sexta-feira, 13 de maio de 2016

A VENDA DE LEMBRANÇAS E PRESENTES ATINGE 30 MILHÕES… UM QUARTO, POR UMA NOITE, 300 EUROS… HOTEIS ESGOTADOS EM 2017…

                                                       


Hoje Portugal veste-se de treze. Logo hoje, sexta-feira. dia treze – a data “fatídica” que aterrorizava Frei Dinis, das Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. O dia em que o tão poderoso quanto supersticioso “Rei” Roberto Carlos nunca sobe a um palco para cantar. Per fas et nefas (”seja como for”) o certo é que, em chegando a Maio, crente que reze e turista que se preze envergam o nº13 de uniforme. Agitadas as campânulas dos corações, todos de longe ou de perto acorrem ao Santuário que tomou por toponímia o nome da filha de Maomé, “Fatuma”, de seu muçulmano baptizo.
Pisando o chão da Cova da Iria ninguém ouse pisar a crença de cada qual. Mora no mais secreto e indizível Tabor a sua fé, fonte de todos os gestos e expressões. É nesta postura, de sentinela em sentido, que me perfilo, todas as vezes que por lá passo.
Nem sempre é esse, porém, o retrato que nos devolvem os comunicadores, os propagandistas, os que vestem 13, só para fora. Dou por (mau) exemplo, os títulos jornalísticos que transcrevi  em epígrafe:   “Fátima, o maior centro europeu de turismo religioso… 30 milhões são negociados em presentes, imagens, terços, medalhinhas. Até a garrafinha de água, 14cm, vende-se por 5,50€…  Para o próximo ano, o do centenário, já estão esgotados os hotéis num perímetro de 50 KM. Cada quarto, por uma noite, custa 300 euros.
   Entre os muitos jogos infantis,  vem também o velho “jogo da glória”  que mistura dados de póker e pastorinhos a andar, a andar, até chegar a um desenho pintado de coração vermelho no meio de um  cartão e a que dão o pomposo cognome de “Coração de Jesus”.
Isto já me está a causar urticária no cérebro, só de  tragar as gordas parangonas dos jornais. Para cúmulo, caem-me os olhos e cai-me a fé quando vejo numa revista hebdomadária um anúncio, tipo descoberta das ondas gravitacionais, que reza assim, ou mais do que assim: Marcelo Rebelo de Sousa, Soares dos Santos,   Mota Engil e oum empresário obcecado  deram as mãos para produzir proximamente um filme de animação  ( um filme de milhões) sobre o Papa, os pastorinhos e Nossa Senhora, com vozes de artistas em fundo.
Nesta enorme redoma de um sol rolante, de várias cores ( como a que fez manchete em determinado jornal do incrível) já não se sabe onde pára Nossa Senhora, a da Azinheira. Onde a mensagem de Maria de Nazaré? Onde a estreita vereda que nos leva até junto de Seu Filho?
Permitam-me expressar o repúdio visceral que me assoma  quando vejo acontecimentos distintos, sublimes iniciativas culturais, a arte, a música e a poesia, os livros,  ficarem reduzidos a maços de cifras de  vendas e cheques bancários. Revolta-me até a distorção do próprio desporto, o futebol por ex., transformar o talento atlético, o rectângulo, a baliza, o relvado, os árbitros, a cabeça e os pés,  embrulhados e mensurados pelo cobertor de notas dos empresários agiotas!
Mas insuportável, nauseabundo mesmo, é que isto se passe no Altar do Mundo ou em qualquer altar de aldeia, onde deve imperar a transparência do sagrado, o intimismo inacessível de  alma  que conduz  à  mais pura espiritualidade. Não suporto. Abomino. Fujo a sete léguas deste sacrílego incesto, vergonhosamente praticado diante do Altar para  espectáculo mundano. Não vou, nunca irei por aí!
 Se não incomodar seja quem for, atrevo-me a confessar que  não me revejo em certas devoções exibicionistas, algumas delas marcadas de um doentio masoquismo e, depois,  marteladas pela imagem dos áudio. visuais que nos  chegam a casa. Sinto ressoar aos meus ouvidos o doce rebate do Nazareno: Quando jejuares e fizeres penitência, não desfigures a face como os fariseus hipócritas para serem vistos. Pelo contrário, lava o teu rosto, perfuma a tua cabeça… e o teu Pai, que vê no oculto, dar-te-á a recompensa . (Mt.6,17). E ainda: O bem que fez a tua  mão direita, que o não saiba a tua mão esquerda. (Mt.6,3)
Quero ficar hoje despido da camisola 13. Prefiro revestir-me da  transparente beleza daquela mensagem que meditei com os crentes  no primeiro acto da manhã.  O nosso J:Cristo respondia assim  a quem lhe trouxera um  recado da “Tua Mãe e dos Teus irmãos que querem falar contigo”:  Quem é minha Mãe e quem são os meus Irmãos? --- São os que fazem a vontade do Meu Pai. (Lc.8,21).   
O resto é paisagem.


13.Mai.16

Martins Júnior