implantar um regime de ditadura”. Casos não nos faltam, todos somados no protótipo mais execrável do sargento Hitler que, começando pelas bases populares, manejou habilmente a ideia patriótica  do nacionalismo alemão, até desembocar  no monstruoso regime nazi. Comparar  o bispo argentino Georgio Bergoglio ao ditador populista dos fornos crematórios é o mesmo que chamar luz às trevas -- e às trevas chamar luz. Quem será capaz de encontrar no humilde trato, sensível e humano, do pré-octogenário  Francisco as tentaculares ambições do domínio temporal de muitos Papas que o antecederam?... Que ganhou ele com o combate ao sacrílego Banco do Vaticano e toda a chusma de cardeais e banqueiros que aí lavavam dinheiro sujo?...  Que reino pretenderá ele erguer ao tocar com as próprias mãos as chagas que a “economia que mata” abriu no corpo exangue de milhões de seres humanos?...
         Está nos seus antípodas qualquer tentação de autoritarismo ou vanglória mundana. Nem sequer o move a teatralidade congénita  de João Paulo II, ídolo das multidões e delas pendente até ao último suspiro. Tenho para mim que Francisco Papa mais ama  a intimidade directa, coração-a-coração, do que a  hipnose colectiva das manifestações a perder de vista. Ele, sim, o Irmão-Homem dos Afectos, o apaixonado seduzido pelas periferias, claramente  avesso aos protocolos presidenciais dos poderes do mundo. E se, pontualmente, os aceita, é porque ainda não chegou a sua hora de renunciar ao Estado do Vaticano. Um dia chegará!
         Termino com a mesma conclusão do articulista citado: “Os que acusam o Papa Francisco de populismo ignoram que Jesus Cristo protagonizou tantas cenas que poderiam classificar-se  de populistas, como curar doentes, multiplicar pães e peixes…E os que lhe exigem maior rigor teológico esquecem a prioridade que o Fundador da sua Fé dedicou aos deserdados da terra”.

19.Abri.16
Martins Júnior