domingo, 15 de maio de 2016

LEITURA DE UMA TRADIÇÃO SECULAR

                                                   


É hoje o Dia do Pentecostes, vulgarmente conhecido como a Festa do Espírito Santo. Por toda a ilha da Madeira e, mui particularmente, no Porto Santo onde existe uma capela-paróquia dedicada ao mesmo Orago ( cuja festa vivi, como pároco, há mais de 50 anos) proliferam devoções e tradições enraizadas no povo desde o início do povoamento deste arquipélago. Concorde-se ou não com o ritual das visitas privadas aos domicílios e respectivos costumes, a  sua verdade histórica diz-nos que nem sempre foram aceites pela Igreja devido à carga de ridícula  superstição com que se cultuavam as insígnias do Espírito Santo e aos excessos a que deram aso. Leia-se, por todos, a História da Igreja em Portugal, de Fortunato de Almeida.     
         As quadras que se seguem, de inspiração popular, cantadas e coreografadas na Ribeira Seca, há cerca de quarenta e cinco anos, fazem parte do CD “A Igreja é do Povo – o Povo é de Deus” (editado em 2014) e reflectem em síntese os passos dessas tradições seculares bem como a evolução da mentalidade desta gente sobre a compreensão com que interpreta o  Espírito de Deus.  



Porque hoje é dia de festa
Nós iremos recordar
A história do nosso povo
Que hoje veio apresentar

A história do Espírito Santo
Fica bem aqui lembrar
Bandeirinhas e saloias
Tudo aqui vamos contar

        I

Estava o Rei D. Dinis
Em Portugal a Reinar
A Rainha lhe pediu
P’ra uma igreja levantar

Logo o Rei fez-lhe a vontade
Alenquer foi o lugar
Procissões e romarias
Começou a organizar

        II

Zarco em Câmara de Lobos
Fez capela e fez altar
Ponta do Sol, Esmeraldo
Fez igreja de encantar

Depois a Igreja gostou
E fez sua ferramenta
Arranjou capas vermelhas
Bandeiras e agua benta

  
         III

Assim começou a festa
Com violas e machetes
À conta do Espírito Santo
Veio o homem dos foguetes

Mas não podia faltar
O saquinho do dinheiro
Grandes arrematações
Vinho e brigas pelo meio

Até as pobres criancinhas
Sem saber qual era o fim
Vieram como saloias
Elas cantavam assim:


          IV


“Acudi gente da casa
Abri a vossa portinha
Aqui tendes o Divino
Na figura da pombinha”

“Abençoada é a esmola
Se a dais com alegria
Espirito Santo Divino
Seja em vossa companhia”

       
           V

O Espírito Divino
Quando fez sua descida
Não fez nenhum carnaval
Só veio p’ra dar a vida


Agora o nosso povo
Já descobriu a verdade
Este ano o Espírito Santo
Trouxe a vida e a unidade